O Carnaval é, todos os anos, um grande experimento social a céu aberto. Corpo em movimento, calor intenso, multidão, música alta, pouco sono, hidratação irregular e uma autorização interna muito audaciosa: “agora pode, é carnaval”.
Nesse contexto, o uso de álcool em padrão de 'binge drinking' e de drogas recreativas deixa de ser apenas uma escolha individual e passa a ser fortemente moldado pelo que os outros estão fazendo. O problema não é a festa em si, é quando a experiência entra no modo automático e o autocuidado fica ausente.
Do ponto de vista psicológico, o Carnaval reúne alguns dos principais ingredientes que aumentam o risco de uso descontrolado. Há o contágio social, em que a percepção de que “todo mundo está fazendo” diminui o freio interno; há a permissão moral temporária, em que o feriado parece justificar comportamentos que, em outros dias, seriam evitados; e há um fator menos falado, mas muito comum: a substância como estímulo emocional disfarçada de diversão.
Para muitas pessoas, o álcool ou outras drogas funcionam como um atalho para aliviar ansiedade social, insegurança com o corpo, solidão ou dificuldade de se sentir pertencido. O alívio é rápido, e exatamente por isso ao mesmo perigoso. O binge drinking, especificamente, traz riscos importantes porque não se trata apenas de beber muito, mas de beber muito em pouco tempo. Isso eleva rapidamente a concentração de álcool no sangue, prejudica julgamento, coordenação e autocontrole e aumenta de forma significativa a probabilidade de comportamentos de risco.
No Carnaval, esse padrão é potencializado por fatores ambientais: longas horas na rua, calor, desidratação, mistura com energéticos, pouca alimentação e pressão do grupo para “acompanhar o ritmo”. A conta quase sempre chega depois, na forma de lapsos de memória, conflitos interpessoais, exposição a violência, vulnerabilidade sexual, acidentes e uma ressaca emocional que vai muito além da dor de cabeça.
Quando entram as drogas recreativas, o cenário fica ainda mais imprevisível. O uso combinado de substâncias, muitas vezes de procedência desconhecida, somado ao esforço físico, à desidratação e à privação de sono, cria um terreno fértil para efeitos adversos. Estudos como o de Sodré (2022) observam aumento do consumo de drogas ilícitas durante o período do Carnaval no Brasil, o que reforça a necessidade de olhar para o tema não com moralismo, mas com prevenção baseada em realidade.
Clinicamente, é importante dizer: perder o controle em contextos como esse não é sinal de fraqueza de caráter. É resultado de um ciclo bastante conhecido. Um gatilho como uma festa, um sintoma de ansiedade, uma excitação, uma pressão social, pode sim levar ao uso como forma de intensificar prazer ou aliviar desconforto. O alívio imediato reforça o comportamento. Em seguida vêm excessos, consequências e culpa. Depois, promessas rígidas de “nunca mais”, que não se sustentam porque não foram acompanhadas de estratégias concretas. O ciclo pode acontecer poucas vezes por ano e, ainda assim, gerar impactos importantes na saúde mental e nos vínculos. Por isso, prevenção no Carnaval não passa por proibição, mas por planejamento.
Limites precisam ser concretos, não abstratos. “Vou beber
com moderação” é frágil; definir número de doses, horários, intervalos com água
ou decidir previamente não misturar substâncias cria uma estrutura que o cérebro
consegue seguir mesmo sob estímulo intenso. Também ajuda muito ter respostas
prontas para recusas, frases simples que evitam negociações longas no calor do
momento. Decidir antes é sempre mais fácil do que decidir sob pressão. Outro
ponto-chave é aprender a reconhecer pensamentos que funcionam como gatilhos:
“só hoje”, “eu mereço”, “sem isso não vai ser divertido”. Esses pensamentos não
precisam ser combatidos à força, mas respondidos com frases âncora que
reconectem com valores pessoais, como lembrar que diversão não precisa custar o
dia seguinte ou que pertencimento não depende de ultrapassar limites.
Redução de danos
Nesse sentido, a abordagem de redução de danos se mostra especialmente pertinente no Carnaval. Ela parte do reconhecimento de que o uso pode acontecer, mas busca diminuir riscos concretos associados a esse uso. Isso inclui medidas simples e eficazes, como alternar consumo com água, evitar o uso em jejum, não misturar substâncias, respeitar intervalos entre doses, conhecer minimamente os próprios limites e nunca usar sozinho. Também envolve combinar previamente com amigos sinais de alerta e apoio mútuo, cuidar uns dos outros e saber identificar quando alguém precisa sair da festa ou buscar ajuda. Redução de danos não estimula o consumo, mas protege a vida, a saúde mental e os vínculos, reconhecendo a complexidade das experiências humanas sem recorrer à culpa ou à negação.
Pequenas pausas para respirar e trazer suavidade e calma para o corpo, sair por alguns minutos da roda dos amigos, beber água, comer algo durante as festividades e observar o próprio estado interno já reduzem muito o risco de escalada. Cuidar do corpo no carnaval é cuidar da mente. Alimentação, hidratação, sono e planejamento de retorno para casa não são detalhes logísticos, são estratégias psicológicas de proteção. E talvez uma das decisões mais importantes seja ter, desde o início, um plano de saída. Saber que é possível ir embora sem transformar isso em fracasso é um dos maiores fatores de prevenção ao uso descontrolado.
Também é importante notar a sua intenção dizendo para fazer programas diferenciados, com mais contato com natureza e descanso, se for o caso. Não ficamos menos interessante porque não aparecemos nos stories dando closes fantasiados e com o copo na mão. Podemos honrar autocuidado quando necessário ao invés de forçar a barra e negligenciar sinais para não sair nos bloquinhos, principalmente se temos um histórico de binge e não temos redes de apoio como um bom terapeuta para tratar essas questões.
O Carnaval pode ser intenso, alegre e libertador sem
precisar ser autodestrutivo. Quando há consciência, planejamento e respeito aos
próprios limites, a festa deixa de ser um apagão e passa a ser uma experiência
que termina inteira, no corpo, na mente e na memória.
Fonte de referência:
Sodré, F. F., et al. (2022). Understanding Illicit Drug Use Trends During the Carnival Holiday in Brazil. Frontiers in Analytical Science.

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