Governança da informação garante salto
no índice de desempenho regulatório, reduz desperdícios operacionais e melhora
desfechos hospitalares
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No
cenário da saúde suplementar brasileira, operadoras e hospitais vivem um
paradoxo: se por um lado, o setor nunca gerou tanta informação, por outro,
precisa com urgência transformar esse volume imenso de dados em inteligência
estratégica. Diante de regulação cada vez mais exigente da Agência Nacional de
Saúde Suplementar (ANS), a governança de dados deixou de ser uma questão de TI
para se tornar uma ferramenta estratégica de desempenho e reputação.
Um dos
gargalos mais críticos está na qualidade da informação enviada à ANS, fator
determinante para o Índice de Desempenho da Saúde Suplementar (IDSS), a nota
oficial do setor. Operadoras com redes de excelência têm sido penalizadas não
por falharem no cuidado, mas por não conseguirem traduzir esse serviço em dados
auditáveis.
O
desafio é ilustrado pela Blendus, healthtech especializada em governança de
dados regulatórios. Apenas em 2025, a empresa processou 132,6 milhões de guias
TISS (Troca de Informação em Saúde Suplementar), lidando com uma massa de dados
de cerca de 14 milhões de beneficiários. A análise desse volume expõe falhas
sistêmicas, em que, se o Código Brasileiro de Ocupações (CBO) do médico não
condiz com o atendimento, ou se a terminologia (TUSS) está desatualizada, o
procedimento torna-se invisível aos olhos da agência reguladora. "Não é
suficiente a operadora ter uma assistência primária de excelência. É preciso
que a ANS constate essa excelência por meio das guias", explica Vinícius
Dal Witt, analista de negócios da Blendus.
O
impacto financeiro e reputacional do refinamento de dados é mensurável, como
mostra o caso da Unimed Natal. Após implementar um processo rigoroso de
governança de dados, a operadora viu seu IDSS saltar de 0,6374 (2022) para
0,8522 (2023), a maior nota da operadora até então. O ganho de 0,2 pontos, um
índice expressivo em termos regulatórios, surgiu a partir da fidelidade dos
dados reportados, sem alterações na prática médica.
Eficiência
na ponta: do agendamento à alta
Enquanto
a governança de dados regulatórios protege a nota da operadora, a inteligência
de dados na ponta do atendimento ataca o desperdício operacional. A
fragmentação de informações entre sistemas distintos ainda é uma barreira, mas
soluções de interoperabilidade começam a mostrar resultados práticos na redução
de custos.
Na
Unimed Grande Florianópolis, a implementação de uma solução de comunicação
inteligente da Nina Tecnologia, integrada ao sistema de gestão, reduziu em mais
de 30% a taxa de ausência (no-show) em atendimentos. Ao automatizar lembretes e
confirmações, a tecnologia não apenas otimiza a agenda médica, reduzindo a
ociosidade, mas gera métricas vitais para cumprir os prazos de atendimento
exigidos pela ANS. "Métricas como taxa de agendamento efetivo e presença
confirmada são extremamente estratégicas para ajustes de processos e tomada de
decisão", analisa Roberto Dozol, CEO da empresa.
Já no
ambiente hospitalar de alta complexidade, a governança de dados impacta
diretamente o desfecho clínico. A Pixeon, uma das maiores healthtechs da
América Latina, processa mais de 150 milhões de exames e consultas anualmente.
Ao centralizar dados clínicos e adotar padrões internacionais de
interoperabilidade (como HL7 e DICOM), a empresa transformou a gestão do
Hospital Ana Nery. Em 2024, a unidade reduziu em 28% o tempo de internação de
pacientes complexos e aumentou em 18% o volume de cirurgias.
"A Pixeon atua como um hub tecnológico, transformando dados clínicos de formatos diversos em informações estruturadas. Isso facilita o uso assistencial e administrativo, sempre com rastreabilidade", afirma Tiago Calado, Head de Produtos da Pixeon.
O
desafio da segurança
A
digitalização acelerada traz, no entanto, o alerta vermelho da segurança
cibernética e da privacidade. As guias e prontuários carregam dados sensíveis
(CPF, diagnósticos, genética) que, se vazados, podem expor a intimidade de
milhões de brasileiros. O cruzamento dessas informações com bases públicas
exige blindagem reforçada, transformando a conformidade com a LGPD em um
requisito básico de operação.
Para o
mercado, a conclusão é de que a era da gestão intuitiva acabou. Com margens
comprimidas, a sobrevivência das operadoras depende da transição de um modelo
reativo para um modelo preditivo e baseado em evidências. Seja para garantir a
nota na ANS, reduzir o tempo de internação ou evitar que um paciente falte à
consulta, o dado limpo e estruturado é, hoje, o principal ativo da saúde
suplementar.
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