Especialistas do CEJAM destacam que
alimentação equilibrada, sono de qualidade e acompanhamento médico contínuo são
fatores decisivos para o controle da doença 
Getty Images
O
diabetes mellitus tipo 2, uma das doenças crônicas mais comuns entre os
brasileiros, tem atingido faixas etárias cada vez mais jovens. De acordo com a
nova edição do Atlas de Diabetes da Federação Internacional de Diabetes (IDF),
divulgada em abril de 2025, o Brasil tem atualmente 16,6 milhões de pessoas
entre 20 e 79 anos vivendo com diabetes. O tipo 2, que tradicionalmente se
manifestava em pessoas acima dos 40 anos, vem
afetando cada vez mais adultos jovens, impulsionado
por hábitos alimentares inadequados, longos períodos de sedentarismo e privação
de sono.
A
endocrinologista Patricia Zach, do Hospital Dia Campo Limpo, unidade gerenciada
pelo CEJAM – Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim”, em parceria com a
Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo (SMS-SP), explica que o estilo
de vida moderno criou um ambiente propício para o avanço do problema. O consumo frequente de ultraprocessados e bebidas
açucaradas, associado à má qualidade do sono e ao estresse crônico, favorecem
o ganho de peso e a resistência à insulina, fatores
que levam ao diagnóstico cada vez mais precoce do diabetes tipo 2.
Ela aponta ainda
que fatores sociais, como a falta de espaços urbanos seguros para a prática de
atividade física, dificuldade de acesso a alimentos saudáveis e desigualdades,
influenciam esse cenário, especialmente nas populações mais vulneráveis.
“O
resultado é o que chamamos de ambiente obesogênico, que torna mais difícil
adotar hábitos saudáveis mesmo para quem tem conhecimento e motivação.”
Além disso, o diagnóstico
tardio segue sendo um obstáculo. O diabetes pode se desenvolver de forma
silenciosa por anos, e muitas pessoas só descobrem a doença após complicações
como problemas renais, oculares ou cardiovasculares.
Nos
casos identificados precocemente, o controle depende de um conjunto de mudanças
graduais. A médica defende a
adoção de metas simples, mas consistentes, como caminhar após as refeições,
reduzir bebidas adoçadas, montar pratos
equilibrados com vegetais, proteínas magras e carboidratos integrais,
bem como dormir bem, praticar atividade física e manter o cuidado médico.
“O
essencial é ter acompanhamento regular e metas alcançáveis. Pequenas mudanças
sustentadas ao longo do tempo são mais eficazes do que tentativas drásticas e
curtas”, pontua.
Apesar
de avanços tecnológicos, como sensores de glicose e medicamentos com benefícios
cardíacos e renais, a médica ressalta que o controle do diabetes continua
dependente de educação em saúde e de um sistema que ofereça suporte ao
paciente. Ela destaca a importância da atuação multiprofissional, além de
medidas públicas de prevenção. “Políticas que favoreçam o consumo de alimentos
in natura, a prática de exercícios e a redução de ultraprocessados são
decisivas para mudar o quadro atual”, conclui.
Linha
de Cuidado de Diabetes fortalece assistência na rede
pública
O
enfrentamento ao diabetes passa também pela estruturação de uma rede de
cuidados capaz de identificar precocemente a doença e orientar o paciente ao
longo do tempo. A Linha de Cuidado de Diabetes, implantada pelo CEJAM em parceria com a SMS-SP, é um dos principais instrumentos voltados a essa missão.
De
acordo com Luciana Carvalho, gerente da UBS Parque do Engenho II e uma das responsáveis pela Linha, o modelo organiza fluxos assistenciais, define
responsabilidades entre os diferentes níveis da rede e assegura a continuidade
do atendimento. A base é a Atenção Primária à Saúde, que realiza triagem, condução
do caso e educação em saúde de forma conjunta.
“Nosso
objetivo é garantir um cuidado coordenado, com atendimento periódico e acesso
facilitado a exames, medicamentos e orientações de autocuidado”, afirma.
Entre
as ações desenvolvidas estão a utilização de prontuário eletrônico integrado,
que permite o monitoramento dos pacientes e a emissão de alertas, e o trabalho
multiprofissional que reúne médicos, enfermeiros, nutricionistas, psicólogos,
farmacêuticos e educadores físicos.
As
unidades também promovem atividades comunitárias, como oficinas culinárias,
grupos de caminhada e o projeto UBS na Rua, que leva atendimento e informação
diretamente às comunidades.
Luciana
explica que o acompanhamento inclui ferramentas como o Projeto Terapêutico
Singular (PTS) e o Plano de Autocuidado Pactuado (PAP), criados para ajudar o
usuário a estabelecer metas realistas e participar ativamente do tratamento.
“Quando o paciente compreende seu papel e vê o progresso ao longo do tempo, a
adesão aumenta. O cuidado deixa de ser algo imposto e passa a ser uma conquista
compartilhada”, diz.
Em
2025, a Linha foi ampliada para abranger todas as faixas etárias, com foco
especial na prevenção entre crianças e adolescentes. A proposta é formar uma
geração mais consciente e ativa, capaz de adotar hábitos saudáveis desde cedo.
Luciana reforça, ainda, que o objetivo é ampliar o alcance das ações e reduzir, a longo prazo, as complicações e as internações associadas ao diabetes. “Mais do que uma linha de cuidado, é uma linha de vida. Envolve profissionais, comunidade e poder público atuando juntos para transformar a forma como cuidamos da nossa saúde”, resume.
CEJAM - Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim”
@cejamoficial
Nenhum comentário:
Postar um comentário