Após grandes perdas de peso, pacientes enfrentam excesso de pele, flacidez severa e impactos físicos e emocionais que muitas vezes não são discutidos antes da cirurgia
Durante muito tempo, a cirurgia bariátrica foi tratada como o ponto final da transformação. A ideia parecia simples: perder peso significava resolver o problema. Mas, para milhares de pacientes, especialmente após grandes emagrecimentos, a realidade mostra que o processo está longe de terminar ali.
Depois da perda acelerada de peso, surge um novo desafio: o chamado “efeito rebote estético”, marcado pelo excesso de pele, flacidez intensa, alterações no contorno corporal e um impacto emocional que pode ser tão profundo quanto o próprio processo de emagrecimento.
O recente debate em torno da influenciadora Thaís Carla e
sua cirurgia bariátrica reacendeu esse assunto e trouxe à tona uma questão
importante: emagrecer nem sempre significa se reconhecer no espelho.
Segundo o cirurgião plástico Dr. Luiz Anizio Wanna, esse é um tema que ainda é pouco falado de forma honesta.
“Muitas pessoas acreditam que a bariátrica encerra a transformação, mas para muitos pacientes ela é apenas o início de uma nova fase. O corpo muda rapidamente, mas a pele nem sempre acompanha essa mudança”, explica.
Quando
a pele não acompanha o novo corpo
Após perdas significativas de peso, seja por cirurgia bariátrica, uso de medicações para emagrecimento ou mudanças intensas de estilo de vida, o organismo passa por uma transformação brusca. A gordura diminui, mas a pele, que ficou distendida por anos, muitas vezes não consegue retornar ao seu estado anterior.
O resultado aparece em regiões como:
- abdômen
- braços
- mamas
- coxas
- costas
- rosto
- pescoço
Além da questão estética, o excesso de pele pode gerar assaduras frequentes, dificuldade de higiene, dores posturais, limitação de movimento e até infecções recorrentes.
“Não estamos falando apenas de aparência. Em muitos casos, o excesso de pele afeta mobilidade, autoestima e qualidade de vida. Existem pacientes que conseguem emagrecer, mas continuam presos a um desconforto físico e emocional muito grande”, afirma o especialista.
O
impacto psicológico que quase ninguém menciona
Um dos pontos mais delicados do pós-bariátrica é a
frustração emocional. Muitos pacientes esperam que, após emagrecer, finalmente
irão se sentir bem com o próprio corpo e nem sempre isso acontece de imediato.
A flacidez severa e o excesso de pele podem gerar uma nova insatisfação corporal, muitas vezes silenciosa.
Estudos publicados no Obesity Surgery Journal mostram que pacientes submetidos à bariátrica frequentemente relatam melhora na saúde metabólica, mas também enfrentam desafios importantes relacionados à autoimagem e adaptação psicológica ao novo corpo.
“O paciente perde peso, mas muitas vezes ainda não se sente livre. Ele melhora clinicamente, mas ainda sente vergonha de se expor, de usar determinadas roupas ou até de viver relações afetivas com segurança”, explica Dr. Luiz Wanna.
A
cirurgia reparadora entra como continuação do tratamento
É nesse momento que entram as chamadas cirurgias reparadoras ou reconstrutivas pós-bariátricas.
Abdominoplastia, mastopexia, lifting de braços, lifting de
coxas e remodelações faciais passam a fazer parte de uma nova etapa: não mais
emagrecer, mas reconstruir. Segundo o médico, essas cirurgias não devem ser
vistas como vaidade, mas como continuidade terapêutica.
A cirurgia plástica pós-bariátrica não é luxo. Em muitos casos, ela devolve funcionalidade, conforto e dignidade. O paciente não busca perfeição, busca pertencimento ao próprio corpo.
A indicação, no entanto, exige planejamento. O ideal é que o peso esteja estabilizado, que exames nutricionais estejam controlados e que o organismo esteja preparado para um novo procedimento cirúrgico.
O
rosto também emagrece e envelhece
Outro efeito muito comum após grandes perdas de peso é o envelhecimento facial acelerado.
Com a redução brusca da gordura facial, muitos pacientes
passam a apresentar:
- aspecto
cansado
- sulcos
mais profundos
- perda
de sustentação
- flacidez
no pescoço
- aparência de envelhecimento precoce
Esse fenômeno tem se tornado ainda mais frequente com o crescimento do uso das chamadas canetas emagrecedoras.
“A pessoa emagrece no corpo e, às vezes, se assusta com o reflexo no rosto. A perda de volume facial pode gerar uma sensação de envelhecimento importante, e isso também precisa ser tratado com estratégia”, explica o cirurgião.
Nesses casos, técnicas como enxerto de gordura autóloga, lifting facial e estímulos regenerativos com bioestimuladores e lasers podem ajudar a devolver naturalidade e equilíbrio.
O
erro de tratar a bariátrica como linha de chegada
O cirurgião plástico Dr. Luiz Anizio Wanna conclui: “o maior problema, segundo especialistas, é vender a ideia de que a bariátrica resolve tudo sozinha. Ela salva vidas, melhora diabetes, reduz hipertensão e transforma indicadores metabólicos, mas não encerra o processo de reconstrução física e emocional.”
No fim, a discussão vai além da estética.
Trata-se de devolver ao paciente não apenas um corpo mais
leve, mas um corpo habitável. Um corpo em que ele consiga viver com conforto,
segurança e autoestima. Porque, para muitos pacientes, emagrecer foi só o
começo. O verdadeiro processo começa quando finalmente surge a pergunta mais
difícil: “Agora que eu perdi o peso… como eu volto a me reconhecer?”
E, muitas vezes, essa resposta não está na balança, está na
reconstrução.


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