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sábado, 9 de maio de 2026

O custo invisível das mães que chegam ao topo corporativo

 Foto: champc
CO ASSESSORIA
 @niveabordinchacur
 @clinicaleger
Mulheres avançam em cargos de liderança no Brasil, mas maternidade e dupla jornada ainda dificultam o acesso ao topo

 

Mulheres já ocupam mais cargos de liderança no Brasil. O topo corporativo, porém, continua funcionando em uma lógica em que maternidade e carreira raramente custam a mesma coisa para homens e mulheres.

No mês em que o país volta o olhar para o Dia das Mães, a discussão sobre liderança feminina ganha uma camada menos visível: o peso silencioso da dupla jornada entre gestão, cuidado e performance constante. Embora as mulheres tenham ampliado presença em posições estratégicas nas empresas, o avanço ainda diminui drasticamente quando o assunto são os cargos mais altos das companhias.

Dados do IBGE mostram que mulheres ocupavam 39,3% dos cargos gerenciais no Brasil em 2022. Já o relatório Women in Business 2025, da Grant Thornton, aponta que elas representam 36,7% das posições de liderança em empresas de médio porte no país. Quando o recorte chega aos cargos de CEO, no entanto, a distância continua evidente.

Levantamento da Bain & Company mostra que a participação feminina entre CEOs das 250 maiores empresas brasileiras passou de 3% para 6% entre 2019 e 2023. O crescimento existe, mas ainda revela um afunilamento importante entre presença feminina na liderança e acesso real ao topo corporativo.

Especialistas apontam que a desigualdade não está ligada apenas à qualificação profissional, mas principalmente à distribuição da carga de cuidado dentro da vida familiar. Em 2022, mulheres brasileiras dedicaram, em média, 9,6 horas semanais a mais do que os homens aos afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas, segundo dados do IBGE.

O impacto aparece diretamente na trajetória profissional. Entre mulheres de 25 a 49 anos com filhos de até 3 anos em casa, o nível de ocupação cai para 54,6%. Entre homens na mesma condição, o índice chega a 89,2%.

Na prática, mulheres que chegam a cargos de liderança frequentemente relatam uma espécie de dupla gestão permanente: a empresa e a vida pessoal funcionando simultaneamente.

Para Nívea Bordin Chacur, mãe de dois filhos e CEO do Grupo Leger, um dos maiores desafios da liderança feminina no Brasil ainda é a expectativa silenciosa de que a mulher consiga sustentar todas as áreas da vida em alta performance ao mesmo tempo. “Muitas mulheres aprendem a liderar enquanto tentam sustentar tudo simultaneamente. Existe uma cobrança silenciosa para que elas consigam performar profissionalmente sem deixar que a maternidade ou a vida pessoal pareçam afetar sua produtividade”, afirma.

Segundo ela, parte das estruturas corporativas ainda enxerga a maternidade como uma limitação operacional, e não como uma experiência que também desenvolve adaptação, resistência emocional e tomada de decisão. “A mulher em posição de liderança raramente consegue abandonar completamente qualquer uma das funções que ocupa. Isso cria um desgaste que o mercado ainda discute pouco.”

Nos últimos anos, empresas brasileiras passaram a ampliar debates sobre flexibilidade, retenção feminina, retorno pós-licença e liderança inclusiva. Ainda assim, boa parte das companhias continua estruturada em modelos tradicionais de produtividade e disponibilidade total.

O tema ganhou ainda mais força após estudos internacionais mostrarem que mulheres em cargos de liderança apresentam níveis mais altos de esgotamento profissional, principalmente pela sobreposição entre carreira, maternidade e trabalho de cuidado.

Para Nívea, o avanço feminino em posições estratégicas depende agora de mudanças mais profundas dentro das próprias empresas. “Não basta apenas abrir espaço para mulheres liderarem. O mercado precisa entender que maternidade não reduz visão estratégica, capacidade de gestão ou ambição profissional.”

Ela acredita que uma nova geração de mulheres executivas começa a mudar a forma como liderança é construída dentro das empresas brasileiras. “Durante muito tempo, mulheres chegaram ao topo tentando se adaptar a estruturas construídas por homens. A discussão agora talvez seja outra: quanto tempo o mercado ainda vai levar para se adaptar a elas?”, conclui.


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