Índice
de árvores por habitante varia de 0,06 a 1,95, refletindo a desigualdade
socioeconômica dos bairros paulistanos. Árvores bloqueiam a incidência do sol e
umidificam o ambiente.Parque Ibirapuera
A cidade de São Paulo conta com um bom índice médio de
cobertura vegetal, mas a grande disparidade na distribuição das árvores entre
os bairros, ditada pela desigualdade socioeconômica, provoca variações
climáticas acentuadas entre as regiões da capital.
As árvores bloqueiam a incidência direta dos raios solares e
tornam o clima mais úmido pelo processo de evapotranspiração. Uma cobertura
vegetal ampla é essencial para mitigar os efeitos do aquecimento global nos
centros urbanos.
Como outras cidades da América Latina, São Paulo é
extremamente desigual em termos socioeconômicos. O Índice de Desenvolvimento
Humano (IDH) geral da cidade é muito alto, mas varia bastante de acordo com a
região.
A desigualdade no desenvolvimento se reflete na arborização
da cidade, como atestam dados da Prefeitura de São Paulo sobre o Índice de
Cobertura Vegetal (ICV), analisados pelo Prof. Dr. Marcos Buckeridge, do
Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP), no artigo Árvores
urbanas em São Paulo: planejamento, economia e água.
A cidade conta, de maneira geral, com uma boa arborização.
Há cerca de 650 mil árvores nas ruas da capital, que se somam às existentes em
dezenas de parques. A cobertura vegetal é especialmente densa nos extremos Sul
(região de Parelheiros) e Norte (Perus e Jaçanã) do município, onde se
encontram remanescentes de florestas.
Excluindo-se essas áreas com matas, São Paulo tem uma média
estimada de 0,6 árvore por habitante. A relação varia drasticamente de acordo
com a região. É próxima a zero no Itaim Paulista (0,06 árvores por habitante),
São Miguel (0,08), Vila Prudente/Sapopemba (0,10) e Vila Maria/Vila Guilherme
(0,10). Em contraste, as regiões do Butantã (1,95), Pirituba (1,78) e Santo
Amaro (1,76) contam com quase duas árvores por habitante.
A região “perdedora” em termos de arborização urbana,
ressalta Marcos Buckeridge no artigo publicado em 2015, ocupa uma faixa
contínua do Centro (Sé) até o extremo Leste (Itaim Paulista e Guaianases), além
do Jabaquara.
Além da mitigação do calor, as árvores de ambientes urbanos
prestam outros serviços importantes, como filtrar a poluição de material
particulado que causa doenças pulmonares e sequestrar carbono em sua madeira.
Elas propiciam também o benefício imaterial da contemplação da beleza do verde
e estudos apontam que pessoas que vivem em cidades arborizadas têm menor
tendência ao estresse e à depressão, relata o biólogo.
Uma das espécies mais abundantes na arborização de rua em
São Paulo é a tipuana (Tipuana tipu), originária do norte da
Argentina e sul da Bolívia e bem adaptada à cidade. Elas são numerosas
sobretudo em bairros nobres da capital, como Higienópolis, Pacaembu e Perdizes,
onde foram plantadas principalmente pela companhia inglesa City na primeira metade
do século XX.
As outras três espécies bastante comuns nas ruas da cidade
são a sibipiruna (Poincianella pluviosa) e o pau-ferro (Casealpinia
ferrea), nativas da Mata Atlântica, e o alfeneiro (Ligustrum
sp.), originário da Ásia.
Envelhecimento das árvores
O principal problema da arborização em São Paulo, além da
distribuição desigual entre as regiões, é o envelhecimento das árvores, que em
sua maioria têm entre 60 e 70 anos, aponta o Dr. Giuliano Maselli Locosselli,
docente e pesquisador do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da
Universidade de São Paulo (Cena-USP).Tipuana tipu
Segundo o Biólogo, as administrações municipais
historicamente pecaram no cuidado com a arborização ao se furtarem de fazer a
essencial substituição gradual dos indivíduos velhos por novas mudas. Houve
também desleixo com o manejo ao longo de décadas, tanto pela falta de poda
quando necessária, quanto pelos cortes para adequar as copas à fiação nos
postes, que podem desestabilizar as árvores.
Giuliano Locosselli elogia os esforços recentes da
Secretaria do Verde e do Meio Ambiente, que em 2021 publicou o Plano Municipal
de Arborização Urbana, e a promulgação da lei nº 17.794, de 27/4/2022, que
disciplina a arborização urbana, quanto ao seu manejo, visando à conservação e
à preservação. Mas ele ressalta que grande parte das árvores paulistanas estão
em situação mecânica delicada.
Anualmente caem cerca de 2 mil árvores em São Paulo,
sobretudo durante as tempestades de chuva e vento no verão, o que é um risco
para as pessoas e traz prejuízos econômicos.
“Em comparação, em Singapura, uma cidade muito arborizada e
também localizada na região tropical, praticamente não há quedas, porque ao
longo das décadas eles substituíram as árvores velhas por mudas”, conta
Giuliano Locosselli. “Aqui em São Paulo, estamos numa situação difícil. Se a
Prefeitura substituir todas as árvores velhas por mudas, a cobertura vegetal
vai cair drasticamente. Então, a opção para mitigar o problema das quedas é ir
substituindo gradualmente, começando pelas árvores em pior estado”
Leia mais sobre o tema na revista O Biólogo (LINK), do Conselho Regional de Biologia da 1ª Região (CRBio-01).
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