Até um terço da força de trabalho pode estar operando com desempenho reduzido. É o fenômeno silencioso vem comprometendo a produtividade das empresas brasileiras — e ele não aparece em atestados médicos. Trata-se do presenteísmo, condição em que o profissional permanece fisicamente no trabalho, mas já não consegue desempenhar com sua plena capacidade cognitiva e emocional. “É o trabalhador que continua entregando, mas entrega menos. Decide, mas decide pior. Lidera, mas já está desgastado. Como ele ainda está presente, esse problema é invisível — e, muitas vezes, normalizado dentro das empresas”, explica o psiquiatra corporativo Dr. Daniel Sócrates, especialista saúde mental no trabalho.
Os
números mostram que o impacto está longe de ser pequeno. Estimativas do IBEF-SP
apontam que o presenteísmo custa mais de R$ 200 bilhões por ano à economia
brasileira. Dentro das empresas, o índice médio chega a 31%, o que significa
que quase um terço da folha de pagamento pode estar sendo destinado a uma
performance comprometida.
O adoecimento que começa antes do afastamento
Por trás desses números está um processo progressivo de desgaste emocional que antecede o colapso. Ansiedade constante, exaustão, dificuldade de concentração, irritabilidade e perda de prazer são alguns dos sinais mais comuns — frequentemente ignorados ou tratados como parte da rotina.
“Antes do afastamento formal, há meses — às vezes anos — de queda silenciosa de desempenho. É o líder que perde a tolerância, o gestor que não dorme, o executivo que toma decisões com a cognição comprometida. É o adoecimento disfarçado de produtividade”, afirma Dr. Daniel.
E
os dados recentes reforçam o cenário: em 2024, o Brasil registrou mais de 472
mil afastamentos por transtornos mentais — o maior número da série histórica,
com crescimento expressivo dos casos de ansiedade na última década. Para o
especialista, no entanto, esses números representam apenas a “ponta do
iceberg”.
Estudos comprovam o prejuízo
No cenário internacional, um estudo publicado no Journal of Affective Disorders coloca o Brasil como o segundo país com maior prejuízo causado por presenteísmo associado à depressão, ultrapassando US$ 63 bilhões anuais — atrás apenas dos Estados Unidos.
Já
a Harvard Business Review indica que, em ambientes de alta exigência
cognitiva e emocional, o custo do presenteísmo pode ser até três vezes maior do
que o do absenteísmo.
Saúde mental deixa de ser benefício e vira obrigação legal
Com a entrada em vigor da atualização da NR-1, que inclui os riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos, a saúde mental passa a ser reconhecida como risco ocupacional — com responsabilidade direta das empresas.
“Não
se trata mais de uma pauta de bem-estar. É uma questão de gestão de risco.
Ignorar o presenteísmo é ignorar um fator que compromete produtividade, segurança
e tomada de decisão”, destaca o psiquiatra.
Para
Dr. Daniel, um dos principais equívocos das organizações é tratar o
presenteísmo como falha individual, e não como reflexo de uma estrutura de
trabalho disfuncional.
“As empresas que não revisarem suas práticas vão pagar duas vezes: na produtividade que se perde todos os dias e no passivo trabalhista que se acumula em silêncio. Não falta gente trabalhando. Falta gente inteira”, conclui.
Dr. Daniel Sócrates - Médico psiquiatra, doutor pela
UNIFESP, com mais de duas décadas de atuação clínica. Dedica-se ao cuidado de
profissionais que enfrentam altos níveis de exigência e responsabilidade, com
abordagem focada em performance sustentável, saúde mental e qualidade de vida. Link
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