Janeiro
Branco sempre nos convida a falar sobre saúde mental. Mas, em 2026, essa
conversa precisa ir além do óbvio. Já não é possível discutir bem-estar sem
olhar com profundidade para o impacto da tecnologia na forma como trabalhamos,
nos relacionamos e existimos dentro das organizações.
Nunca
tivemos tantas ferramentas para facilitar o trabalho, organizar rotinas, medir
resultados e conectar pessoas. E, ao mesmo tempo, nunca estivemos tão cansados,
ansiosos e mentalmente sobrecarregados. O paradoxo é evidente: a tecnologia que
promete eficiência também tem sido, muitas vezes, combustível para o excesso.
O
problema não é a tecnologia. O problema é como escolhemos usá-la.
Nos
últimos anos, a saúde mental deixou de ser tratada como um “bom ter” dentro das
organizações e passou a ocupar o lugar de “deve ter”. Atualizações em normas
regulamentadoras, como a NR-1, e diretrizes internacionais, como a ISO 45003,
deixam claro que o cuidado com a saúde mental e com os riscos psicossociais não
é mais opcional nem depende da boa vontade das empresas.
Esse
cuidado passa a ser uma responsabilidade coletiva, integrada à gestão, à
liderança e à forma como o trabalho é organizado. Colocar a saúde mental no
centro deixa de ser apenas um valor bonito no discurso e se torna uma obrigação
prática, ética e também legal.
O
custo invisível do “sempre online”
Os
cenários e desafios ocupacionais estão cada vez mais evidentes. O trabalho
deixou de ter horários bem definidos e passou a coexistir em múltiplos
formatos, como presencial, híbrido e home office. Esses novos arranjos
trouxeram flexibilidade, mas também novas tensões.
O
trajeto casa–trabalho, que por um período havia sido reduzido, voltou a fazer
parte da rotina de muitas pessoas, transformando horas no trânsito ou no
transporte público em mais uma camada de cansaço físico e emocional.
Ao
mesmo tempo, as mensagens deixaram de respeitar fronteiras. A urgência virou
regra, e a pausa passou a ser vista quase como privilégio. Muitos profissionais
convivem diariamente com a sensação de que precisam estar disponíveis o tempo
todo e, quando não estão, sentem culpa por se desconectar.
Esse
cenário impacta diretamente a saúde mental. A exaustão emocional, o medo
constante de não dar conta, a dificuldade de desligar e até a vergonha de pedir
limites passaram a fazer parte da rotina de muitas pessoas. E isso não tem
relação com fragilidade individual, mas com um modelo de trabalho que
normalizou o excesso e diluiu os limites entre vida pessoal e profissional.
É nesse
contexto que o RH se fortalece, não como uma área meramente operacional, mas
como guardião da cultura, responsável por provocar reflexões, sustentar limites
e ajudar a reconstruir formas mais saudáveis de trabalhar.
O
papel do RH em 2026: tecnologia também comunica valores
O RH
nunca foi neutro. Cada sistema implementado, cada indicador acompanhado e cada
processo estruturado comunicam, de forma explícita ou silenciosa, o que a
empresa valoriza.
Em
2026, o RH ocupa uma posição estratégica na relação entre pessoas, tecnologia e
saúde mental. A pergunta central deixa de ser “qual ferramenta vamos usar?” e
passa a ser: para quê e a serviço de quem essa tecnologia está sendo utilizada?
Uma
plataforma pode apoiar o desenvolvimento ou reforçar o controle. Um indicador
pode ajudar a cuidar ou aumentar a pressão. Um sistema pode ampliar a escuta ou
apenas coletar dados sem gerar mudanças reais.
Tecnologia
não é neutra. Ela amplifica a cultura que já existe.
Quando
a tecnologia vira aliada da saúde mental
Usada
com intencionalidade, a tecnologia pode e deve ser uma aliada do bem-estar.
Algumas escolhas fazem toda a diferença.
Tecnologia
como apoio, não como cobrança — Ferramentas de feedback contínuo, quando bem utilizadas,
fortalecem relações, promovem desenvolvimento e dão clareza. Mas, quando usadas
apenas para apontar falhas ou cobrar resultados, ampliam a insegurança e o medo
de errar.
Dados
para cuidar, não para vigiar — Pesquisas de clima, indicadores de engajamento e dados de
absenteísmo só fazem sentido quando geram conversas honestas e ações concretas.
Caso contrário, viram apenas mais uma camada de controle e frustração.
Limites
digitais como prática de cuidado — Não basta falar de saúde mental se a cultura valoriza quem
responde mensagens fora do horário ou nunca se desconecta. O RH pode e deve
ajudar a construir políticas, acordos e exemplos claros sobre limites, pausas e
respeito ao tempo das pessoas.
Sem
liderança consciente, nenhuma ferramenta funciona
Nenhuma
tecnologia é capaz de compensar uma liderança emocionalmente despreparada.
Plataformas não sustentam ambientes saudáveis sozinhas. Quem sustenta são
pessoas, especialmente aquelas em posições de liderança.
Lideranças
que respeitam limites, que não romantizam o excesso e que entendem que
performance sustentável exige cuidado diário fazem toda a diferença. O RH tem
um papel fundamental em provocar essas reflexões, desenvolver líderes e
sustentar conversas difíceis, porém necessárias.
Não
existe bem-estar digital sem coerência entre discurso e prática.
Janeiro
Branco como convite à consciência
Janeiro
Branco não é uma campanha que resolve tudo em um mês. É um convite para
repensar escolhas, revisar práticas e assumir responsabilidades.
Em
2026, falar de saúde mental é, inevitavelmente, falar de tecnologia, cultura e
liderança. É reconhecer que as pessoas sentem, se cansam, precisam de pausa,
pertencimento e segurança psicológica.
Talvez
o maior desafio do RH hoje não seja implementar novas ferramentas, mas garantir
que, em meio a tantos dados, métricas e sistemas, não se perca o essencial: a
humanidade.
Cuidar
da saúde mental no trabalho é, antes de tudo, uma decisão diária. E o RH tem um
papel central nessa escolha.
Juliana Dimário - Diretora de Pessoas e Cultura da CBYK
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