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sábado, 9 de maio de 2026

Presenteísmo: o fenômeno silencioso custa bilhões às empresas brasileiras

 

Até um terço da força de trabalho pode estar operando com desempenho reduzido. É o fenômeno silencioso vem comprometendo a produtividade das empresas brasileiras — e ele não aparece em atestados médicos. Trata-se do presenteísmo, condição em que o profissional permanece fisicamente no trabalho, mas já não consegue desempenhar com sua plena capacidade cognitiva e emocional. “É o trabalhador que continua entregando, mas entrega menos. Decide, mas decide pior. Lidera, mas já está desgastado. Como ele ainda está presente, esse problema é invisível — e, muitas vezes, normalizado dentro das empresas”, explica o psiquiatra corporativo Dr. Daniel Sócrates, especialista saúde mental no trabalho. 

Os números mostram que o impacto está longe de ser pequeno. Estimativas do IBEF-SP apontam que o presenteísmo custa mais de R$ 200 bilhões por ano à economia brasileira. Dentro das empresas, o índice médio chega a 31%, o que significa que quase um terço da folha de pagamento pode estar sendo destinado a uma performance comprometida.

 

O adoecimento que começa antes do afastamento 

Por trás desses números está um processo progressivo de desgaste emocional que antecede o colapso. Ansiedade constante, exaustão, dificuldade de concentração, irritabilidade e perda de prazer são alguns dos sinais mais comuns — frequentemente ignorados ou tratados como parte da rotina. 

“Antes do afastamento formal, há meses — às vezes anos — de queda silenciosa de desempenho. É o líder que perde a tolerância, o gestor que não dorme, o executivo que toma decisões com a cognição comprometida. É o adoecimento disfarçado de produtividade”, afirma Dr. Daniel. 

E os dados recentes reforçam o cenário: em 2024, o Brasil registrou mais de 472 mil afastamentos por transtornos mentais — o maior número da série histórica, com crescimento expressivo dos casos de ansiedade na última década. Para o especialista, no entanto, esses números representam apenas a “ponta do iceberg”.

 

Estudos comprovam o prejuízo 

No cenário internacional, um estudo publicado no Journal of Affective Disorders coloca o Brasil como o segundo país com maior prejuízo causado por presenteísmo associado à depressão, ultrapassando US$ 63 bilhões anuais — atrás apenas dos Estados Unidos. 

Já a Harvard Business Review indica que, em ambientes de alta exigência cognitiva e emocional, o custo do presenteísmo pode ser até três vezes maior do que o do absenteísmo.

 

Saúde mental deixa de ser benefício e vira obrigação legal 

Com a entrada em vigor da atualização da NR-1, que inclui os riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos, a saúde mental passa a ser reconhecida como risco ocupacional — com responsabilidade direta das empresas. 

“Não se trata mais de uma pauta de bem-estar. É uma questão de gestão de risco. Ignorar o presenteísmo é ignorar um fator que compromete produtividade, segurança e tomada de decisão”, destaca o psiquiatra.

Para Dr. Daniel, um dos principais equívocos das organizações é tratar o presenteísmo como falha individual, e não como reflexo de uma estrutura de trabalho disfuncional.

“As empresas que não revisarem suas práticas vão pagar duas vezes: na produtividade que se perde todos os dias e no passivo trabalhista que se acumula em silêncio. Não falta gente trabalhando. Falta gente inteira”, conclui. 

 

Dr. Daniel Sócrates - Médico psiquiatra, doutor pela UNIFESP, com mais de duas décadas de atuação clínica. Dedica-se ao cuidado de profissionais que enfrentam altos níveis de exigência e responsabilidade, com abordagem focada em performance sustentável, saúde mental e qualidade de vida. Link

 

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