A partir de 2026, a inteligência artificial tende a
deixar de ocupar um papel periférico para assumir, de forma progressiva, uma
função cada vez mais estrutural no setor imobiliário e na construção civil.
Mais do que uma solução pontual, esse avanço aponta para a consolidação de uma
camada estratégica capaz de conectar dados, decisões e pessoas ao longo de todo
o ciclo de um empreendimento — do estudo de viabilidade à experiência cotidiana
de quem vive e trabalha nos espaços construídos. Nesse cenário em construção, o
papel da IA não é substituir profissionais, mas ampliar a capacidade humana de
análise, antecipação de cenários e tomada de decisões mais conscientes,
eficientes e sustentáveis.
Hoje, o setor ainda vive uma fase de transição
entre experimentação e amadurecimento. Muitas aplicações seguem em estágio
inicial, sendo testadas e ajustadas conforme a realidade dos projetos e das
empresas. Algumas organizações já começam a compreender que o verdadeiro
potencial dessa tecnologia está menos em soluções isoladas e mais na sua
incorporação gradual desde as etapas iniciais de concepção, como apoio à
estratégia do negócio. Essa mudança de mentalidade sinaliza um divisor de
águas: a IA deixa de ser vista apenas como ferramenta operacional e passa a
contribuir, de forma crescente, para decisões estruturais.
Nesse contexto, temos utilizado recursos de
inteligência artificial como apoio inicial ao desenvolvimento de produtos,
sobretudo na organização de conceitos e na estruturação de ideias. Nosso uso
ainda se encontra em uma etapa inicial e estratégica, voltada para estruturar
conceitos de produto e posicionamento, apoiar o raciocínio na definição de
premissas e organizar informações complexas de forma mais clara. Entendo a IA
como uma ferramenta de suporte, que acelera etapas de reflexão e estruturação,
sem substituir a análise técnica, o olhar crítico ou a tomada de decisão, que
permanecem humanos e alinhados à estratégia da empresa.
Olhando para frente, a expectativa é que essas soluções
passem a desempenhar um papel cada vez mais relevante na organização e
interpretação de grandes volumes de dados — como informações de mercado,
comportamento do consumidor, tendências urbanas e indicadores econômicos. Dados
que hoje ainda são dispersos ou difíceis de cruzar poderão gerar inteligência
aplicada, apoiando escolhas como definição de mix de unidades, metragens,
padrão de acabamento, público-alvo, posicionamento de produto e
estratégias de precificação. O setor caminha para um cenário em que as decisões
deixam de ser exclusivamente intuitivas e passam a ser orientadas por dados,
sem abrir mão da sensibilidade arquitetônica, do repertório técnico e da visão
urbana.
Na etapa de obras, a contribuição da inteligência
artificial também aponta para ganhos relevantes, especialmente em
previsibilidade. Algoritmos tendem a evoluir na identificação antecipada de
riscos de atraso, desperdício de materiais, conflitos de projeto e falhas de
planejamento. A expectativa é de canteiros mais eficientes, com menos
retrabalho, melhor controle de custos e prazos mais confiáveis — um avanço
significativo em um setor historicamente marcado por imprevistos.
Após a entrega dos empreendimentos, a IA deve se
consolidar como aliada da operação e da gestão predial. Sistemas inteligentes
poderão otimizar o consumo de energia, orientar manutenções preventivas,
reforçar a segurança e qualificar o uso das áreas comuns. O edifício deixa de
ser apenas uma estrutura estática e passa a operar de forma mais inteligente,
reduzindo custos e ampliando a experiência de quem utiliza o espaço. Dentro das
residências, a tendência é a expansão de soluções integradas de automação,
controle de climatização e iluminação, além de sistemas de segurança e
assistentes domésticos cada vez mais personalizados.
Quando aplicada de forma estratégica, a computação
cognitiva também desponta como aliada importante da sustentabilidade.
Essas ferramentas têm potencial para contribuir para a redução de impactos
ambientais, para a otimização de recursos naturais e para a diminuição de
custos ao longo de todo o ciclo de vida dos empreendimentos. A noção de
qualidade de vida tende a evoluir, incorporando atributos como eficiência,
conforto térmico e acústico, segurança e bem-estar cotidiano, além de estética
e localização.
Mesmo diante desse avanço tecnológico projetado, a
experiência humana permanece central. Nenhuma IA substitui repertório, visão,
sensibilidade ou conhecimento técnico. Ela atua como apoio à decisão, ampliando
o olhar dos profissionais e tornando os processos mais estruturados e
conscientes. As decisões estratégicas seguem sendo humanas, agora
potencialmente fortalecidas por dados, simulações e análises mais qualificadas.
Em um futuro próximo, a inteligência artificial
tende a influenciar, ainda que de forma indireta, a escolha de imóveis. O
consumidor dificilmente buscará um empreendimento apenas por ele utilizar IA,
mas perceberá seus efeitos em produtos mais eficientes, confortáveis, seguros e
econômicos. Esses atributos decorrem da tecnologia aplicada ao projeto, à obra
e à gestão. A principal transformação está na relação entre as pessoas e seus
espaços: o imóvel passa a compreender melhor quem vive nele, adaptando-se às
rotinas e elevando a experiência de morar. Esse é o impacto mais profundo da
inteligência artificial na construção civil do futuro.
Maurício Fassina - Diretor de Operações da GT
Building.
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