Dor persistente, fadiga diária e queda de desempenho indicam desequilíbrio entre carga, recuperação e adaptação física
Você
treina, sente dor, sai exausto e acredita que isso é sinal de evolução. Nem
sempre é. Em muitos casos, o corpo não está progredindo, está pedindo ajuste.
Saber diferenciar adaptação de excesso é o que separa quem evolui com
consistência de quem entra em ciclos de dor, queda de desempenho e frustração.
“A dor faz parte do estímulo, mas o ponto não é sentir dor. É entender que tipo
de dor é essa e o que acontece com ela nos dias seguintes”, explica Junior
Carvalho, preparador físico de atletas.
A
chamada dor muscular tardia é considerada uma resposta fisiológica normal,
especialmente quando há aumento de carga, intensidade ou introdução de
movimentos novos. Estudos indicam que ela costuma surgir entre 12 e 24 horas após
o treino, atingir pico entre 24 e 72 horas e diminuir progressivamente conforme
o músculo se recupera.
Dor
articular ou muito localizada, diferente da dor muscular difusa, costuma
indicar sobrecarga ou falhas de execução. Pontadas agudas, sensação de instabilidade,
estalos acompanhados de dor ou desconforto unilateral persistente não fazem
parte de um processo saudável de adaptação.
Outro
sinal importante é a dor que não melhora com o descanso. Quando o estímulo é
adequado, o corpo responde com recuperação e ganho funcional. Quando a dor
persiste, piora a cada sessão ou obriga mudanças no movimento, o treino precisa
ser revisto.
A
queda de performance sem causa aparente também é um marcador clássico. Um
consenso publicado no International Journal of Sports Physiology and
Performance aponta que redução de rendimento associada a fadiga constante
costuma estar ligada ao desequilíbrio entre carga de treino, estresse e
recuperação.
Há
ainda o cansaço que atravessa o dia. “Não se trata apenas de sair cansado da
sessão, mas de acordar exausto, perder disposição para tarefas simples e sentir
o corpo pesado de forma contínua”, pontua Júnior.
Treinar
sempre no limite agrava esse cenário. Revisões do British Journal of Sports
Medicine mostram que esportes de força e alta intensidade apresentam maior
incidência de lesões quando o praticante permanece por longos períodos próximo
do máximo, sem variação de estímulo. Lombar, pelve, ombros e cotovelos estão
entre as regiões mais afetadas.
Em
situações raras, mas graves, sintomas como dor muscular extrema, inchaço
significativo, fraqueza intensa e urina escura podem indicar rabdomiólise,
condição que exige atendimento médico imediato.
“Treinar
bem não é treinar menos. É treinar com inteligência. Progredir com método,
ajustar uma variável por vez e alternar dias intensos com sessões leves ou
moderadas faz parte do processo. Recuperação é pilar e não pode ser tratada
como complemento. Sono, alimentação e hidratação sustentam qualquer evolução
consistente. Aprender a diferenciar a dor muscular normal do pós-treino de uma
dor articular ou de uma dor que não melhora por má recuperação é tão importante
quanto executar um exercício corretamente”, resume o preparador físico.
Quando
o treino passa a comprometer o sono, reduzir o rendimento e acumular dores
articulares, o corpo deixa de responder com adaptação e passa a sinalizar
excesso. Evoluir não é sair sempre destruído, é respeitar o tempo do corpo,
ajustar estímulos e permitir que a recuperação sustente o progresso. No fim,
desempenho é sobre inteligência, consistência e longevidade e não sobre
suportar mais dor.

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