Janeiro Branco é um convite coletivo à reflexão
sobre a saúde mental. Em um país que ainda carrega tantos estigmas em torno do
sofrimento emocional, este mês nos lembra que cuidar da mente é tão essencial
quanto cuidar do corpo. No entanto, quando falamos de saúde mental, há um grupo
que frequentemente permanece invisível: as mães atípicas.
Chamamos de mães atípicas aquelas que dedicam suas vidas
ao cuidado de filhos com deficiência, transtornos do neurodesenvolvimento ou
doenças raras. Essas mulheres enfrentam uma rotina intensa, exaustiva e, muitas
vezes, solitária. São mães que acumulam funções de cuidadoras, terapeutas,
educadoras, mediadoras e, não raro, únicas responsáveis por decisões complexas
que impactam diretamente a vida de seus filhos.
A sobrecarga é constante. Consultas médicas,
terapias, adaptações escolares, burocracias, preocupações financeiras e o medo
permanente em relação ao futuro fazem parte do cotidiano dessas mulheres. A
isso se soma, em muitos casos, o abandono afetivo, seja de parceiros que se
afastam, de familiares que não compreendem a realidade vivida ou de uma
sociedade que prefere não enxergar as dificuldades que não aparecem de
imediato.
Há também uma pressão social silenciosa, porém
cruel, para que essas mães sejam fortes o tempo todo. Espera-se que não
reclamem, que deem conta de tudo, que sejam exemplos de resiliência e amor
incondicional. Pouco espaço se dá para o cansaço, para o medo, para a tristeza
ou para o direito legítimo de pedir ajuda. Essa romantização da força materna
contribui para o adoecimento emocional e para sentimentos profundos de culpa
quando elas percebem que não estão bem.
Cuidar da saúde mental das mães atípicas é,
portanto, uma urgência social. É fundamental reforçar que elas não precisam
escolher entre cuidar de seus filhos ou de si mesmas. Pelo contrário: cuidar de
si é condição essencial para que consigam continuar cuidando de quem depende
delas. Buscar apoio psicológico, criar momentos de descanso, cultivar
interesses próprios e permitir-se sentir são atitudes de coragem, não de
fraqueza.
No entanto, essa responsabilidade não pode recair
apenas sobre essas mulheres. A sociedade, as famílias, os amigos, as
autoridades e as instituições precisam assumir um papel ativo no cuidado com
quem cuida. Pequenas ações fazem grande diferença: oferecer ajuda prática no
dia a dia, proporcionar momentos de descanso, ouvir sem julgamentos, validar
seus sentimentos, e, sobretudo, estar presente de forma empática são gestos que
aliviam a sobrecarga emocional.
Alguns desses relatos podem ser conferidos no
lançamento do livro “Mães – Orgulho de ser quem somos II”, que será lançado
pelo Instituto Olga Kos em fevereiro. O livro é um compilado de depoimentos de
mães atípicas que contam um pouco de suas vidas, suas dificuldades, mas também
de suas conquistas e alegrias. Apoiar uma mãe atípica é reconhecer que ela não
precisa ser heroína. Ela precisa ser humana.
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