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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Algoritmos já estão desenhando a casa do futuro

 

A partir de 2026, a inteligência artificial tende a deixar de ocupar um papel periférico para assumir, de forma progressiva, uma função cada vez mais estrutural no setor imobiliário e na construção civil. Mais do que uma solução pontual, esse avanço aponta para a consolidação de uma camada estratégica capaz de conectar dados, decisões e pessoas ao longo de todo o ciclo de um empreendimento — do estudo de viabilidade à experiência cotidiana de quem vive e trabalha nos espaços construídos. Nesse cenário em construção, o papel da IA não é substituir profissionais, mas ampliar a capacidade humana de análise, antecipação de cenários e tomada de decisões mais conscientes, eficientes e sustentáveis.

Hoje, o setor ainda vive uma fase de transição entre experimentação e amadurecimento. Muitas aplicações seguem em estágio inicial, sendo testadas e ajustadas conforme a realidade dos projetos e das empresas. Algumas organizações já começam a compreender que o verdadeiro potencial dessa tecnologia está menos em soluções isoladas e mais na sua incorporação gradual desde as etapas iniciais de concepção, como apoio à estratégia do negócio. Essa mudança de mentalidade sinaliza um divisor de águas: a IA deixa de ser vista apenas como ferramenta operacional e passa a contribuir, de forma crescente, para decisões estruturais.

Nesse contexto, temos utilizado recursos de inteligência artificial como apoio inicial ao desenvolvimento de produtos, sobretudo na organização de conceitos e na estruturação de ideias. Nosso uso ainda se encontra em uma etapa inicial e estratégica, voltada para estruturar conceitos de produto e posicionamento, apoiar o raciocínio na definição de premissas e organizar informações complexas de forma mais clara. Entendo a IA como uma ferramenta de suporte, que acelera etapas de reflexão e estruturação, sem substituir a análise técnica, o olhar crítico ou a tomada de decisão, que permanecem humanos e alinhados à estratégia da empresa.

Olhando para frente, a expectativa é que essas soluções passem a desempenhar um papel cada vez mais relevante na organização e interpretação de grandes volumes de dados — como informações de mercado, comportamento do consumidor, tendências urbanas e indicadores econômicos. Dados que hoje ainda são dispersos ou difíceis de cruzar poderão gerar inteligência aplicada, apoiando escolhas como definição de mix de unidades, metragens, padrão de acabamento, público-alvo, posicionamento de produto e  estratégias de precificação. O setor caminha para um cenário em que as decisões deixam de ser exclusivamente intuitivas e passam a ser orientadas por dados, sem abrir mão da sensibilidade arquitetônica, do repertório técnico e da visão urbana.

Na etapa de obras, a contribuição da inteligência artificial também aponta para ganhos  relevantes, especialmente em previsibilidade. Algoritmos tendem a evoluir na identificação antecipada de riscos de atraso, desperdício de materiais, conflitos de projeto e falhas de planejamento. A expectativa é de canteiros mais eficientes, com menos retrabalho, melhor controle de custos e prazos mais confiáveis — um avanço significativo em um setor historicamente marcado por imprevistos.

Após a entrega dos empreendimentos, a IA deve se consolidar como aliada da operação e da gestão predial. Sistemas inteligentes poderão otimizar o consumo de energia, orientar manutenções preventivas, reforçar a segurança e qualificar o uso das áreas comuns. O edifício deixa de ser apenas uma estrutura estática e passa a operar de forma mais inteligente, reduzindo custos e ampliando a experiência de quem utiliza o espaço. Dentro das residências, a tendência é a expansão de soluções integradas de automação, controle de climatização e iluminação, além de sistemas de segurança e assistentes domésticos cada vez mais personalizados.

Quando aplicada de forma estratégica, a computação cognitiva também desponta como  aliada importante da sustentabilidade. Essas ferramentas têm potencial para contribuir para a redução de impactos ambientais, para a otimização de recursos naturais e para a diminuição de custos ao longo de todo o ciclo de vida dos empreendimentos. A noção de qualidade de vida tende a evoluir, incorporando atributos como eficiência, conforto térmico e acústico, segurança e bem-estar cotidiano, além de estética e localização.

Mesmo diante desse avanço tecnológico projetado, a experiência humana permanece central. Nenhuma IA substitui repertório, visão, sensibilidade ou conhecimento técnico. Ela atua como apoio à decisão, ampliando o olhar dos profissionais e tornando os processos mais estruturados e conscientes. As decisões estratégicas seguem sendo humanas, agora potencialmente fortalecidas por dados, simulações e análises mais qualificadas.

Em um futuro próximo, a inteligência artificial tende a influenciar, ainda que de forma indireta, a escolha de imóveis. O consumidor dificilmente buscará um empreendimento apenas por ele utilizar IA, mas perceberá seus efeitos em produtos mais eficientes, confortáveis, seguros e econômicos. Esses atributos decorrem da tecnologia aplicada ao projeto, à obra e à gestão. A principal transformação está na relação entre as pessoas e seus espaços: o imóvel passa a compreender melhor quem vive nele, adaptando-se às rotinas e elevando a experiência de morar. Esse é o impacto mais profundo da inteligência artificial na construção civil do futuro.

  

Maurício Fassina - Diretor de Operações da GT Building. 


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