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segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Mais proteína não é sempre melhor: o mito da superalimentação na nutrição parenteral

A busca por soluções rápidas para combater a desnutrição hospitalar tem levado a uma crença comum, de que quanto mais proteína, melhor a recuperação. Parece uma lógica simples, mas está longe de ser verdadeira. Em um momento em que a terapia nutricional ganha protagonismo dentro das UTIs e clínicas cirúrgicas, compreender o papel exato das proteínas na nutrição parenteral é fundamental para equilibrar eficácia e segurança. 

A nutrição parenteral (NP), que consiste na administração de nutrientes diretamente na corrente sanguínea, é indicada quando o trato gastrointestinal está comprometido ou quando as metas nutricionais não podem ser atingidas por outras vias. Nesse contexto, as proteínas desempenham papel decisivo na cicatrização, manutenção da massa muscular e resposta imunológica, elementos-chave para o sucesso da recuperação. 

Entretanto, evidências recentes mostram que alta carga proteica pode ser tão prejudicial quanto a deficiência, especialmente em pacientes críticos, idosos ou com doenças renais e hepáticas. O mito da “superalimentação proteica” cede espaço à necessidade de prescrições individualizadas, baseadas em diretrizes científicas e conduzidas por equipes multiprofissionais que priorizam não apenas o suporte nutricional, mas também o equilíbrio metabólico.
 

Individualização é a chave  

De acordo com as diretrizes da ESPEN (European Society for Clinical Nutrition and Metabolism) e da ASPEN (American Society for Parenteral and Enteral Nutrition), a recomendação média para a oferta proteica na NP varia entre 1,2 e 2,0 g/kg/dia, devendo ser ajustada conforme o grau de catabolismo, estado nutricional e função orgânica. Doses acima desse intervalo não têm mostrado benefício clínico consistente. 

O EFFORT Protein Trial, publicado em 2023, avaliou mais de 1.300 pacientes em 16 países e concluiu que doses superiores a 1,3 g/kg/dia não reduziram tempo de internação nem mortalidade em 30 dias, mesmo entre desnutridos. Pelo contrário, observou-se maior risco de complicações metabólicas em alguns grupos. Esses resultados reforçam que o excesso de proteína não substitui o bom senso clínico nem o monitoramento multiprofissional. 

A nutrição hospitalar eficaz exige mais que fórmulas ou metas numéricas, exige interpretação, vigilância e mais sensibilidade clínica. Individualizar o tratamento é traduzir ciência em cuidado real, garantindo que cada grama de proteína sirva a um propósito terapêutico, e não apenas a uma estatística nutricional.
 

Segurança e precisão na prática hospitalar  

A prescrição da NP deve ser conduzida por uma Equipe Multiprofissional de Terapia Nutricional (EMTN), que avalia parâmetros clínicos, laboratoriais e nutricionais antes de definir o aporte ideal. Essa integração é vital para equilibrar eficácia e segurança, especialmente em pacientes graves. 

Avanços tecnológicos, como o uso de bolsas prontas para uso, têm contribuído para maior precisão e rastreabilidade, permitindo individualização mesmo em contextos emergenciais ou em hospitais sem estrutura para manipulação personalizada. Essas soluções padronizadas reduzem riscos microbiológicos e agilizam o início da terapia, além de atenderem as necessidades nutricionais da maior parte dos pacientes.
 

O equilíbrio entre ciência e prática  

O desafio da nutrição hospitalar moderna não é apenas fornecer proteína, mas entender quando, quanto e como administrá-la. A individualização da prescrição deve considerar metabolismo, função orgânica e resposta inflamatória, e não apenas números em tabelas. 

A verdadeira inovação está em substituir a ideia de “mais é melhor” por “melhor é o que é suficiente”. Porque, no cuidado nutricional, o excesso também pode ser uma forma de carência, de ciência, de prudência e de atenção ao paciente.


 

Thuiza Nascimento - Gerente de projetos de Farma na B. Braun, multinacional alemã referência em soluções médico-hospitalares


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