O caso do cão Orelha provocou comoção nacional,
mas, para quem atua junto à causa animal, a violência que ele sofreu está longe
de ser incomum. Maus-tratos, abandono e negligência compõem uma rotina
silenciosa, vivida diariamente por protetores, voluntários e organizações que
atuam no limite de suas forças, enquanto a maioria absoluta desses casos jamais
ganha visibilidade ou mobiliza indignação coletiva.
Como voluntária em uma ONG de Curitiba, acompanho
abrigos superlotados, protetoras exaustas física e emocionalmente, muitas vezes
sem recursos básicos para si próprias, porque tudo o que têm é destinado à
sobrevivência dos animais. Falta tempo, faltam recursos e, sobretudo, falta apoio
estatal. O poder público finge não ver, transferindo quase integralmente aos
protetores uma responsabilidade que é estrutural e coletiva.
No plano jurídico, é inegável que houve avanços. A
Lei Sansão endureceu as penas para os crimes de maus-tratos contra cães e
gatos, prevendo reclusão, multa e proibição da guarda. Trata-se de um marco
relevante, ao afastar a ideia de que a violência contra animais seria
juridicamente irrelevante. Ainda assim, o caso Orelha expõe um paradoxo
incômodo: temos lei, temos pena e temos comoção social, mas seguimos produzindo
vítimas.
Isso ocorre porque o Direito Penal atua de forma
tardia, punindo apenas depois da violência consumada, quando o dano já é
irreversível. O que ele não faz, sozinho, é impedir que animais abandonados
continuem vivendo nas ruas, que são um espaço permanente de risco. Um cão dócil
e amigável passar cerca de dez anos em situação de rua não é aceitável sob
nenhuma perspectiva ética, social ou jurídica.
O cão Orelha poderia estar sob proteção institucional,
em um abrigo, fora da zona de vulnerabilidade, ou poderia estar vivendo em uma
casa, integrado a uma família que tivesse aberto o coração para acolhê-lo.
Porém, isso exigiria uma atuação preventiva do Estado e uma resposta efetiva da
sociedade, que hoje ainda se mostram inexistentes ou meramente simbólicas.
Experiências internacionais demonstram que mudar
esse cenário é possível. A Holanda praticamente zerou o número de cães em
situação de rua, não por meio do endurecimento penal, mas a partir de políticas
públicas integradas, com programas de castração em larga escala, campanhas
permanentes de adoção, educação para a guarda responsável e deveres claros
atribuídos ao poder público.
Adotar, apoiar protetores, cobrar políticas públicas e denunciar maus-tratos não são gestos isolados, mas formas concretas de prevenção. O caso do cão Orelha não é apenas sobre um crime ou uma pena, mas sobre uma falha coletiva. Enquanto tratarmos a violência contra animais como um problema de terceiros, continuaremos sendo parte do mesmo sistema que produz vítimas. A responsabilidade é de todos nós, e começa muito antes do crime.
Jennifer Manfrin - Advogada,
Mestra em Direito e Professora nos cursos de Pós-Graduação em Direito do Centro
Universitário Internacional Uninter.
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