Mulheres têm cada vez mais autonomia para decidir quando ser mães, mas ainda tomam decisões com base em estimativas generalistas. A pergunta agora é: com quais dados essa escolha está sendo feita?
No contexto do Dia das Mães, a discussão sobre fertilidade ganha novos contornos. Antes da maternidade celebrada no mês de maio, existe uma jornada muitas vezes invisível, marcada por decisões complexas, expectativas e, frequentemente, falta de informação. À medida que a medicina reprodutiva evolui, cresce também a demanda por ferramentas que ajudem a transformar essa jornada em algo mais transparente.
Atualmente, planejar a maternidade nunca foi tão possível e, ao mesmo tempo, tão incerto. Cada vez mais, as mulheres estão tomando decisões mais intencionais e individualizadas sobre se e quando desejam se tornar mães. Mas, quando a questão está relacionada à fertilidade, muitas ainda enfrentam uma limitação relevante: boa parte das decisões continuam baseadas em médias populacionais, e não em dados individuais.
A idade segue sendo o principal parâmetro utilizado para estimar o potencial reprodutivo feminino. No entanto, embora seja um fator importante, ela não captura a variabilidade entre mulheres. Esse cenário se torna ainda mais evidente em processos como o congelamento de óvulos ou a fertilização in vitro (FIV). Hoje, é comum que pacientes recebam informações sobre a quantidade de óvulos coletados, mas tenham pouca visibilidade sobre o potencial individual de cada um deles, um dado que pode influenciar decisões importantes ao longo do tratamento.
É nesse ponto que a tecnologia começa a ganhar espaço. A empresa canadense Future Fertility desenvolveu uma plataforma baseada em inteligência artificial capaz de analisar imagens de óvulos captadas em laboratório e identificar padrões associados ao seu potencial reprodutivo. A tecnologia fornece insights personalizados e orientados por dados sobre as chances de sucesso da paciente, com base na análise dos seus próprios óvulos. Embora esses insights não representem uma garantia, eles oferecem uma camada adicional de informação para apoiar médicos e pacientes na tomada de decisões mais informadas.
“Hoje, as mulheres têm mais opções do que nunca para decidir se e quando querem se tornar mães. O próximo passo é garantir que essas decisões sejam apoiadas por dados relevantes e individualizados”, afirma Christy Prada, CEO da Future Fertility. “Toda paciente merece dados objetivos – não apenas uma estimativa – para apoiar decisões melhores em momentos críticos do seu cuidado. Embora a tecnologia não substitua os aspectos pessoais dessa jornada, ela pode ajudar a reduzir a incerteza e trazer mais clareza ao longo do caminho.”
Na prática, após a coleta, os óvulos
são fotografados em alta resolução, enquanto são rotineiramente observados ao
microscópio como parte da prática padrão do laboratório. A partir dessas
imagens, algoritmos treinados com milhares de dados identificam padrões morfológicos
imperceptíveis ao olho humano, associados ao potencial de desenvolvimento
daquele óvulo. E a ferramenta emite dois tipos de relatórios: o VIOLET™ e o
MAGENTA™. Embora utilizem a mesma base tecnológica, os dois relatórios
respondem a momentos diferentes da jornada.
O VIOLET™ é voltado para mulheres que
estão congelando óvulos. Ele oferece uma análise individual de cada óvulo
vitrificado e estima seu potencial futuro de desenvolvimento, ajudando a
responder uma pergunta prática: quais são as chances de ter um bebê a partir
desse grupo específico de óvulos que foi congelado? Em vez de apenas informar
quantos óvulos foram congelados, o relatório adiciona uma camada de
interpretação sobre a qualidade desse “estoque”, permitindo decisões mais
informadas sobre a necessidade – ou não – de novos ciclos.
Já o MAGENTA™ é aplicado em ciclos de FIV e foca no desempenho dos óvulos dentro do tratamento. O relatório atribui uma pontuação individual a cada óvulo, correlacionada à probabilidade de ele se desenvolver até o estágio de blastocisto, etapa crítica para a formação de embriões viáveis. Essas informações ajudam médicos e pacientes a interpretar resultados do ciclo atual e a ajustar estratégias futuras, especialmente em casos de tentativas anteriores sem sucesso.
Diferentemente de testes invasivos ou intervenções adicionais, a tecnologia da Future Fertility está integrada ao fluxo de trabalho já existente no laboratório, utilizando imagens capturadas como parte da observação rotineira dos oócitos ao microscópio. “O objetivo não é garantir resultados, mas oferecer maior visibilidade sobre a qualidade dos óvulos em um momento crítico – ajudando médicos e pacientes a tomar decisões mais informadas com dados que antes não estavam disponíveis", explica Christy Prada.
O avanço da inteligência artificial na fertilidade aponta para uma mudança de paradigma: sair de uma lógica baseada apenas em probabilidade e caminhar em direção a uma abordagem mais personalizada, em que cada decisão pode ser formada pelos próprios dados da paciente.



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