9 em cada 10 mães brasileiras apresentam sinais de burnout parental
O mês de maio, marcado pela campanha Maio Furta-Cor, propõe ampliar o debate sobre a saúde mental materna no Brasil, especialmente no período perinatal. Apesar do aumento das discussões nos últimos anos, o sofrimento psíquico de mães ainda é frequentemente invisibilizado ou tratado como parte natural da maternidade, o que dificulta o reconhecimento dos sintomas e o acesso ao cuidado.
Dados recentes
evidenciam a dimensão do esgotamento materno no país. Uma pesquisa nacional
realizada em 2024 pelas plataformas B2Mamy e Kiddle Pass aponta que 9 em cada
10 mães brasileiras apresentam sinais de burnout parental, com níveis que
variam de moderado a grave. O levantamento foi divulgado em veículos como a
revista Veja e revela a alta incidência de exaustão emocional entre mulheres
que conciliam maternidade, trabalho e responsabilidades domésticas.
Outro levantamento
conduzido pela plataforma De Mãe em Mãe, indica que apenas 9% das mães não
apresentam sintomas relevantes de esgotamento, enquanto a grande maioria relata
sobrecarga constante no cotidiano. Os dados reforçam que o adoecimento psíquico
materno não é um fenômeno isolado, mas um reflexo de condições estruturais que
impactam diretamente a experiência da maternidade no país.
Entre os quadros
mais comuns relacionados à saúde mental materna estão a depressão pós-parto e
os transtornos de ansiedade, que podem surgir ainda na gestação ou nos
primeiros meses após o nascimento do bebê. A depressão se manifesta por
sintomas como tristeza persistente, exaustão, culpa intensa e dificuldade de
conexão com a criança, enquanto a ansiedade aparece em forma de preocupação
constante, medo excessivo e pensamentos intrusivos, muitas vezes silenciosos e
subdiagnosticados. Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde, cerca de
13% das mulheres no pós-parto apresentam transtornos mentais, sendo essas
condições ainda mais frequentes em contextos de vulnerabilidade social e
ausência de rede de apoio. Em muitos casos, esses sinais são naturalizados como
parte da maternidade, o que atrasa o reconhecimento do sofrimento e o acesso ao
cuidado adequado.
Para a psicóloga
Maiumi Souza, especialista em Gestalt-Terapia e Desenvolvimento Infantil,
romper com a naturalização do sofrimento materno é um passo essencial para
ampliar o cuidado.
“A saúde mental
materna ainda é tratada como um tema secundário, quando, na verdade, ela
sustenta toda a experiência do cuidado. Muitas mulheres atravessam o puerpério
em silêncio, lidando com exaustão, ansiedade e solidão, sem nomear o que estão
sentindo. Quando o sofrimento é naturalizado, ele deixa de ser reconhecido como
algo que precisa de cuidado. E isso adoece”, afirma.
A especialista
destaca que o impacto não se limita às mães, mas também alcança o
desenvolvimento das crianças. Segundo ela, o vínculo afetivo é construído a
partir da disponibilidade emocional do cuidador, o que pode ser comprometido em
contextos de esgotamento e ausência de suporte.
“A maternidade não
acontece isoladamente. Quando não há rede de apoio, quando o cuidado é concentrado
em uma única pessoa, o risco de adoecimento aumenta. Cuidar da saúde mental das
mães é também cuidar do desenvolvimento emocional das crianças. Não é uma
escolha individual, é uma responsabilidade coletiva”, completa.
A campanha Maio Furta-Cor surge justamente como um convite à escuta e à construção de uma cultura que reconheça a complexidade da maternidade, valorizando o cuidado com quem cuida e ampliando o acesso a suporte psicológico e social.
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