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segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Como tradições de Ano-Novo ajudam a retomar hábitos alimentares saudáveis

Especialista do Centro Especializado em Obesidade e Diabetes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz explica o lado nutricional das crenças de Réveillon

 

Depois de um Natal marcado por muita comida, sobremesas e encontros familiares, o Réveillon costuma trazer um clima de recomeço. Da lentilha no prato às sementes de romã no bolso, os brasileiros recorrem a um conjunto fascinante de rituais em busca de prosperidade, saúde e boa sorte. O que poucas pessoas percebem é que muitas dessas tradições também dialogam com recomendações nutricionais contemporâneas, especialmente úteis após um período de refeições mais pesadas e consumo maior de açúcar e álcool. 

Segundo a nutricionista Tarcila Campos, do Centro Especializado em Obesidade e Diabetes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, relacionar cultura e alimentação pode ser uma forma leve de reorganizar hábitos saudáveis logo no início do ano.

“As comidas de Ano-Novo carregam significados emocionais e sociais importanres, mas várias delas coincidem com escolhas que favorecem digestão, equilíbrio glicêmico e recuperação metabólica após os excessos de dezembro”, explica. “É um exemplo de como a tradição, mesmo sem intenção, aproxima as pessoas de práticas alimentares mais equilibradas.” 

A seguir, veja os alimentos mais populares do Réveillon, seus significados e como aproveitá-los de forma saudável, principalmente depois dos excessos típicos do período entre o Natal e o Ano-Novo.
 

Lentilha: simbolismo de fartura e benefícios reais 

Símbolo de fartura por crescer ao cozinhar, a lentilha também tem um papel importante do ponto de vista nutricional por ser rica em fibras, ferro, folato e proteínas vegetais, ajudando na saciedade e na regulação da glicose no sangue. 

Esse equilíbrio é especialmente relevante para quem convive com diabetes, já que a lentilha é um dos alimentos mais eficazes para evitar picos glicêmicos, ajudando o corpo a retomar ritmo depois de uma sequência de refeições mais açucaradas e bebidas alcoólicas nas festas. 

As fibras ainda contribuem para a saúde da microbiota intestinal, essencial para o metabolismo e o controle glicêmico.

No dia a dia, pode ser incluída em preparações simples, como saladas, sopas ou até substituindo o arroz.

“A lentilha é um grão versátil, acessível e combina com o espírito de recomeço do início do ano”, comenta a especialista.
 

Uvas e romã: rituais antigos, antioxidantes modernos 

O costume de comer sete uvas à meia-noite ou guardar sementes de romã para atrair sorte tem origem mediterrânea, mas os benefícios vão além do simbolismo. Esses frutos são ricos em antioxidantes, como o resveratrol presente na uva e os polifenóis da romã, que contribuem para a saúde cardiovascular, equilíbrio da microbiota e redução de inflamação de baixo grau. 

Consumidas in natura ou combinadas com iogurtes, saladas e preparações leves, funcionam como alternativas refrescantes às sobremesas açucaradas típicas do Natal. 

Essas escolhas são especialmente interessantes para quem convive com colesterol elevado ou histórico familiar de doenças cardiovasculares. Não produzem efeitos imediatos, mas ajudam a compor um padrão alimentar mais saudável ao longo do tempo. 

“O benefício vem justamente dessa troca: menos açúcar concentrado e mais alimentos frescos para começar o ano”, explica.
 

Peixe como prato principal: tradição que anda para frente, literalmente 

A crença popular diz que peixes “nadam para a frente”, enquanto aves “ciscam para trás”, justificando a preferência por pescados na virada. Curiosamente, a tradição se alinha com recomendações nutricionais modernas: o peixe é uma das proteínas mais leves e mais indicadas para recuperar o equilíbrio após refeições festivas. 

De digestão mais fácil e com menor teor de gordura, os peixes oferecem ômega 3 — gordura com efeito anti-inflamatório e protetora para o sistema cardiovascular. Preparações assadas, cozidas ou grelhadas, acompanhadas de legumes e tubérculos, ajudam a aliviar a sensação de peso comum no início de janeiro. “A coincidência entre tradição e nutrição é feliz. O peixe favorece tanto o recomeço quanto o cuidado a longo prazo”, reforça a nutricionista. 

Para pessoas com hipertensão, é importante priorizar preparos com pouco sal. E opções acessíveis, como sardinha e tilápia, funcionam tão bem quanto pescados mais nobres.
 

O louro na carteira, e na panela 

A tradição de guardar uma folha seca de louro na carteira como símbolo de prosperidade também se desdobra na cozinha, onde a erva desempenha um papel importante na digestão. O louro tem propriedades carminativas, que ajudam a reduzir gases e desconfortos gastrointestinais, algo especialmente bem-vindo depois das refeições mais pesadas das ceias de Natal e Ano-novo. 

Usado em caldos, grãos, ensopados e carnes leves, ele ajuda o organismo a retomar um ritmo mais estável.

Para pessoas com síndrome do intestino irritável, o louro pode aliviar a distensão abdominal, e para quem consumiu álcool em excesso encontra no aroma da erva um leve aliado contra náuseas. 

“O louro é simples, aromático e funcional, e pode ajudar o organismo a ‘voltar ao eixo’ após as festas de fim de ano”, afirma.


Para além da superstição

O pós-festas costuma envolver promessas e mudanças bruscas, mas a especialista reforça que o cuidado deve ser progressivo, individualizado e sem culpa. Algumas orientações ajudam na retomada:

  • aumentar a ingestão de água, especialmente após consumo de espumante e outras bebidas alcoólicas;
  • retomar gradualmente refeições equilibradas, evitando dietas restritivas;
  • priorizar frutas ricas em água e minerais, como melancia, kiwi e laranja;
  • incluir fibras e proteínas magras, como feijão, lentilha, peixes e frango, para reorganizar o ritmo intestinal;
  • adaptar preparações conforme necessidades específicas de saúde.

“Janeiro é um mês simbólico. Usar as tradições como ponto de partida ajuda a reconstruir uma relação mais equilibrada com a alimentação, respeitando o corpo, o tempo de cada pessoa e as condições de saúde que ela carrega”, conclui.

 

Hospital Alemão Oswaldo Cruz
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