A busca por soluções rápidas para combater a desnutrição hospitalar tem levado a uma crença comum, de que quanto mais proteína, melhor a recuperação. Parece uma lógica simples, mas está longe de ser verdadeira. Em um momento em que a terapia nutricional ganha protagonismo dentro das UTIs e clínicas cirúrgicas, compreender o papel exato das proteínas na nutrição parenteral é fundamental para equilibrar eficácia e segurança.
A nutrição
parenteral (NP), que consiste na administração de nutrientes diretamente na
corrente sanguínea, é indicada quando o trato gastrointestinal está
comprometido ou quando as metas nutricionais não podem ser atingidas por outras
vias. Nesse contexto, as proteínas desempenham papel decisivo na cicatrização,
manutenção da massa muscular e resposta imunológica, elementos-chave para o sucesso
da recuperação.
Entretanto,
evidências recentes mostram que alta carga proteica pode ser tão prejudicial
quanto a deficiência, especialmente em pacientes críticos, idosos ou com
doenças renais e hepáticas. O mito da “superalimentação proteica” cede espaço à
necessidade de prescrições individualizadas, baseadas em diretrizes científicas
e conduzidas por equipes multiprofissionais que priorizam não apenas o suporte
nutricional, mas também o equilíbrio metabólico.
Individualização
é a chave
De acordo com as
diretrizes da ESPEN (European Society for Clinical Nutrition and Metabolism)
e da ASPEN (American Society for Parenteral and Enteral Nutrition), a
recomendação média para a oferta proteica na NP varia entre 1,2 e 2,0 g/kg/dia,
devendo ser ajustada conforme o grau de catabolismo, estado nutricional e
função orgânica. Doses acima desse intervalo não têm mostrado benefício clínico
consistente.
O EFFORT Protein
Trial, publicado em 2023, avaliou mais de 1.300 pacientes em 16 países e
concluiu que doses superiores a 1,3 g/kg/dia não reduziram tempo de internação
nem mortalidade em 30 dias, mesmo entre desnutridos. Pelo contrário,
observou-se maior risco de complicações metabólicas em alguns grupos. Esses
resultados reforçam que o excesso de proteína não substitui o bom senso clínico
nem o monitoramento multiprofissional.
A nutrição
hospitalar eficaz exige mais que fórmulas ou metas numéricas, exige
interpretação, vigilância e mais sensibilidade clínica. Individualizar o
tratamento é traduzir ciência em cuidado real, garantindo que cada grama de
proteína sirva a um propósito terapêutico, e não apenas a uma estatística
nutricional.
Segurança e
precisão na prática hospitalar
A prescrição da NP
deve ser conduzida por uma Equipe Multiprofissional de Terapia Nutricional
(EMTN), que avalia parâmetros clínicos, laboratoriais e nutricionais antes de
definir o aporte ideal. Essa integração é vital para equilibrar eficácia e
segurança, especialmente em pacientes graves.
Avanços
tecnológicos, como o uso de bolsas prontas para uso, têm contribuído para maior
precisão e rastreabilidade, permitindo individualização mesmo em contextos
emergenciais ou em hospitais sem estrutura para manipulação personalizada.
Essas soluções padronizadas reduzem riscos microbiológicos e agilizam o início
da terapia, além de atenderem as necessidades nutricionais da maior parte dos
pacientes.
O equilíbrio
entre ciência e prática
O desafio da
nutrição hospitalar moderna não é apenas fornecer proteína, mas entender
quando, quanto e como administrá-la. A individualização da prescrição deve
considerar metabolismo, função orgânica e resposta inflamatória, e não apenas
números em tabelas.
A verdadeira inovação está em substituir a ideia de “mais
é melhor” por “melhor é o que é suficiente”. Porque, no cuidado nutricional, o
excesso também pode ser uma forma de carência, de ciência, de prudência e de
atenção ao paciente.
Thuiza Nascimento - Gerente de projetos de Farma na B. Braun, multinacional alemã referência em soluções médico-hospitalares

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