Psicólogo explica por que o período intensifica conflitos familiares e orienta como agir sem reforçar culpa, vergonha ou recaídas
As festas de fim de ano
costumam acender dinâmicas emocionais que ficam adormecidas ao longo de meses
inteiros. Para muitas famílias, dezembro não traz apenas encontros, viagens e
celebrações, mas também o impacto silencioso de vícios do parceiro – seja em
álcool, apostas, pornografia, jogos digitais ou compras compulsivas. A
combinação entre expectativas altas, convivência intensa e necessidade de “parecer
tudo bem” cria um ambiente propício para tensões que se acumulam e explodem.
Segundo o psicólogo clínico
Leonardo Teixeira,
especializado em comportamentos compulsivos, o fim do ano costuma intensificar
os conflitos porque pressiona emocionalmente todos os envolvidos. “No Natal e no Ano-Novo, as pessoas
convivem mais de perto, passam mais tempo observando o comportamento do
parceiro e, muitas vezes, percebem mudanças que vêm se acumulando há meses.
Quando o vício já existe, dezembro expõe aquilo que a rotina esconde”,
afirma.
Para o especialista, o
impacto não é apenas sobre quem apresenta o comportamento compulsivo, mas sobre
toda a estrutura emocional da relação. A pessoa que convive com um parceiro em
compulsão carrega uma mistura de medo, frustração, esperança e exaustão. O
ciclo se repete com discussão, promessa, recaída, silêncio. “Famílias costumam interpretar o vício
como escolha ou falta de força de vontade. Isso cria um ambiente de culpa que
só piora o quadro. O vício não é sobre caráter; é sobre sofrimento emocional”,
explica.
Por que o fim do ano acende esse
conflito
Teixeira aponta três
fatores principais que tornam o período delicado. O primeiro é a ruptura da
rotina: festas, folgas e horários irregulares favorecem impulsos. O segundo é a
pressão social: a necessidade de mostrar felicidade amplia a sensação de
inadequação, o que leva a comportamentos de fuga. O terceiro é a
hiperestimulação emocional: saudade, cansaço, balanço da vida e expectativas
para o ano seguinte criam um terreno fértil para recaídas.
Ele explica que muitos
parceiros vivem em estado de alerta, tentando prever sinais de recaída e
controlar o comportamento do outro, uma carga emocional difícil de sustentar. “Quem vive ao lado de uma pessoa em
compulsão também adoece emocionalmente. A ansiedade, o medo de conflito e o
cansaço se acumulam. A família percebe que está pisando em ovos, e isso desgasta
a relação”.
Como agir sem reforçar culpa ou
acelerar recaídas
Para o psicólogo, a forma
como o parceiro reage faz toda a diferença. Confronto agressivo, cobrança
excessiva e tentativas de vigilância aumentam a vergonha e a impulsividade. O
caminho mais eficaz envolve acolhimento, limites claros e diálogo sem
julgamento.
Ele orienta que familiares busquem informação antes de tentar resolver o problema, identifiquem gatilhos comuns nas festas e criem acordos para o período, como reduzir situações de risco, evitar discussões em momentos de tensão e estimular a pessoa a pedir ajuda profissional. “A parceria é importante, mas não pode virar controle. A função do familiar não é vigiar. É apoiar, orientar e colocar limites que protejam ambos.”
Teixeira reforça que procurar ajuda especializada não deve ser visto como derrota, mas como cuidado com a saúde mental. CAPS, psicoterapia, grupos de apoio e estratégias de prevenção de recaída são caminhos possíveis, e mais eficazes quando o tabu é rompido. “O amor não cura compulsão, mas o acolhimento abre a porta para o tratamento. Fim de ano é um período sensível, mas também pode ser o momento em que a pessoa finalmente decide buscar ajuda. Quando existe escuta, a mudança é possível”.
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