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| Cultura de Mycobacterium tuberculosis: a Organização Mundial da Saúde estima que, sem tratamento, a letalidade da tuberculose pode chegar a 50%; quando o tratamento é seguido corretamente, cerca de 85% dos pacientes evoluem para cura (imagem: CDC/Wikimedia Commons) |
Embora a tuberculose seja
conhecida há séculos e tenha cura, ainda se trata da infecção bacteriana que
mais mata no mundo. O tratamento padrão exige ao menos seis meses de uso diário
de ao menos quatro antibióticos e pode chegar a dois anos quando há resistência
ao esquema tradicional, o que dificulta a adesão e contribui para o abandono e
falhas terapêuticas.
“A doença é curável, mas o
tratamento é longo e pesado. O paciente toma vários antibióticos todos os dias
e isso pode causar efeitos colaterais, afetar os rins e o fígado”,
explica Fernando Rogério Pavan,
orientador do estudo e coordenador da área de Pesquisa de Fármacos contra a
Tuberculose da Rede-TB.
A Organização Mundial da Saúde
(OMS) estima que, sem tratamento, a letalidade da tuberculose pode chegar a
50%. Por outro lado, quando o esquema é seguido corretamente, cerca de 85% dos
pacientes evoluem para a cura. Mas o cenário epidemiológico brasileiro reforça
a importância da busca por novos fármacos contra a doença: o Ministério da
Saúde registrou 84.308 novos casos de tuberculose em 2024 e 6.025 mortes em
2023, maior número em mais de duas décadas. Os dados são os mais recentes e foram
divulgados em 2025.
Mesmo com tratamento gratuito e
disponível no Sistema Único de Saúde (SUS), o pesquisador explica que a adesão
correta é especialmente desafiadora em populações mais vulneráveis, como
pessoas em situação de rua ou com dependência de álcool. “Há doentes que
interrompem o uso dos antibióticos no meio do ciclo, o que leva à resistência
bacteriana. Com isso, muitos pacientes chegam a não ter mais opções
terapêuticas, pois a bactéria resiste a tudo que está disponível. E essa pessoa
pode transmitir essa cepa resistente para outra, criando um ciclo ainda mais
perigoso”, ressalta Pavan.
Ideia do
estudo
O grupo liderado por Pavan
estuda possíveis ações de moléculas contra a tuberculose há cerca de 20 anos.
Desta vez, no doutorado da pesquisadora Fernanda Manaia Demarqui, a ideia
foi investigar a substância ferroína – nome científico [Fe(phen)3]2+],
conhecida como FEP –, composto muito antigo (existe desde a década de 1950) e
tradicionalmente usado em sínteses químicas.
A proposta partiu do
reposicionamento de fármacos, ou seja, testar substâncias já conhecidas para
novos usos terapêuticos. “Nós não inventamos uma molécula nova. Pegamos uma
substância antiga, barata, solúvel em água e testamos para tuberculose. Quando
vimos atividade antimicrobiana, pensamos: isso pode virar uma tese”, conta o
pesquisador.
Nos testes em laboratório, a
FEP mostrou forte ação contra o bacilo da tuberculose, inclusive ampliando a
ação da rifampicina e da pretomanida, dois medicamentos utilizados no
tratamento da doença. Além disso, o grupo conseguiu descobrir o mecanismo de
ação da substância.
Segundo Pavan, microscopias e
sequenciamento genômico mostraram danos importantes na parede celular da
bactéria, sugerindo ação semelhante a de penicilinas. “Descobrimos que ele age
inibindo a síntese da parede celular. A microscopia mostra a morfologia da
bactéria toda alterada e mutações em seu genoma correspondem a proteínas da
parede celular”, explica Pavan.
Por ser uma substância
“instável” e que poderia ser degradada ainda no estômago, os pesquisadores
encapsularam o composto em nanopartículas lipídicas (NLS@FEP), que funcionam
como uma “embalagem” de liberação controlada. Dessa maneira, eles conseguiram
melhorar sua estabilidade e seu tempo de ação no organismo. “Essa cápsula
protege a substância e permite que a liberação seja gradativa, mantendo o
composto ativo por mais tempo. É uma formulação simples, feita com colesterol e
fosfatidilcolina, de baixo custo e fácil produção”, diz o pesquisador.
O passo seguinte foi testar o
composto em animais. Eles foram divididos em grupos de sete camundongos
infectados com a Mycobacterium tuberculosis – metade foi
tratada da maneira convencional e metade recebeu o composto. Após 30 dias, o
grupo observou a eliminação completa da infecção pulmonar tanto com o FEP livre
quanto com o encapsulado. O desempenho superou o da isoniazida, um dos
antibióticos padrão do SUS.
“O resultado nos surpreendeu
muito positivamente porque nós torcíamos para ver alguma redução da carga
bacteriana. Mas os testes mostraram que o composto eliminou tudo. Não
encontramos nenhum bacilo no pulmão. No grupo tratado com o antibiótico convencional,
houve redução da carga de bacilos, como era esperado”, relata.
Apesar dos resultados
animadores, ainda não é possível falar em aplicação clínica. Será necessário
realizar estudos de toxicidade, farmacocinética e ensaios mais robustos,
incluindo modelos de tuberculose resistente e casos de infecção crônica. Pavan
ressalta, no entanto, que o fato de o composto não ter patente pode facilitar o
avanço futuro para desenvolvimento industrial. “Isso pode interessar
especialmente ao setor público. Se funcionar, será possível transformar a
substância em medicamento sem grandes custos.”
Caso novos estudos confirmem a
eficácia e a segurança em humanos, a expectativa de Pavan é que o composto abra
caminho para tratamentos mais curtos, com menos efeitos adversos e maior adesão,
reduzindo o risco de resistência e o impacto da doença no país. “O principal
nós já sabemos: funciona. Agora precisamos ajustar dose, tempo de uso, repetir
testes e avançar. Mas ver eliminação total em modelo animal nos dá esperança”,
conclui.
O artigo [Fe(phen)3]2+]
and [Fe(phen)3]2+]-loaded nanostructured lipid
system: in silico, in vitro, and in vivo efficacy
against Mycobacterium tuberculosis pode ser lido em: pubs.acs.org/doi/10.1021/acsomega.5c08350.
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/nanoparticula-com-ferro-elimina-tuberculose-em-camundongos-e-pode-abrir-caminho-para-novos-tratamentos/57177

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