·
Estudo conduzido pela Fundação Carlos Chagas e MEC ouve
gestores escolares e lança guia para promover ambientes escolares mais seguros,
participativos e acolhedores
·
71,7% dos gestores escolares apontam dificuldades para
dialogar sobre o enfrentamento às violências, como bullying, racismo e
capacitismo
·
67,6% das escolas possuem equipe responsável por ações
voltadas à melhoria do clima escolar
Uma pesquisa
nacional revela que o enfrentamento às diferentes formas de violência, como
bullying, racismo e capacitismo, ainda é o principal desafio para a promoção de
um clima escolar positivo nas escolas públicas brasileiras. Segundo o estudo,
71,7% dos gestores apontam dificuldade para dialogar sobre o tema, enquanto
mais da metade das escolas nunca realizou um diagnóstico estruturado do clima
escolar, etapa considerada essencial para orientar políticas de convivência e
aprendizagem.
A pesquisa foi
conduzida pela Fundação Carlos Chagas (FCC) em parceria com o Ministério da
Educação (MEC) e fundamenta a elaboração do novo Guia de Clima Escolar Positivo para
Equipes Gestoras, que será lançado oficialmente no dia
7 de maio, quinta-feira, às 10 horas, no canal do YouTube do MEC. A iniciativa integra o Programa Escola das Adolescências,
instituído pela Portaria MEC nº 635/2024, voltado ao fortalecimento da
qualidade da educação nos anos finais do ensino fundamental.
Relação família-escola
Além do
enfrentamento às violências, 67,9% dos gestores relatam dificuldades para
fortalecer a aproximação entre escola, famílias e comunidade, enquanto 64,1%
apontam entraves na construção de bons relacionamentos entre estudantes e 60,3%
mencionam desafios para desenvolver o sentimento de pertencimento dos alunos.
Para o pesquisador
Adriano Moro, do Departamento de Pesquisas Educacionais da FCC e coordenador do
estudo, os resultados reforçam que o clima escolar é reconhecido pelos gestores
como elemento central para a aprendizagem, a convivência democrática e o
bem-estar da comunidade escolar.
“Os gestores
identificam o clima escolar como um fundamento da qualidade educacional, capaz
de fortalecer vínculos entre estudantes, professores e famílias, ampliar o engajamento
dos alunos e favorecer processos de aprendizagem mais consistentes”, afirma.
Escuta
ativa
Apesar dos
desafios, o estudo identifica práticas já consolidadas nas redes públicas
voltadas à melhoria do clima escolar, combinando escuta ativa, promoção da
convivência e fortalecimento das relações entre estudantes, educadores e
comunidade. Rodas de conversa, mediação de conflitos, projetos socioemocionais
e acompanhamento psicopedagógico aparecem entre as iniciativas mais
recorrentes, com foco na construção de ambientes mais seguros, acolhedores e
baseados no diálogo. “Os relatos indicam que muitas escolas já vêm substituindo
respostas pontuais aos conflitos por práticas permanentes de escuta, prevenção
e cuidado com as relações”, afirma o coordenador do estudo.
O levantamento
também destaca ações voltadas ao fortalecimento das equipes escolares e à
ampliação da participação das famílias e do território. A construção coletiva
de planos de ação, reuniões sistemáticas e alinhamentos pedagógicos aparecem como
estratégias para ampliar o engajamento profissional e a corresponsabilidade
institucional. “A melhoria do clima escolar depende de processos contínuos de
escuta, formação e articulação entre escola, comunidade e políticas públicas”,
ressalta Moro.
Gestão
O levantamento mostra que 67,6% das escolas possuem equipe responsável por ações voltadas à melhoria do clima escolar, enquanto 32,4% não contam com um grupo formalizado. Nesses casos, a própria equipe gestora e a coordenação pedagógica assumem as iniciativas, geralmente acionadas diante de conflitos específicos.
Entre os
principais entraves relatados aparecem a sobrecarga de trabalho das equipes
escolares, a ausência de profissionais com formação específica, a resistência a
mudanças institucionais, a rotatividade de servidores e a dificuldade de
engajamento coletivo.
“Os gestores
apontam que a melhoria do clima escolar depende da articulação entre escola,
famílias, comunidade e políticas públicas. Para que as mudanças aconteçam de
fato, é preciso alinhar compreensão conceitual, continuidade das ações e
condições estruturais que permitam transformar boas intenções em práticas
consistentes no cotidiano escolar”, relata o pesquisador.
A pesquisa aponta
ainda que 54,8% das escolas nunca realizaram avaliação estruturada do clima
escolar, enquanto 45,1% já adotaram algum tipo de diagnóstico institucional. “A
ausência desse monitoramento dificulta o planejamento de políticas contínuas de
convivência e bem-estar. Muitas escolas já realizam ações importantes, mas ainda
de forma isolada. O grande desafio é transformar iniciativas pontuais em
processos permanentes de melhoria do clima escolar”, considera o
pesquisador.
Guia
de Clima Escolar
As evidências produzidas pela pesquisa foram utilizadas diretamente na elaboração do novo Guia de Clima Escolar Positivo para Equipes Gestoras, desenvolvido pelo MEC, em parceria com o Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) e a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), com elaboração técnica da FCC.
A publicação parte
do entendimento de que cada escola possui um clima próprio, influenciado por
sua história, pelo território e pelas relações estabelecidas no cotidiano
escolar. O guia orienta que a melhoria do clima escolar seja assumida como prioridade
estratégica da gestão, mas construída coletivamente. A proposta prevê a criação
de equipes de melhoria do clima escolar, incentivando práticas de escuta ativa,
colaboração e corresponsabilidade entre estudantes, famílias, professores e
demais profissionais da escola.
Vinculado ao
Programa Escola das Adolescências, o material dialoga com os desafios dos anos
finais do ensino fundamental e incorpora aprendizados da escuta de mais de 2,3
milhões de estudantes em todo o país. A publicação reforça o papel da escola
como espaço de convivência, proteção e desenvolvimento integral, capaz de
fortalecer vínculos e prevenir situações de violência.
Sobre
a pesquisa
Realizada entre
março e julho de 2025, ao longo de 17 semanas, a pesquisa envolveu 136 gestores
de 105 escolas públicas — sendo 59 municipais e 46 estaduais — distribuídas em
dez estados brasileiros: Amazonas, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Minas Gerais,
Pará, Pernambuco, Rio de Janeiro, Sergipe e São Paulo.
A metodologia
combinou leitura guiada, registros reflexivos e rodas de conversa virtuais,
totalizando 90 encontros, em articulação com o Grupo de Trabalho Clima Escolar
e Convivência do MEC, que reúne instituições como Fundo das Nações Unidas para
a Infância (UNICEF), Fundação Roberto Marinho, Ação Educativa, Laboratório de
Estudos e Pesquisas em Economia Social da Universidade de São Paulo (Lepes/USP)
e Núcleo de Pesquisa em Desigualdades Escolares da Universidade Federal de
Minas Gerais (NUPEDE/UFMG).
Principais dados da pesquisa sobre clima escolar nas escolas
públicas
Pesquisa nacional — Fundação Carlos Chagas e MEC
- 71,7%
dos gestores apontam dificuldade para dialogar sobre enfrentamento às
violências (bullying, racismo, capacitismo).
- 67,9%
relatam desafios na aproximação entre escola, famílias e comunidade.
- 64,1% indicam dificuldades para fortalecer relacionamentos entre estudantes.
- 60,3% afirmam que ainda é difícil desenvolver o sentimento de pertencimento dos alunos.
- 60,3% mencionam entraves na relação estudantes–professores.
- 49%
apontam desafios ligados à promoção do sentimento de segurança entre
estudantes.
Estrutura das escolas
- 67,6%
das escolas possuem equipe responsável por ações de melhoria do clima
escolar.
- 32,4%
não contam com equipe formal — as ações ficam sob responsabilidade direta
da gestão.
Principais obstáculos identificados:
- sobrecarga
das equipes escolares;
- falta
de formação específica;
- resistência institucional a mudanças;
- rotatividade
de profissionais;
- dificuldade
de engajamento coletivo.
Práticas que fortalecem a confiança na escola
Gestores destacam como ações mais presentes:
- rodas
de conversa e escuta ativa
- mediação
de conflitos
- projetos
socioemocionais e Projeto de Vida
- reuniões
sistemáticas e construção coletiva de planos
- participação
da família e parcerias com a comunidade
Diagnóstico do clima escolar
- 54,8%
das escolas nunca realizaram avaliação estruturada do clima escolar.
- 45,1%
já realizaram algum tipo de diagnóstico.

Nenhum comentário:
Postar um comentário