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terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Por que o fim do ano intensifica o sentimento de solidão?

Psicóloga explica que fim do ano desperta emoções ambíguas e nem sempre as mais leves


É comum associarmos dezembro às luzes, aos encontros familiares e à alegria das festas. Mas, para muitas pessoas, esse mesmo mês pode trazer à tona melancolia, tristeza e um sentimento profundo de solidão. Especialistas apontam ao menos quatro fatores centrais que explicam por que, paradoxalmente, o período de celebrações favorece a exclusão emocional.

Para começar, dezembro representa o fechamento de um ciclo. Reportagens e estudos mostram que o fim de mais um ano leva muitas pessoas a fazerem um balanço pessoal. Ao revisitar metas não cumpridas ou mudanças que não aconteceram, sentimentos de frustração e decepção podem emergir com força. Essa autorreflexão intensa costuma acentuar a sensação de vazio emocional. 

Além disso, há uma pressão social muito grande para que dezembro seja feliz, festivo e cheio de encontros afetuosos. Entretanto, nem todos têm rede de apoio, convivência familiar saudável ou condições financeiras que permitam participar desse imaginário coletivo. Quando a expectativa pública é de celebração constante, a discrepância entre o que se vive e o que se espera intensifica a solidão. Pesquisas internacionais mostram que uma parcela significativa das pessoas relata tristeza, ansiedade e sensação de isolamento durante esse período. 

Outro ponto importante é que o fim do ano costuma reativar lembranças delicadas. Pessoas em luto, em transição afetiva ou que enfrentam conflitos familiares podem vivenciar dezembro como um período de dor intensificada. As reuniões, as memórias e até os rituais simbólicos podem reabrir feridas que permaneciam adormecidas ao longo dos meses anteriores.

Somam-se a isso as pressões financeiras e sociais. A necessidade percebida de presentear, participar de confraternizações ou viajar pode gerar culpa, constrangimento e exaustão emocional. Profissionais de saúde mental apontam que esse tipo de cobrança é um dos principais gatilhos para sintomas de ansiedade e tristeza nessa época. 

Em consultórios, o padrão se repete. Psicólogos relatam aumento das queixas relacionadas a insônia, irritabilidade, cansaço emocional e sentimento de inadequação no mês de dezembro. A doutora em psicologia pela PUC SP, Blenda Oliveira, destaca a importância de prestar atenção aos sinais de sofrimento. Segundo ela, “é importante observar mudanças como queda de energia, isolamento, perda de interesse pelas atividades habituais ou sensação persistente de vazio, porque esses sintomas tendem a se intensificar quando a pessoa se compara ao ritmo festivo socialmente esperado”.

Blenda Oliveira reforça que, embora a chamada síndrome do fim de ano não seja um diagnóstico clínico formal, seus efeitos subjetivos são reais. Para ela, “são sentimentos que merecem acolhimento. Minimizar a própria dor por acreditar que dezembro deveria ser leve só aumenta o sofrimento emocional”. A psicóloga lembra que cada pessoa vivencia esse período de forma singular, e que não sentir entusiasmo não significa fracasso emocional. 

Esse conjunto de fatores retrospectiva, expectativa social, pressões financeiras e fragilidades emocionais faz de dezembro uma época sensível. O sentimento de estar à margem do clima festivo pode gerar a percepção de que se está sozinho mesmo quando se está acompanhado. O contraste entre o ideal do fim de ano e a vida real costuma ser um dos aspectos mais dolorosos.

Especialistas recomendam que, diante de sentimentos persistentes de tristeza, desesperança ou isolamento, a pessoa busque apoio. Conversar com alguém de confiança, participar de atividades coletivas ou procurar acompanhamento psicológico pode contribuir para aliviar o peso emocional do período. Reconhecer a própria vivência, sem se forçar a corresponder a expectativas externas, é um passo importante para atravessar dezembro com mais equilíbrio e gentileza consigo mesmo.
 

Blenda Oliveira - doutora em psicologia pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) e psicanalista pela Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). É autora do livro Fazendo as pazes com a ansiedade, publicado pela Editora Nacional, que foi indicado ao Prêmio Jabuti em 2023. A especialista também palestra sobre saúde mental e autoconhecimento e vem se dedicando ao tema do envelhecimento e solidão.


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