Especialista explica por que aprender a lidar com o não é parte essencial do desenvolvimento emocional e como os adultos podem acolher sem ceder
Dizer
não aos filhos ainda é uma das maiores dificuldades de muitas famílias. Entre o
medo de frustrar e o cansaço de ceder o tempo todo, pais e responsáveis vivem
uma sensação constante de culpa. Para Cristiane Cristo, diretora pedagógica da Start
Anglo Bilingual School do Rio de Janeiro, essa tensão revela um
equívoco comum na educação contemporânea. A frustração não é um problema a ser
evitado. É uma experiência necessária para o desenvolvimento emocional.
“Frustrar não é ferir. Frustrar é ensinar a criança a lidar com a realidade, com limites e com o outro. Quando evitamos qualquer desconforto, tiramos da criança a chance de desenvolver recursos emocionais importantes”, afirma Cristiane.
Segundo
a educadora, proteger em excesso pode enfraquecer emocionalmente. Crianças que
nunca escutam um não tendem a ter mais dificuldade para lidar com espera,
regras, conflitos e contrariedades ao longo da vida. “O limite bem colocado não
rompe o vínculo. Pelo contrário. Ele organiza, dá contorno e transmite
segurança.”
Limite não é rigidez, é cuidado
Cristiane
explica que muitos adultos associam limites a autoritarismo ou falta de afeto,
quando na verdade o limite é uma forma de cuidado. “A criança precisa saber até
onde pode ir. Isso ajuda a organizar emoções e comportamentos. Quando tudo é
permitido, ela fica insegura, mesmo que não saiba explicar.”
Ela
reforça que dizer “não”, não significa invalidar sentimentos. “É possível
acolher a frustração sem mudar a decisão. O erro mais comum é achar que acolher
é ceder.”
Como dizer não sem romper o vínculo
Para
a especialista, o tom da conversa é tão importante quanto o conteúdo. Gritos,
ameaças ou longas explicações no auge da emoção tendem a gerar mais conflito.
“O adulto precisa sustentar o limite com calma, clareza e empatia. A criança
aprende muito mais com a forma como o limite é colocado do que com o limite em
si.”
Outro
ponto importante é a coerência. “Quando o adulto diz não e volta atrás
repetidamente, a criança aprende que insistir funciona. Isso aumenta o desgaste
e enfraquece a autoridade.”
Frustração constrói autonomia
Cristiane
destaca que aprender a lidar com frustração é um treino para a vida adulta. “A
criança que atravessa pequenas frustrações com apoio desenvolve tolerância,
flexibilidade e capacidade de adaptação. Essas são competências fundamentais
para relações saudáveis, vida escolar e futuro profissional.”
Ela
ressalta que o papel do adulto não é eliminar o desconforto, mas ajudar a
criança a atravessá-lo. “É nesse processo que nasce a autonomia emocional.”
Frases que ajudam a acolher sem ceder
Cristiane
compartilha exemplos de falas que ajudam a validar o sentimento da criança sem
abrir mão do limite
•
“Eu entendo que você ficou chateada. Mesmo assim, hoje não vai dar.”
•
“Eu sei que você queria muito. É difícil lidar com isso.”
•
“Eu estou aqui com você enquanto passa.”
•
“Pode ficar bravo. O limite continua.”
•
“Seu sentimento é importante, mas a decisão é essa.”
Erros comuns dos adultos ao lidar com frustração
Segundo
a educadora, alguns comportamentos atrapalham mais do que ajudam
•
Evitar qualquer desconforto
•
Ceder para acabar com o choro
•
Usar o grito como forma de controle
•
Invalidar sentimentos com frases como “isso não é nada”
•
Explicar demais no auge da emoção
Educar é preparar para o mundo
Para
Cristiane Cristo, educar não é garantir felicidade constante, mas preparar a
criança para lidar com a vida real. “A frustração não é inimiga da infância.
Ela é parte do processo de crescer. Quando o adulto sustenta o limite com afeto,
a criança se sente segura para sentir, aprender e amadurecer.”
Ela
conclui que vínculo e limite caminham juntos. “A criança não precisa de
permissividade. Precisa de adultos firmes, afetivos e disponíveis. É isso que
constrói segurança emocional e autonomia”.
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