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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Não é não’: especialista alerta para riscos de confundir paquera com assédio no Carnaval

Psicóloga do CEUB explica por que respeitar limites é essencial para uma festa segura, leve e sem violência

 

O Carnaval é sinônimo de festa, alegria e liberdade. Mas junto com a descontração, cresce a necessidade de reforçar uma regra básica de convivência: o respeito ao consentimento. Essa máxima, que emerge da campanha "Não é Não", criada em 2017 por um coletivo de mulheres após sucessivos episódios de assédio, precisa ir além do slogan para garantir uma folia segura, respeitosa e inclusiva. Do ponto de vista da psicologia social crítica e do pós-estruturalismo, compreender essa demanda é reconhecer que o consentimento não é um detalhe, mas um ato político que desafia estruturas históricas de poder. 

Flávia Timm, doutora em Psicologia do Centro Universitário de Brasília (CEUB), contextualiza a perspectiva foucaultiana, em que o poder disciplinar opera tornando os corpos "dóceis e úteis" através da normalização. No contexto festivo, segundo ela, a "descontração" funciona como um discurso que normaliza o assédio, tratando o corpo feminino como público e acessível. “O consumo de álcool, a euforia e a sensação de anonimato fazem com que algumas pessoas interpretem sinais de forma equivocada, intensificando comportamentos impulsivos. Por isso, o consentimento precisa ser claro, explícito e contínuo. Se a outra pessoa diz "não", demonstra desconforto ou não responde de forma afirmativa, esse limite deve ser respeitado”, afirma Flávia. 

A especialista ressalta que o consentimento se aplica a qualquer tipo de interação, desde um beijo até toques considerados aparentemente "inofensivos". “Ignorar um "não" ou insistir caracteriza assédio, independentemente do contexto”, crava. Ela reforça que a ausência de reação não é autorização. “Muitas pessoas entram em estado de paralisia em situações invasivas, o que não pode ser confundido com concordância. A violência de gênero se sustenta na ideia de que certos corpos, sobretudo os femininos, os dissidentes, importam menos. Ao afirmar "não é não", as mulheres transformam seus corpos em espaço político de reivindicação, performatizando uma recusa que desafia as normas que as tornam vulneráveis”. 

Dados reforçam que o assédio não é consequência do "excesso da festa", mas de um problema estrutural. Levantamento do Instituto Datafolha aponta que mais de 40% das brasileiras já sofreram algum tipo de assédio, sendo festas e eventos públicos contextos recorrentes. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública indica que o Carnaval está entre os períodos com maior número de registros de importunação sexual em espaços públicos. A Lei nº 13.718/2018, que tipificou o crime de importunação sexual, representa avanço legislativo impulsionado pela visibilidade que a campanha "Não é Não" conferiu ao tema. 

De acordo com a docente do CEUB, quando o "não é não" é levado a sério, cria-se uma cultura de cuidado coletivo. “A diversão não diminui; ela se torna mais leve e inclusiva. A orientação é clara: antes de qualquer aproximação, observe, pergunte e respeite. No Carnaval, assim como em qualquer época do ano, a alegria e o respeito devem caminhar juntos”, defende Flávia Timm. A especialista concluiu que, como aponta a micropolítica de gênero que sustenta a campanha, reconhecer a dignidade do outro é reconhecer que seu corpo, sua vontade e sua recusa importam.

 

5 pontos para refletir durante o Carnaval

  1. Silêncio é consentimento? Não. O consentimento exige manifestação clara e explícita.
  2. O álcool muda limites? Não. Beber não autoriza invasões nem relativiza o ‘não’.
  3. Insistir após a recusa é paquera? Não. Insistência é violência, não flerte.
  4. A ausência de reação é concordância? Não. A paralisia é uma resposta comum ao medo.
  5. Quem presencia também é responsável? Sim. O silêncio contribui para a manutenção do abuso.
     

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