O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é muitas vezes associado à infância, mas suas manifestações persistem e se transformam na vida adulta.
Entre os sintomas que mais preocupam adultos diagnosticados, está a dificuldade de memória, que impacta diretamente na qualidade de vida pessoal e profissional. Para entender melhor essa relação, o neurologista Matheus Trilico, referência nacional no atendimento de adultos com TDAH e autismo, explica o que acontece no cérebro, as diferenças entre homens e mulheres, a influência da idade e quais estratégias podem ajudar a minimizar esses efeitos.
A Memória no Contexto do TDAH: Uma Questão de
Atenção?
“Quando falamos em memória, é fundamental compreender que não é ela que está prejudicada diretamente no TDAH. Na verdade, o que ocorre é uma falha no processo atencional, especialmente na atenção sustentada e seletiva, que compromete a codificação e recuperação das informações”, destaca o Dr. Matheus Trilico.
O neurologista detalha que o cérebro de uma pessoa com TDAH apresenta dificuldades em manter o foco por períodos prolongados, o que compromete a memória de trabalho: aquela que utilizamos para manter e manipular informações temporárias, como lembrar de um número de telefone até anotá-lo, por exemplo.
Além disso,
a memória de curto prazo também pode ser afetada, enquanto a memória de longo
prazo tende a sofrer menos impacto direto. “Por isso, o que parece esquecimento
pode, na verdade, ser uma dificuldade em armazenar ou acessar a informação,
causada pela distração e instabilidade da atenção”, explica.
Gênero e TDAH: As Diferenças na Experiência da
Memória
Estudos indicam que o TDAH pode se manifestar de maneira diferente entre homens e mulheres, e isso repercute na forma como a memória é afetada. “Homens, em geral, apresentam sintomas mais visíveis de hiperatividade e impulsividade, o que pode levar a uma maior dificuldade em manter a organização mental, impactando a memória”, diz Trilico.
Já as
mulheres costumam apresentar sintomas mais internalizados, como desatenção e
distração silenciosa, que podem ser subdiagnosticados por muito tempo. “Essa
diferença na manifestação pode levar a diagnósticos tardios em mulheres e,
consequentemente, a um sofrimento prolongado com a memória prejudicada,
autoestima baixa e ansiedade”, alerta o especialista.
O Envelhecimento e o TDAH: Um Duplo Desafio para
a Memória
Com o avançar da idade, a memória naturalmente sofre um declínio fisiológico. Porém, para adultos com TDAH não tratado, esse processo pode ser mais acelerado e intenso.
“O envelhecimento impõe um desgaste na capacidade cognitiva, e somado às dificuldades do TDAH, os desafios de memória se tornam mais evidentes, dificultando desde a rotina até atividades complexas como o trabalho intelectual”, explica Matheus Trilico.
Por isso, o
acompanhamento regular e tratamento adequado são essenciais para reduzir os
impactos e preservar a qualidade de vida.
Quando o Esquecimento Deve Ser um Sinal de
Alerta?
Esquecer ocasionalmente é normal para qualquer pessoa, mas quando esses episódios passam a prejudicar o desempenho profissional, a relação social e o bem-estar emocional, é hora de buscar ajuda.
“É comum que
muitos adultos só descubram o TDAH após uma investigação clínica motivada por
queixas de memória, baixa produtividade e até sintomas depressivos”, comenta o
neurologista.
O
diagnóstico precoce e preciso pode abrir caminho para intervenções eficazes que
minimizam o impacto na memória e na vida do paciente.
Estratégias e Tratamentos para Minimizar as
Dificuldades de Memória
Dr. Trilico
reforça que o manejo do TDAH é multidisciplinar e deve contemplar:
- Medicação:
estimulantes e outros fármacos que aumentam a concentração e a atenção,
facilitando o processamento de informações.
- Terapia cognitivo-comportamental (TCC): para desenvolver habilidades de organização,
planejamento e controle emocional.
- Terapia ocupacional:
para criar rotinas e adaptar o ambiente, reduzindo esquecimentos e
distrações.
- Estratégias práticas do dia a dia: uso de agendas eletrônicas, alarmes, listas, e técnicas de mindfulness para melhorar o foco.
“Cada pessoa
responde de forma única, por isso o acompanhamento individualizado é
fundamental”, enfatiza o neurologista.
Convivendo com o TDAH: A Memória como Parte de um Cérebro Diferente
“Ter TDAH significa ter um cérebro que funciona de forma diferente, não inferior”, conclui Matheus Trilico. “Reconhecer as dificuldades e buscar formas de contorná-las é o caminho para uma vida mais plena e produtiva.”
A
conscientização sobre o impacto do TDAH na memória adulta ainda é incipiente,
mas cresce a cada dia, auxiliando milhões a entenderem suas próprias experiências
e encontrarem suporte adequado.
Dr. Matheus Luis Castelan Trilico - CRM 35805PR, RQE 24818. Médico pela Faculdade Estadual de Medicina de Marília (FAMEMA); Neurologista com residência médica pelo Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (HC-UFPR); Mestre em Medicina Interna e Ciências da Saúde pelo HC-UFPR; Pós-graduação em Transtorno do Espectro Autista.Mais artigos sobre TEA e TDAH em adultos podem ser vistos no portal do neurologista: https://blog.matheustriliconeurologia.com.br/
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