Psiquiatra Thaíssa Pandolfi explica por que muitas mães descobrem traços de
autismo, TDAH e outras neurodivergências apenas na vida adulta
Freepik
Neste Dia das Mães, um movimento cada vez mais observado nos consultórios tem chamado a atenção de especialistas em saúde mental: mulheres que, ao acompanharem o diagnóstico de autismo ou TDAH dos filhos, começam a reconhecer em si mesmas características semelhantes que passaram despercebidas durante toda a vida.
A cena tem se repetido com frequência. Durante as avaliações clínicas das crianças, muitas mães se identificam com relatos sobre hipersensibilidade, exaustão social, necessidade de previsibilidade, dificuldade de pertencimento e sensação constante de inadequação. O que inicialmente era uma busca por respostas para os filhos acaba abrindo espaço para uma descoberta pessoal profunda.
Segundo a psiquiatra, Dra. Thaíssa Pandolfi, especialista em neurodivergência feminina, autismo, TDAH e superdotação, esse fenômeno está diretamente ligado à forma como, durante décadas, os critérios diagnósticos foram construídos principalmente a partir de estudos realizados com meninos.
“Durante muito tempo, muitas mulheres passaram despercebidas porque aprenderam a mascarar dificuldades desde cedo. Elas observavam comportamentos, imitavam interações sociais e criavam estratégias para se adaptar. Externamente pareciam funcionar bem, mas internamente conviviam com exaustão emocional, hipersensibilidade e uma sensação constante de serem diferentes”, explica.
A médica afirma que esse processo de adaptação, conhecido como camuflagem social, fez com que inúmeras mulheres chegassem à vida adulta sem compreender o próprio funcionamento neurológico. Muitas receberam, ao longo da vida, diagnósticos de ansiedade, depressão ou instabilidade emocional sem que a neurodivergência fosse investigada de forma mais ampla.
“Quando uma criança recebe um diagnóstico, os pais naturalmente começam a estudar mais o tema. E é nesse momento que muitas mães percebem que aquelas características também fizeram parte da própria infância, adolescência e vida adulta. Experiências que antes pareciam desconectadas começam a fazer sentido”, afirma.
Além do autismo, a especialista observa com frequência diagnósticos tardios de TDAH, altas habilidades e alta sensibilidade em mulheres que passaram anos tentando se encaixar em padrões sociais que não respeitavam seu funcionamento emocional e cognitivo.
A ciência também ajuda a explicar esse movimento familiar. Estudos indicam que o autismo possui forte componente genético, com índices de herdabilidade elevados. “Isso não significa que exista um único gene responsável, mas sim uma combinação de fatores genéticos e ambientais. Por isso, não é incomum encontrarmos características semelhantes em diferentes membros da mesma família”, explica a psiquiatra.
Outro aspecto observado na prática clínica é a chamada tendência de pessoas com perfis cognitivos parecidos formarem vínculos afetivos. “Muitas vezes encontramos casais em que um ou ambos apresentam traços de neurodivergência, como autismo, TDAH ou altas habilidades. E o diagnóstico da criança acaba funcionando como uma porta de compreensão para toda a família”, diz.
Para Thaíssa, receber um diagnóstico na vida adulta não representa um rótulo, mas um processo de reorganização interna. “Para muitas mulheres, esse momento traz alívio. Elas passam a entender que não eram ‘difíceis’, ‘dramáticas’ ou ‘sensíveis demais’. Existe um funcionamento neurológico por trás dessas vivências. Quando isso é compreendido, nasce uma relação mais gentil consigo mesma”, afirma.
Neste Dia das Mães, a reflexão também passa pela escuta e pela
compreensão de histórias que, por muito tempo, ficaram invisíveis. “Muitas mães
passaram a vida inteira cuidando de todos ao redor sem nunca terem tido espaço
para compreender a si mesmas. Em muitos casos, o diagnóstico do filho acaba
sendo também o início do próprio processo de reconhecimento e acolhimento”,
conclui a especialista.
Nenhum comentário:
Postar um comentário