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A transformação do consumo alimentar deixou de ser tendência para se tornar pressão real sobre a indústria. Nos últimos meses, uma série de movimentações estratégicas reforçou essa virada: a Ferrero, dona da Nutella, adquiriu a brasileira Bold Snacks, marcando sua entrada mais estruturada no segmento de snacks funcionais. Já a Danone anunciou a compra da britânica Huel, especializada em shakes proteicos, por 1 bilhão de euros (cerca de R$ 6 bilhões). No Brasil, a Nestlé escolheu o país como o primeiro mercado global para receber a Nestlé Vital, nova marca voltada ao público 40+, reforçando o potencial do país como hub de inovação e consumo no segmento de saúde e bem-estar.
Esses movimentos acompanham um consumidor que mudou de lógica: sai de cena a era do “zero”, marcada por produtos com redução de açúcar, gordura ou calorias e ganha força a era do “plus”, baseada na adição de valor nutricional. Para Paulo Ibri, CEO da Typcal, primeira foodtech da América Latina a trabalhar com fermentação de micélio, essa transição não é uma surpresa, mas uma consequência inevitável do amadurecimento do consumidor. “Essa mudança ia acontecer. O consumidor evoluiu, passou a entender mais sobre nutrição e começou a exigir mais dos produtos. Agora, a indústria precisa correr para acompanhar esse novo nível de exigência”, afirma.
Diante desse cenário, mais do que ajustar portfólio, as empresas
precisam repensar a forma como desenvolvem alimentos, da escolha de
ingredientes ao papel da tecnologia. A seguir, Ibri aponta quais são principais
mudanças que devem guiar o setor nos próximos anos.
1. Da restrição à nutrição combinada
Mais do que adicionar proteína ou reduzir açúcar, o
novo consumidor busca soluções completas. A lógica deixa de ser centrada em um único
atributo e passa a considerar combinações de ingredientes que entreguem
benefícios múltiplos, energia, saciedade, saúde intestinal e performance
cognitiva no mesmo produto.
“Não estamos mais falando de alimentos com ‘um benefício’. O
consumidor quer uma entrega integrada, quase como uma plataforma nutricional
dentro do produto”, explica Ibri.
2. A fibra ganha protagonismo nas formulações
Se antes a proteína dominava o discurso, e ainda não
perdeu o seu protagonismo, a fibra emerge como novo pilar central, impulsionada
pela crescente preocupação com saúde digestiva e equilíbrio metabólico.
Ingredientes ricos em fibras passam a ocupar o centro das formulações, não
apenas como complemento, mas como proposta principal de valor.“O avanço da
discussão sobre microbiota intestinal colocou a fibra em outro patamar. Ela
deixa de ser coadjuvante e passa a liderar inovação em várias categorias”, diz
o executivo.
3. Funcionalidade deixa de ser diferencial e vira requisito
básico
Imunidade, foco, energia e bem-estar deixam de ser
promessas aspiracionais e passam a ser expectativas mínimas. O consumidor quer
entender claramente o impacto do alimento no seu dia a dia e cobra isso das
marcas.“Hoje, não basta dizer que é saudável. O consumidor quer saber para que serve
aquele produto na prática”, afirma Ibri.
4. Tecnologia acelera a nova geração de alimentos
O avanço das foodtechs, da biotecnologia e de novos
processos industriais está viabilizando uma nova geração de produtos mais
densos nutricionalmente, sem abrir mão de sabor, textura e conveniência ,
fatores que seguem decisivos para o consumidor. Isso inclui desde o
desenvolvimento de ingredientes funcionais mais eficientes até técnicas que
permitem combinar múltiplos benefícios em um único produto, como proteínas,
fibras e compostos bioativos.
Além disso, a tecnologia também abre espaço para personalização e
maior precisão nutricional, permitindo que as marcas desenvolvam soluções mais
alinhadas a diferentes perfis de consumo e momentos do dia.
“A tecnologia deixou de ser suporte e passou a ser protagonista na
indústria alimentícia. É ela que permite escalar inovação e entregar produtos
que realmente acompanham o nível de exigência e de forma rápida”, aponta o CEO.
Com grandes grupos já reposicionando seus portfólios e investindo
em novas categorias, o recado é claro: a indústria alimentícia entrou
definitivamente na era do “plus” e adaptar-se a esse novo consumidor deixou de
ser inovação para se tornar questão de sobrevivência competitiva.

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