Especialista do Centro Especializado em Obesidade e Diabetes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz explica o lado nutricional das crenças de Réveillon
Depois de um Natal marcado por muita comida, sobremesas e
encontros familiares, o Réveillon costuma trazer um clima de recomeço. Da
lentilha no prato às sementes de romã no bolso, os brasileiros recorrem a um
conjunto fascinante de rituais em busca de prosperidade, saúde e boa sorte. O
que poucas pessoas percebem é que muitas dessas tradições também dialogam com
recomendações nutricionais contemporâneas, especialmente úteis após um período
de refeições mais pesadas e consumo maior de açúcar e álcool.
Segundo a nutricionista Tarcila Campos, do Centro Especializado em
Obesidade e Diabetes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, relacionar cultura e
alimentação pode ser uma forma leve de reorganizar hábitos saudáveis logo no
início do ano.
“As comidas de Ano-Novo carregam significados emocionais e sociais
importanres, mas várias delas coincidem com escolhas que favorecem digestão,
equilíbrio glicêmico e recuperação metabólica após os excessos de dezembro”,
explica. “É um exemplo de como a tradição, mesmo sem intenção, aproxima as
pessoas de práticas alimentares mais equilibradas.”
A seguir, veja os alimentos mais populares do Réveillon, seus
significados e como aproveitá-los de forma saudável, principalmente depois dos
excessos típicos do período entre o Natal e o Ano-Novo.
Lentilha: simbolismo de fartura e benefícios reais
Símbolo de fartura por crescer ao cozinhar, a lentilha também tem
um papel importante do ponto de vista nutricional por ser rica em fibras,
ferro, folato e proteínas vegetais, ajudando na saciedade e na regulação da
glicose no sangue.
Esse equilíbrio é especialmente relevante para quem convive com
diabetes, já que a lentilha é um dos alimentos mais eficazes para evitar picos
glicêmicos, ajudando o corpo a retomar ritmo depois de uma sequência de
refeições mais açucaradas e bebidas alcoólicas nas festas.
As fibras ainda contribuem para a saúde da microbiota intestinal,
essencial para o metabolismo e o controle glicêmico.
No dia a dia, pode ser incluída em preparações simples, como
saladas, sopas ou até substituindo o arroz.
“A lentilha é um grão versátil, acessível e combina com o espírito
de recomeço do início do ano”, comenta a especialista.
Uvas e romã: rituais antigos, antioxidantes modernos
O costume de comer sete uvas à meia-noite ou guardar sementes de
romã para atrair sorte tem origem mediterrânea, mas os benefícios vão além do
simbolismo. Esses frutos são ricos em antioxidantes, como o resveratrol
presente na uva e os polifenóis da romã, que contribuem para a saúde
cardiovascular, equilíbrio da microbiota e redução de inflamação de baixo grau.
Consumidas in natura ou combinadas com iogurtes, saladas e
preparações leves, funcionam como alternativas refrescantes às sobremesas
açucaradas típicas do Natal.
Essas escolhas são especialmente interessantes para quem convive
com colesterol elevado ou histórico familiar de doenças cardiovasculares. Não
produzem efeitos imediatos, mas ajudam a compor um padrão alimentar mais
saudável ao longo do tempo.
“O benefício vem justamente dessa troca: menos açúcar concentrado
e mais alimentos frescos para começar o ano”, explica.
Peixe como prato principal: tradição que anda para frente,
literalmente
A crença popular diz que peixes “nadam para a frente”, enquanto
aves “ciscam para trás”, justificando a preferência por pescados na virada.
Curiosamente, a tradição se alinha com recomendações nutricionais modernas: o
peixe é uma das proteínas mais leves e mais indicadas para recuperar o
equilíbrio após refeições festivas.
De digestão mais fácil e com menor teor de gordura, os peixes
oferecem ômega 3 — gordura com efeito anti-inflamatório e protetora para o
sistema cardiovascular. Preparações assadas, cozidas ou grelhadas, acompanhadas
de legumes e tubérculos, ajudam a aliviar a sensação de peso comum no início de
janeiro. “A coincidência entre tradição e nutrição é feliz. O peixe favorece
tanto o recomeço quanto o cuidado a longo prazo”, reforça a nutricionista.
Para pessoas com hipertensão, é importante priorizar preparos com
pouco sal. E opções acessíveis, como sardinha e tilápia, funcionam tão bem
quanto pescados mais nobres.
O louro na carteira, e na panela
A tradição de guardar uma folha seca de louro na carteira como
símbolo de prosperidade também se desdobra na cozinha, onde a erva desempenha
um papel importante na digestão. O louro tem propriedades carminativas, que
ajudam a reduzir gases e desconfortos gastrointestinais, algo especialmente
bem-vindo depois das refeições mais pesadas das ceias de Natal e Ano-novo.
Usado em caldos, grãos, ensopados e carnes leves, ele ajuda o
organismo a retomar um ritmo mais estável.
Para pessoas com síndrome do intestino irritável, o louro pode
aliviar a distensão abdominal, e para quem consumiu álcool em excesso encontra
no aroma da erva um leve aliado contra náuseas.
“O louro é simples, aromático e funcional, e pode ajudar o
organismo a ‘voltar ao eixo’ após as festas de fim de ano”, afirma.
Para além da superstição
O pós-festas costuma envolver promessas e mudanças
bruscas, mas a especialista reforça que o cuidado deve ser progressivo,
individualizado e sem culpa. Algumas orientações ajudam na retomada:
- aumentar a ingestão de água, especialmente após consumo
de espumante e outras bebidas alcoólicas;
- retomar gradualmente refeições equilibradas, evitando
dietas restritivas;
- priorizar frutas ricas em água e minerais, como
melancia, kiwi e laranja;
- incluir fibras e proteínas magras, como feijão,
lentilha, peixes e frango, para reorganizar o ritmo intestinal;
- adaptar preparações conforme necessidades específicas
de saúde.
“Janeiro é um mês simbólico. Usar as tradições como ponto de
partida ajuda a reconstruir uma relação mais equilibrada com a alimentação,
respeitando o corpo, o tempo de cada pessoa e as condições de saúde que ela
carrega”, conclui.
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