Especialista aponta estratégias para envelhecer com uma boa saúde cerebral
O Brasil está
envelhecendo rapidamente. Projeções do IBGE mostram que, em 2046, pessoas com
mais de 60 anos já serão a maior parcela da população, alcançando 28%. Em 2070,
esse grupo deve representar 37,8% dos brasileiros, mais de um em cada três. Ao
mesmo tempo, a idade média, que era de 35,5 anos em 2023, deve subir para 48,4
anos.
O neurologista Roger
Gomes Reis, que atua na AMA Especialidades Jardim
São Luís e AMA Especialidades Capão Redondo,
gerenciadas pelo CEJAM (Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim”) em
parceria com a Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, explica que o
envelhecimento cerebral é um processo natural e complexo, mas não significa
declínio inevitável.
A partir dos 60
anos, o cérebro passa por mudanças estruturais, como redução de volume em áreas
específicas, diminuição da mielinização e alterações neuroquímicas que afetam
neurotransmissores como dopamina, acetilcolina e serotonina. Funções
cognitivas, como velocidade de processamento, memória de curto prazo e funções
executivas, também podem ser impactadas. Ainda assim, a plasticidade neural (modo como o cérebro se adapta e muda ao longo da vida) e a capacidade de compensação
permanecem ativas.
Diferenciar o
envelhecimento cerebral normal do Declínio Cognitivo Leve (DCL) é essencial. No
envelhecimento normal, os esquecimentos são mais brandos, graduais e não comprometem a independência do
idoso. Já no DCL, há lapsos de
memória mais
frequentes e impactantes, dificuldades crescentes em funções
executivas e linguagem, além de alterações perceptíveis por familiares, embora
a pessoa ainda mantenha certa autonomia.
O especialista
alerta que nem todo DCL evolui para Alzheimer, mas a maioria dos casos da
doença passa por essa fase. O diagnóstico precoce, por meio de avaliações
neuropsicológicas, exames de imagem e laboratoriais, são fundamentais para
identificar causas reversíveis e permitir intervenções que retardem a
progressão da doença.
A boa notícia é
que o cérebro idoso pode ser protegido e estimulado com exercícios físicos
regulares que promovem neurogênese, plasticidade sináptica, melhora da
vascularização cerebral, redução da inflamação e otimização da função dos
neurotransmissores. Uma
dieta equilibrada, rica em ômega-3,
antioxidantes, vitaminas do complexo B e vitamina E, também contribui para a
manutenção da saúde cerebral.
Treinos
cognitivos, desde jogos de memorização e xadrez até programas computadorizados,
ajudam a melhorar a memória, atenção e funções executivas. Assim como sono
de qualidade, práticas de yoga, meditação e mindfulness auxiliam a reduzir o estresse.
Reis ressalta que
manter uma vida social ativa é tão importante quanto exercício e dieta.
Interação e engajamento social fortalecem a função cognitiva e
protegem contra o declínio cognitivo e demências.
“Movimentar o
corpo, desafiar a mente, dormir bem, alimentar-se adequadamente e manter
conexões sociais são pilares para envelhecer com saúde cerebral. O cérebro não
para de se adaptar, a velhice pode ser um período de aprendizado e
criatividade, e não de perdas inevitáveis”, destaca o Dr. Roger.
Apoio prático
no dia a dia: Programa Acompanhante de Idosos (PAI)
Além de
orientações médicas, o Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim” oferece
suporte direto à população idosa por meio do Programa Acompanhante de Idosos
(PAI), criado em 2008 pela Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo.
A primeira unidade
gerenciada pelo CEJAM foi o PAI Vera Cruz, inaugurado em 22 de agosto de 2013,
com a missão de recuperar e fortalecer a autonomia de idosos frágeis ou
pré-frágeis que enfrentam dificuldades de acesso aos serviços de saúde.
Segundo Taciana
Ferreira, assistente social e supervisora do PAI Vera Cruz, o trabalho
cotidiano é amplo e diversificado. “Os atendimentos envolvem desde atividades
voltadas à reabilitação da vida diária como exercícios de coordenação motora,
fortalecimento muscular, prevenção de quedas e estímulos cognitivos com
musicoterapia, jogos, conversas e momentos de escuta até apoio em tarefas
domésticas, como o preparo de refeições e a organização da casa.”
As ações também
acontecem fora do domicílio, com foco no fortalecimento da participação
comunitária e na redução do isolamento social, um dos maiores desafios
enfrentados por essa faixa etária. “A UBS oferece diversos grupos abertos a
todos os idosos da região, incluindo os do PAI. Além disso, os participantes
podem ser acompanhados em exames, consultas, compras e atividades de lazer, o
que garante integração e qualidade de vida”, completa Ferreira.
O programa é
direcionado a pessoas com 60 anos ou mais, avaliadas pela AMPI (Avaliação
Multidimensional da Pessoa Idosa), que apresentam limitações de mobilidade,
dependência em atividades cotidianas, isolamento social ou falta de suporte
familiar. O acompanhamento é revisto periodicamente e, quando o idoso recupera
sua autonomia, recebe alta, abrindo espaço para novos atendimentos.
Um exemplo do
impacto do PAI é a história de Maura Rodrigues, 61 anos, incluída no programa
em fevereiro deste ano. Antes de ingressar, ela vivia isolada, enfrentava
dificuldades no controle do diabetes e da hipertensão e lutava contra a
depressão. A perda da visão, consequência de complicações do diabetes, agravou
sua condição e a fez perder a esperança, chegando a pensar em desistir da vida.
O ingresso no
programa representou uma virada. Com o acompanhamento da equipe
multiprofissional, Maura passou a receber estímulos cognitivos e físicos, reconquistando
autonomia em tarefas simples, como cozinhar, organizar a rotina e administrar
seus próprios medicamentos.
“Antes, eu não tinha
motivação. Com o PAI, passei a ter compromissos, horários definidos e
responsabilidades que me devolveram ânimo e autonomia”, relata.
O vínculo com o
acompanhante também foi decisivo. “Ele sempre me incentiva, mesmo quando eu não tenho
vontade. Trata-me como uma pessoa capaz, e não como alguém inválido, como eu me sentia após perder a
visão.”
Hoje, Rodrigues redescobriu
prazeres simples, como preparar refeições e participar de atividades sociais
com confiança. Compartilha sua evolução com familiares e amigos e afirma ter
recuperado o sentido da vida.
“A primeira atividade que consegui realizar sozinha foi tomar minha medicação. Agora não dependo de ninguém. Isso me mostrou que é possível retomar a autonomia e olhar para o futuro com esperança. Idosos ou pessoas com deficiência não podem se entregar. O apoio da equipe faz toda a diferença. Hoje sei que ainda tenho muita vida pela frente”, conclui.
CEJAM - Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim”
@cejamoficial

Nenhum comentário:
Postar um comentário