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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

A era dos dados na saúde: do impacto na nota da ANS à eficiência clínica

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Governança da informação garante salto no índice de desempenho regulatório, reduz desperdícios operacionais e melhora desfechos hospitalares

 

No cenário da saúde suplementar brasileira, operadoras e hospitais vivem um paradoxo: se por um lado, o setor nunca gerou tanta informação, por outro, precisa com urgência transformar esse volume imenso de dados em inteligência estratégica. Diante de regulação cada vez mais exigente da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), a governança de dados deixou de ser uma questão de TI para se tornar uma ferramenta estratégica de desempenho e reputação. 

Um dos gargalos mais críticos está na qualidade da informação enviada à ANS, fator determinante para o Índice de Desempenho da Saúde Suplementar (IDSS), a nota oficial do setor. Operadoras com redes de excelência têm sido penalizadas não por falharem no cuidado, mas por não conseguirem traduzir esse serviço em dados auditáveis. 

O desafio é ilustrado pela Blendus, healthtech especializada em governança de dados regulatórios. Apenas em 2025, a empresa processou 132,6 milhões de guias TISS (Troca de Informação em Saúde Suplementar), lidando com uma massa de dados de cerca de 14 milhões de beneficiários. A análise desse volume expõe falhas sistêmicas, em que, se o Código Brasileiro de Ocupações (CBO) do médico não condiz com o atendimento, ou se a terminologia (TUSS) está desatualizada, o procedimento torna-se invisível aos olhos da agência reguladora. "Não é suficiente a operadora ter uma assistência primária de excelência. É preciso que a ANS constate essa excelência por meio das guias", explica Vinícius Dal Witt, analista de negócios da Blendus. 

O impacto financeiro e reputacional do refinamento de dados é mensurável, como mostra o caso da Unimed Natal. Após implementar um processo rigoroso de governança de dados, a operadora viu seu IDSS saltar de 0,6374 (2022) para 0,8522 (2023), a maior nota da operadora até então. O ganho de 0,2 pontos, um índice expressivo em termos regulatórios, surgiu a partir da fidelidade dos dados reportados, sem alterações na prática médica.
 

Eficiência na ponta: do agendamento à alta

Enquanto a governança de dados regulatórios protege a nota da operadora, a inteligência de dados na ponta do atendimento ataca o desperdício operacional. A fragmentação de informações entre sistemas distintos ainda é uma barreira, mas soluções de interoperabilidade começam a mostrar resultados práticos na redução de custos. 

Na Unimed Grande Florianópolis, a implementação de uma solução de comunicação inteligente da Nina Tecnologia, integrada ao sistema de gestão, reduziu em mais de 30% a taxa de ausência (no-show) em atendimentos. Ao automatizar lembretes e confirmações, a tecnologia não apenas otimiza a agenda médica, reduzindo a ociosidade, mas gera métricas vitais para cumprir os prazos de atendimento exigidos pela ANS. "Métricas como taxa de agendamento efetivo e presença confirmada são extremamente estratégicas para ajustes de processos e tomada de decisão", analisa Roberto Dozol, CEO da empresa. 

Já no ambiente hospitalar de alta complexidade, a governança de dados impacta diretamente o desfecho clínico. A Pixeon, uma das maiores healthtechs da América Latina, processa mais de 150 milhões de exames e consultas anualmente. Ao centralizar dados clínicos e adotar padrões internacionais de interoperabilidade (como HL7 e DICOM), a empresa transformou a gestão do Hospital Ana Nery. Em 2024, a unidade reduziu em 28% o tempo de internação de pacientes complexos e aumentou em 18% o volume de cirurgias. 

"A Pixeon atua como um hub tecnológico, transformando dados clínicos de formatos diversos em informações estruturadas. Isso facilita o uso assistencial e administrativo, sempre com rastreabilidade", afirma Tiago Calado, Head de Produtos da Pixeon. 

 

O desafio da segurança

A digitalização acelerada traz, no entanto, o alerta vermelho da segurança cibernética e da privacidade. As guias e prontuários carregam dados sensíveis (CPF, diagnósticos, genética) que, se vazados, podem expor a intimidade de milhões de brasileiros. O cruzamento dessas informações com bases públicas exige blindagem reforçada, transformando a conformidade com a LGPD em um requisito básico de operação. 

Para o mercado, a conclusão é de que a era da gestão intuitiva acabou. Com margens comprimidas, a sobrevivência das operadoras depende da transição de um modelo reativo para um modelo preditivo e baseado em evidências. Seja para garantir a nota na ANS, reduzir o tempo de internação ou evitar que um paciente falte à consulta, o dado limpo e estruturado é, hoje, o principal ativo da saúde suplementar.


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