A economia criativa brasileira movimenta cifras bilionárias,
cresce acima da média nacional em diversos segmentos e posiciona o Brasil como
referência em produção cultural, audiovisual, design, publicidade e criação
digital. Segundo o Mapeamento da Indústria Criativa 2025, publicado pela
FIRJAN, o setor representa 3,59% do PIB nacional, reunindo mais de 935 mil
profissionais formalmente empregados e milhares de autônomos e
microempreendedores atuando de forma direta ou indireta. Mesmo assim, há um
paradoxo evidente: o setor opera, na prática, sem caixa. É uma economia que
cria valor, mas sobrevive, muitas vezes, à base do fiado.
No cotidiano das agências, produtoras, estúdios, artistas e
criadores, é comum que pagamentos sejam realizados com prazos que variam entre
60 e 120 dias. Isso significa que, mesmo após a entrega de um projeto, empresas
e profissionais ainda aguardam meses para receber. Nesse intervalo, precisam
seguir produzindo, pagando equipe, fornecedores, impostos e despesas
operacionais, quase sempre sem capital de giro, sem crédito acessível e sem
garantias reais que lhes permitam financiar a operação. Como resultado, a
engrenagem criativa vive em estado de sufoco financeiro permanente.
Quando falamos em crise de liquidez, não nos referimos apenas a
grandes contratos ou valores vultosos. A falta de previsibilidade nos
pagamentos afeta a base do setor: o editor que depende do repasse da produtora,
o ilustrador contratado para um job pontual, o roteirista que entregou um
projeto, mas não consegue cobrar formalmente. Quando um cliente atrasa, a
produtora não consegue repassar; quando a produtora atrasa, os prestadores
interrompem; e assim por diante.
O impacto não é apenas financeiro, é sistêmico. Sem fluxo de
caixa, há atraso na entrega, queda de qualidade, perda de talentos e, muitas
vezes, retração de produção.
E há outro fator agravante: boa parte das relações no setor são
regidas por contratos verbais, sem formalização jurídica robusta ou
instrumentos de cobrança em caso de inadimplência. Some-se a isso a
informalidade ainda presente em nichos criativos, a volatilidade de demandas e
a ausência de garantias convencionais, e o cenário de instabilidade se agrava.
Na DUX, fintech especializada em soluções financeiras para a
economia criativa, temos mapeado esse desequilíbrio de forma recorrente. Em um
ano de operação plena, antecipamos mais de R$ 33 milhões em recebíveis, com
foco em criadores, produtoras, agências e estúdios. Só no mês de agosto de
2025, o volume antecipado foi de R$ 9,1 milhões.
Mas esses números ainda são uma fração do que está represado.
Nossas estimativas apontam para uma demanda reprimida de liquidez superior a R$
1 bilhão no setor. São projetos já performados, contratos assinados ou em
andamento que não conseguem acesso a recursos de curto prazo. Essa lacuna
representa não apenas perda de oportunidade, mas um entrave real à
sustentabilidade de milhares de negócios criativos em todo o país.
Os modelos tradicionais de crédito foram desenhados para empresas
com ativos tangíveis, ciclos de produção previsíveis e garantias reais. No
entanto, a economia criativa opera com outros códigos: projetos customizados,
ativos intangíveis, múltiplas fontes de receita, prazos irregulares e alto grau
de inovação.
Nesse contexto, ferramentas como score bancário, análise de
garantias ou mesmo linhas de crédito convencionais se tornam ineficazes, quando
não, excludentes. É como tentar medir a intensidade de uma cor com uma régua: o
instrumento é legítimo, mas inadequado ao objeto.
O desafio, portanto, não é apenas fornecer crédito, mas reformular
a lógica de avaliação de risco e construir pontes entre criatividade e
inteligência financeira. Isso passa pelo uso de dados, tecnologia, curadoria
especializada e novos modelos de garantias adaptadas à realidade do setor.
Financiar a economia criativa não é ação filantrópica, é
estratégia de desenvolvimento. Cada real investido em cultura, audiovisual,
publicidade ou criação digital retorna em empregos, inovação, exportação de
conteúdo e fortalecimento de cadeias produtivas locais.
No entanto, para que o setor avance de forma consistente, o fluxo
financeiro precisa acompanhar o ritmo da entrega. Não se trata apenas de
antecipar pagamentos, mas de desenhar soluções estruturais que permitam
previsibilidade, escala e segurança.
E esse esforço não pode ser isolado. Para mudar o jogo, é preciso
articular bancos, agências de fomento, investidores privados e políticas
públicas. É preciso criar marcos regulatórios que reconheçam a economia
criativa como vetor estratégico de desenvolvimento e que fomentem produtos
financeiros adequados ao setor.
A criatividade é um ativo. E como todo ativo, precisa de liquidez
que não é conjuntural, é estrutural. E, como tal, exige respostas sistêmicas,
coordenadas e sustentáveis. A boa notícia é que as soluções existem: já estão
em operação, testadas, com resultados concretos.
Se quisermos que o Brasil criativo seja, de fato, competitivo, é
preciso garantir que ele respire. E, para isso, é indispensável que o crédito,
a liquidez e a inovação financeira façam parte do seu dia a dia.
Luiz Octavio Neto - economista, CEO da DUX e sócio da OZ, consultoria especializada em inteligência financeira para negócios criativos e inovação regulatória.
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