Mulheres avançam em cargos de liderança no Brasil,
mas maternidade e dupla jornada ainda dificultam o acesso ao topo
Foto: champc
CO ASSESSORIA
@niveabordinchacur
@clinicaleger
Mulheres
já ocupam mais cargos de liderança no Brasil. O topo corporativo, porém,
continua funcionando em uma lógica em que maternidade e carreira raramente
custam a mesma coisa para homens e mulheres.
No mês em que o país volta o olhar para o Dia das Mães, a discussão sobre liderança
feminina ganha uma camada menos visível: o peso silencioso da dupla jornada
entre gestão, cuidado e performance constante. Embora as mulheres tenham
ampliado presença em posições estratégicas nas empresas, o avanço ainda diminui
drasticamente quando o assunto são os cargos mais altos das companhias.
Dados do IBGE mostram que mulheres ocupavam 39,3% dos cargos gerenciais no
Brasil em 2022. Já o relatório Women in Business 2025, da Grant Thornton,
aponta que elas representam 36,7% das posições de liderança em empresas de
médio porte no país. Quando o recorte chega aos cargos de CEO, no entanto, a
distância continua evidente.
Levantamento da Bain & Company mostra que a participação feminina entre
CEOs das 250 maiores empresas brasileiras passou de 3% para 6% entre 2019 e
2023. O crescimento existe, mas ainda revela um afunilamento importante entre
presença feminina na liderança e acesso real ao topo corporativo.
Especialistas apontam que a desigualdade não está ligada apenas à qualificação
profissional, mas principalmente à distribuição da carga de cuidado dentro da
vida familiar. Em 2022, mulheres brasileiras dedicaram, em média, 9,6 horas
semanais a mais do que os homens aos afazeres domésticos e ao cuidado de
pessoas, segundo dados do IBGE.
O impacto aparece diretamente na trajetória profissional. Entre mulheres de 25
a 49 anos com filhos de até 3 anos em casa, o nível de ocupação cai para 54,6%.
Entre homens na mesma condição, o índice chega a 89,2%.
Na prática, mulheres que chegam a cargos de liderança frequentemente relatam
uma espécie de dupla gestão permanente: a empresa e a vida pessoal funcionando
simultaneamente.
Para Nívea Bordin Chacur, mãe de dois filhos e CEO do Grupo Leger, um dos
maiores desafios da liderança feminina no Brasil ainda é a expectativa
silenciosa de que a mulher consiga sustentar todas as áreas da vida em alta
performance ao mesmo tempo. “Muitas mulheres aprendem a liderar enquanto tentam
sustentar tudo simultaneamente. Existe uma cobrança silenciosa para que elas
consigam performar profissionalmente sem deixar que a maternidade ou a vida
pessoal pareçam afetar sua produtividade”, afirma.
Segundo ela, parte das estruturas corporativas ainda enxerga a maternidade como
uma limitação operacional, e não como uma experiência que também desenvolve
adaptação, resistência emocional e tomada de decisão. “A mulher em posição de
liderança raramente consegue abandonar completamente qualquer uma das funções
que ocupa. Isso cria um desgaste que o mercado ainda discute pouco.”
Nos últimos anos, empresas brasileiras passaram a ampliar debates sobre
flexibilidade, retenção feminina, retorno pós-licença e liderança inclusiva. Ainda
assim, boa parte das companhias continua estruturada em modelos tradicionais de
produtividade e disponibilidade total.
O tema ganhou ainda mais força após estudos internacionais mostrarem que
mulheres em cargos de liderança apresentam níveis mais altos de esgotamento
profissional, principalmente pela sobreposição entre carreira, maternidade e
trabalho de cuidado.
Para Nívea, o avanço feminino em posições estratégicas depende agora de
mudanças mais profundas dentro das próprias empresas. “Não basta apenas abrir
espaço para mulheres liderarem. O mercado precisa entender que maternidade não
reduz visão estratégica, capacidade de gestão ou ambição profissional.”
Ela acredita que uma nova geração de mulheres executivas começa a mudar a forma
como liderança é construída dentro das empresas brasileiras. “Durante muito
tempo, mulheres chegaram ao topo tentando se adaptar a estruturas construídas
por homens. A discussão agora talvez seja outra: quanto tempo o mercado ainda
vai levar para se adaptar a elas?”, conclui.
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