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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Como o RH usa tecnologia para proteger a saúde mental


Janeiro Branco sempre nos convida a falar sobre saúde mental. Mas, em 2026, essa conversa precisa ir além do óbvio. Já não é possível discutir bem-estar sem olhar com profundidade para o impacto da tecnologia na forma como trabalhamos, nos relacionamos e existimos dentro das organizações. 

Nunca tivemos tantas ferramentas para facilitar o trabalho, organizar rotinas, medir resultados e conectar pessoas. E, ao mesmo tempo, nunca estivemos tão cansados, ansiosos e mentalmente sobrecarregados. O paradoxo é evidente: a tecnologia que promete eficiência também tem sido, muitas vezes, combustível para o excesso. 

O problema não é a tecnologia. O problema é como escolhemos usá-la. 

Nos últimos anos, a saúde mental deixou de ser tratada como um “bom ter” dentro das organizações e passou a ocupar o lugar de “deve ter”. Atualizações em normas regulamentadoras, como a NR-1, e diretrizes internacionais, como a ISO 45003, deixam claro que o cuidado com a saúde mental e com os riscos psicossociais não é mais opcional nem depende da boa vontade das empresas. 

Esse cuidado passa a ser uma responsabilidade coletiva, integrada à gestão, à liderança e à forma como o trabalho é organizado. Colocar a saúde mental no centro deixa de ser apenas um valor bonito no discurso e se torna uma obrigação prática, ética e também legal.
 

O custo invisível do “sempre online” 

Os cenários e desafios ocupacionais estão cada vez mais evidentes. O trabalho deixou de ter horários bem definidos e passou a coexistir em múltiplos formatos, como presencial, híbrido e home office. Esses novos arranjos trouxeram flexibilidade, mas também novas tensões. 

O trajeto casa–trabalho, que por um período havia sido reduzido, voltou a fazer parte da rotina de muitas pessoas, transformando horas no trânsito ou no transporte público em mais uma camada de cansaço físico e emocional. 

Ao mesmo tempo, as mensagens deixaram de respeitar fronteiras. A urgência virou regra, e a pausa passou a ser vista quase como privilégio. Muitos profissionais convivem diariamente com a sensação de que precisam estar disponíveis o tempo todo e, quando não estão, sentem culpa por se desconectar. 

Esse cenário impacta diretamente a saúde mental. A exaustão emocional, o medo constante de não dar conta, a dificuldade de desligar e até a vergonha de pedir limites passaram a fazer parte da rotina de muitas pessoas. E isso não tem relação com fragilidade individual, mas com um modelo de trabalho que normalizou o excesso e diluiu os limites entre vida pessoal e profissional. 

É nesse contexto que o RH se fortalece, não como uma área meramente operacional, mas como guardião da cultura, responsável por provocar reflexões, sustentar limites e ajudar a reconstruir formas mais saudáveis de trabalhar.
 

O papel do RH em 2026: tecnologia também comunica valores 

O RH nunca foi neutro. Cada sistema implementado, cada indicador acompanhado e cada processo estruturado comunicam, de forma explícita ou silenciosa, o que a empresa valoriza. 

Em 2026, o RH ocupa uma posição estratégica na relação entre pessoas, tecnologia e saúde mental. A pergunta central deixa de ser “qual ferramenta vamos usar?” e passa a ser: para quê e a serviço de quem essa tecnologia está sendo utilizada? 

Uma plataforma pode apoiar o desenvolvimento ou reforçar o controle. Um indicador pode ajudar a cuidar ou aumentar a pressão. Um sistema pode ampliar a escuta ou apenas coletar dados sem gerar mudanças reais. 

Tecnologia não é neutra. Ela amplifica a cultura que já existe.
 

Quando a tecnologia vira aliada da saúde mental 

Usada com intencionalidade, a tecnologia pode e deve ser uma aliada do bem-estar. Algumas escolhas fazem toda a diferença.
 

Tecnologia como apoio, não como cobrança — Ferramentas de feedback contínuo, quando bem utilizadas, fortalecem relações, promovem desenvolvimento e dão clareza. Mas, quando usadas apenas para apontar falhas ou cobrar resultados, ampliam a insegurança e o medo de errar.
 

Dados para cuidar, não para vigiar — Pesquisas de clima, indicadores de engajamento e dados de absenteísmo só fazem sentido quando geram conversas honestas e ações concretas. Caso contrário, viram apenas mais uma camada de controle e frustração.
 

Limites digitais como prática de cuidado — Não basta falar de saúde mental se a cultura valoriza quem responde mensagens fora do horário ou nunca se desconecta. O RH pode e deve ajudar a construir políticas, acordos e exemplos claros sobre limites, pausas e respeito ao tempo das pessoas.
 

Sem liderança consciente, nenhuma ferramenta funciona 

Nenhuma tecnologia é capaz de compensar uma liderança emocionalmente despreparada. Plataformas não sustentam ambientes saudáveis sozinhas. Quem sustenta são pessoas, especialmente aquelas em posições de liderança. 

Lideranças que respeitam limites, que não romantizam o excesso e que entendem que performance sustentável exige cuidado diário fazem toda a diferença. O RH tem um papel fundamental em provocar essas reflexões, desenvolver líderes e sustentar conversas difíceis, porém necessárias. 

Não existe bem-estar digital sem coerência entre discurso e prática.
 

Janeiro Branco como convite à consciência 

Janeiro Branco não é uma campanha que resolve tudo em um mês. É um convite para repensar escolhas, revisar práticas e assumir responsabilidades. 

Em 2026, falar de saúde mental é, inevitavelmente, falar de tecnologia, cultura e liderança. É reconhecer que as pessoas sentem, se cansam, precisam de pausa, pertencimento e segurança psicológica. 

Talvez o maior desafio do RH hoje não seja implementar novas ferramentas, mas garantir que, em meio a tantos dados, métricas e sistemas, não se perca o essencial: a humanidade. 

Cuidar da saúde mental no trabalho é, antes de tudo, uma decisão diária. E o RH tem um papel central nessa escolha.

 

Juliana Dimário - Diretora de Pessoas e Cultura da CBYK


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