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terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Com avanço da IA, empresas enfrentam decisões mais rápidas — e erros mais caros

Especialista afirma que experiência profissional ajuda a reduzir riscos, apesar do etarismo persistente

 

As projeções sobre o mercado de trabalho para 2026 costumam repetir o mesmo roteiro: inteligência artificial generativa, automação em larga escala e uma corrida por velocidade, quase sempre associada a profissionais muito jovens. Mas essa leitura, segundo o sócio-fundador da FM2S Educação e Consultoria e gestor de carreiras, Virgilio Marques dos Santos, ignora um efeito colateral relevante da digitalização acelerada: o aumento do custo dos erros. 

"Vivemos a era da informação massificada. A IA gera textos, códigos e dados em segundos. O conhecimento técnico deixou de ser escasso. O que continua raro é julgamento. E julgamento não se aprende em tutorial", analisa. 

Para ele, a aceleração tecnológica não elimina o etarismo no mercado de trabalho — que segue real e estrutural —, mas cria uma contradição crescente dentro das organizações. Ao mesmo tempo em que resistem à valorização de profissionais mais experientes, as empresas passam a depender cada vez mais de competências associadas à trajetória acumulada, como leitura de contexto, inteligência emocional e capacidade de antecipar riscos. 

"No ambiente corporativo atual, errar rápido deixou de ser virtude em muitos casos. Alguns erros custam milhões, reputação ou anos de reconstrução", diz. "Quem já atravessou ciclos econômicos, crises e transformações organizacionais tende a reconhecer padrões que não aparecem nos dashboards." 

No Vale do Silício, essa discussão passou a ser descrita pelo termo modern elder, termo popularizado por Chip Conley, ex-executivo do Airbnb, para descrever profissionais que combinam experiência acumulada com curiosidade intelectual e abertura ao novo. Santos pondera, no entanto, que o conceito não deve ser lido como promessa de mudança estrutural no mercado. "Não se trata de romantizar a idade nem de supor que o etarismo acabou. Trata-se de entender onde a experiência gera valor econômico concreto." 

Um dos pontos centrais dessa equação está no que a psicologia organizacional chama de inteligência cristalizada — a capacidade de reconhecer padrões complexos com base em vivência anterior. "Em cenários caóticos, decisões tomadas apenas pela lógica da velocidade tendem a ser mais frágeis. A experiência funciona como um amortecedor estratégico", afirma. 

Outro ativo difícil de ser replicado por algoritmos é o capital relacional construído ao longo do tempo. "Redes de confiança seguem sendo decisivas em conselhos, comitês de crise e processos de decisão sensíveis. Isso não exclui profissionais mais jovens, mas indica que os papéis são diferentes." 

Segundo ele, o desafio dos próximos anos não está em competir com a fluência técnica das novas gerações, mas em entender como diferentes repertórios podem ocupar funções distintas dentro das organizações. "Tecnologia não é rival, é ferramenta. O problema começa quando decisões estratégicas são tomadas sem leitura de contexto." 

Para ele, o debate sobre experiência no mercado de trabalho não será resolvido por discursos nem por modismos de gestão. "O etarismo continua existindo. A diferença é que, num ambiente cada vez mais automatizado, errar ficou mais caro", afirma. "E, quando o custo do erro sobe, o valor do julgamento humano inevitavelmente entra na conta."

  

Virgilio Marques dos Santos - sócio-fundador da FM2S Educação e Consultoria



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