Obcecados por metas, agendas lotadas e
produtividade constante, cada vez mais profissionais transformam organização em
fonte de ansiedade e o preço muitas vezes é a saúde mental
A busca por controle nunca foi tão valorizada.
Planejadores digitais, métodos de produtividade, metas trimestrais, rotinas
cronometradas e listas intermináveis de tarefas se tornaram símbolos de eficiência
em um mundo que exige performance contínua. No entanto, aquilo que começa como
organização pode, silenciosamente, se transformar em sofrimento psíquico.
Quando cada minuto precisa ser útil e qualquer imprevisto é vivido como fracasso,
o controle deixa de ser ferramenta e passa a ser prisão.
A cultura contemporânea reforça a ideia de que estar no comando de
tudo é sinal de maturidade e sucesso. A lógica é simples: quem planeja melhor,
produz mais; quem produz mais, vale mais. Nesse cenário, o descanso parece
culpa, o improviso parece incompetência e a flexibilidade é vista como
desleixo. O resultado é uma geração que não apenas administra o tempo, mas
tenta dominar a própria vida como se fosse uma planilha.
O problema surge quando essa necessidade de controle deixa de
servir ao sujeito e passa a governá-lo. Pequenas mudanças de rota, atrasos ou
falhas provocam irritação desproporcional, ansiedade constante e sensação
permanente de insuficiência. A agenda cheia, antes motivo de orgulho, se torna
um lembrete diário de que nunca é possível fazer o bastante.
Segundo a psicóloga Blenda Oliveira, doutora em Psicologia pela
PUC-SP, esse padrão tem se tornado cada vez mais comum nos consultórios.
“Existe uma diferença importante entre organização saudável e controle rígido.
A primeira oferece segurança. O segundo nasce do medo. Quando a pessoa acredita
que só estará protegida se prever absolutamente tudo, ela começa a viver em
estado de alerta permanente”, afirma.
Esse estado contínuo de vigilância cobra um preço alto do corpo e
da mente. Insônia, dificuldade de concentração, tensão muscular, irritabilidade
e crises de ansiedade passam a fazer parte da rotina. Paradoxalmente, quanto
maior o esforço para controlar, maior a sensação de descontrole. O imprevisto,
que é parte natural da vida, passa a ser vivido como ameaça.
No ambiente de trabalho, o fenômeno se manifesta no excesso de
metas pessoais, na incapacidade de delegar tarefas e na autocrítica severa
diante de qualquer erro. Profissionais altamente competentes entram em ciclos
de exaustão, tentando compensar uma cobrança interna que nunca se satisfaz. A
produtividade, nesses casos, deixa de ser sustentável e se aproxima do burnout.
Blenda observa que essa dinâmica está ligada também a fatores emocionais
profundos. “Muitas pessoas aprenderam, ao longo da vida, que precisam ser
perfeitas para serem aceitas. O controle vira uma estratégia de sobrevivência
afetiva. Só que ninguém consegue controlar tudo o tempo todo, então a frustração
se torna inevitável”, explica. Para ela, o perfeccionismo excessivo
frequentemente mascara inseguranças antigas.
As redes sociais e o discurso da alta performance intensificam
essa pressão. Rotinas matinais impecáveis, planners coloridos e histórias de
sucesso vendem a ideia de que basta disciplina para eliminar o caos. Pouco se
fala sobre cansaço, falhas ou limites humanos. A comparação constante alimenta
a sensação de que relaxar é ficar para trás.
Especialistas defendem que o caminho não é abandonar a
organização, mas ressignificá-la. Planejar pode ser saudável quando há espaço
para pausas, erros e improvisos. Aprender a tolerar o inesperado, reduzir metas
irreais e reconhecer os próprios limites são atitudes que ajudam a reconstruir
uma relação mais flexível com o tempo e consigo mesmo.
“Controle demais não é sinônimo de equilíbrio, é sinal de medo”, conclui Blenda. “Saúde mental envolve justamente o contrário: confiar que você consegue lidar com o que surgir, mesmo que não esteja previsto na agenda.” Em tempos de agendas lotadas e exigências infinitas, talvez o verdadeiro autocuidado seja abrir espaço para o imprevisível — e permitir-se não dar conta de tudo.
Blenda Oliveira - Ela é doutora em psicologia pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) e psicanalista pela Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). É autora do livro Fazendo as pazes com a ansiedade, publicado pela Editora Nacional, que foi indicado ao Prêmio Jabuti em 2023. A especialista também palestra sobre saúde mental e autoconhecimento e vem se dedicando ao tema do envelhecimento e solidão.
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