A conhecida frase “ser mãe é padecer no paraíso” revela mais do que um paradoxo; ela denuncia uma estrutura social profunda. Sob o véu da romantização, esconde-se uma experiência marcada por ambivalências: amor e exaustão, potência e invisibilidade, criação e apagamento.
Em sociedades patriarcais, a maternidade foi
historicamente construída como o destino natural das mulheres, mas sem o devido
reconhecimento social, econômico e simbólico. Quando o ato de cuidar é
atravessado por sobrecarga, isolamento e culpa, ele deixa de ser um espaço de
florescimento para se tornar um campo de desgaste contínuo.
Estudos longitudinais mostram uma piora consistente
da saúde mental materna nas últimas décadas. Relatórios recentes apontam que a
proporção de mães que se consideram em excelente estado psicológico caiu
drasticamente, enquanto aumentaram os relatos de bem-estar regular ou
insuficiente.
Nove em cada dez mães no Brasil sofrem de burnout
parental, uma exaustão emocional extrema decorrente da sobrecarga de cuidados e
da ausência de redes de apoio sólidas. Esses dados revelam uma verdade
incômoda: a maternidade, como estruturada hoje, adoece mulheres - não por falha
individual, mas pela exigência de dar conta de tudo sozinhas.
A responsabilização quase exclusiva das mães pela
educação e pelo desenvolvimento das crianças revela uma falha estrutural.
Embora recaia sobre elas o peso do cuidado, evidências mostram que o
desenvolvimento infantil é influenciado também pela saúde mental paterna e pelo
contexto familiar como um todo. Ainda assim, a cobrança cultural segue
concentrada sobre as mulheres.
Há uma contradição central na modernidade: fala-se
em autocuidado, mas não se transformam as condições que o tornam possível. Sem
redistribuição de responsabilidades, a valorização individual se torna apenas
mais uma cobrança.
Nos últimos anos, o debate sobre o cuidado como um
trabalho fundamental e desigualmente distribuído tem ganhado força. Sem
políticas públicas efetivas (como acesso à saúde mental, educação integral e
licenças parentais) a maternidade seguirá sendo um espaço de sobrecarga.
É necessário deslocar a pergunta central de nossa
sociedade: não se trata de questionar “como as mães podem aguentar?”, mas sim
“por que permitimos que elas sigam sozinhas?”. Uma experiência que exige o
autoapagamento não é dotada de respeito; é uma forma sutil de violência institucionalizada
contra a humanidade da mulher.
Reconhecer a potência das mães não deve significar
a naturalização de sua sobrecarga. Mulheres realizam feitos extraordinários,
mas esse heroísmo não pode continuar sendo usado como justificativa para que
continuem sem suporte.
Transformar a maternidade em um espaço de cidadania
exige mudanças culturais, políticas e relacionais. Só assim será possível
construir uma sociedade mais justa para mulheres e crianças, convocando também
os homens ao exercício efetivo do cuidado.
Berenice Shakti - fisioterapeuta pélvica, especialista em
saúde pélvica e sexualidade, além de autora dos livros “O Diário de Adelaine” e
“Cartas para Adelaine”

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