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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

Antimicrobiano natural, a quitosana tem potencial de substituir o ácido sulfúrico na produção de etanol

À esquerda, fermentação do melaço e resíduos de camarão
 pela bactéria lática; à direita, quitosana em pó resultante
do processo desenvolvido na UFSCar
fotos: acervo dos pesquisadores

Método que utiliza melaço de cana como substrato em uma das etapas do processo de produção da quitosana foi desenvolvido na UFSCar. Polímero também pode ser utilizado no controle de pragas agrícolas e na produção de biofilmes e cápsulas carreadoras de fármacos

 

A quitosana é um polímero bioadesivo, biodegradável e potencialmente antimicrobiano, com diversas aplicações: na agricultura, é usado no controle de pragas e conservação de produtos agrícolas; na indústria, para a produção de revestimentos e embalagens biodegradáveis; no segmento farmacêutico, para a fabricação de curativos e o encapsulamento de fármacos.

Uma pesquisa realizada na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), campus de Araras, mostrou que a quitosana também pode ser empregada como antimicrobiano natural na produção de bioetanol, substituindo o ácido sulfúrico, atualmente usado para controlar contaminações bacterianas no processo industrial. E o mais interessante é que o processo desenvolvido utiliza o melaço de cana como matéria-prima para a bioextração da quitina, precursora da quitosana, a partir de resíduos de camarão. Isso oferece a possibilidade de que a quitosana seja produzida na própria usina, segundo o conceito de economia circular.

Os resultados foram publicados no Journal of Polymers and the Environment.

“A quitosana é derivada da quitina, um polissacarídeo encontrado na parede celular de fungos, em carapaças de crustáceos [como camarões e caranguejos] e em insetos. Para obter a quitosana, a quitina precisa passar por um processo chamado desacetilação, no qual os grupos acetila [-COCH3] são removidos da molécula. No método convencional, utilizado na produção industrial de quitosana, a extração da quitina é feita com o emprego de ácidos ou bases fortes. Uma grande novidade trazida por nosso estudo é que, em vez desse caminho químico, desenvolvemos um processo inteiramente biológico, extraindo a quitina da casca de camarão por meio da fermentação do melaço de cana pela bactéria Lactiplantibacillus plantarum, com a adição de uma fonte de nitrogênio”, conta à Agência FAPESP Sandra Regina Ceccato Antonini, professora do Departamento de Tecnologia Agroindustrial e Socioeconomia Rural da UFSCar e coordenadora do estudo.


Metodologia

A pesquisadora detalha o passo a passo do processo. Na primeira etapa, que é a obtenção da quitina, o resíduo de camarão é posto no fermentador junto com o melaço de cana, a bactéria lática e a fonte de nitrogênio. O microrganismo fermenta o melaço, produzindo ácido lático e proteases. Essas substâncias liberam a quitina do resíduo. Depois de três dias, a quitina é obtida por filtração e secagem.

Na segunda etapa, a quitina passa pelo processo de desacetilação, dando origem à quitosana. Embora também existam opções biológicas para essa segunda etapa, elas não foram exploradas no estudo em pauta. A desacetilação continuou sendo realizada por meios químicos.

“O que nós fizemos, sim, foi manejar essa segunda etapa química de modo a produzir tanto uma quitosana de alto peso molecular quanto uma quitosana de baixo peso molecular. Por que isso? Porque cada uma se presta a uma finalidade diferente. As quitosanas de baixo peso molecular geralmente têm uma atividade antimicrobiana maior, enquanto as de alto peso molecular, isto é, com cadeias maiores, se prestam melhor à confecção de filmes poliméricos”, conta Antonini.

O estudo gerou protocolos para a produção de filmes de boa qualidade; para a produção de microesferas, que podem ser utilizadas como carregadores de fármacos; e, principalmente, para a produção de um antimicrobiano natural que pode substituir o ácido sulfúrico na indústria do etanol. Vale lembrar que o ácido sulfúrico é altamente corrosivo. A quitosana constitui uma opção ambientalmente mais amigável.

“Além disso, há questões de mercado. Na época da pandemia, o ácido sulfúrico ficou em falta e isso deu, por assim dizer, um desespero no pessoal do setor sucroalcooleiro, que me procurava, pedindo uma alternativa porque já não sabia o que fazer. Bem, a quitosana é essa alternativa. E o seu uso na indústria do etanol é a grande novidade que o nosso estudo aporta, pois apresentou atividade antimicrobiana comparável à do ácido sulfúrico”, sublinha a pesquisadora.

O cotejo entre o desempenho dos dois agentes é objeto de outro artigo, já submetido para publicação. Ressalte-se ainda que a quitosana utilizada em solução como antimicrobiano e para a produção de filmes e microesferas não foi purificada, o que leva a uma redução de custos na obtenção do polímero.

Além do potencial na indústria do bioetanol, a quitosana desenvolvida pela equipe da UFSCar-Araras demonstrou atividade antifúngica contra patógenos agrícolas, como Alternaria alternata (causador da mancha de alternaria), Fusarium sp. (fusariose ou podridão-seca) e Geotrichum citri-aurantii (podridão-azeda). Essa propriedade sugere seu uso como biopesticida natural na agricultura, reduzindo a necessidade de fungicidas sintéticos.

Embora a viabilidade econômica da substituição do ácido sulfúrico ainda precise ser analisada, a pesquisa abre caminho para uma abordagem mais sustentável na produção de etanol. “Se pensarmos em um modelo de biorrefinaria, existe a perspectiva de produzir quitosana dentro da própria usina sucroalcooleira, aproveitando o melaço e resíduos de levedura, em um processo de economia circular", sugere Antonini.

A pesquisa é fruto da tese de doutorado de Isabella Carvalho Tanganini, defendida na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP) em junho de 2024. Primeira autora do artigo, Tanganini foi orientada por Antonini. E parte de sua tese foi desenvolvida em parceria com a professora Andréia Fonseca de Faria, pesquisadora da University of Florida, nos Estados Unidos, coautora do artigo.

O trabalho recebeu apoio da FAPESP por meio de dois projetos (18/19139-2 e 22/03293-8).

O artigo Chitin and Chitosan Production from Shrimp Wastes by a Two-Step Process Consisting of Molasses-Based Lactic Fermentation and Chemical Deacetylation: Insights into the Antimicrobial, Microsphere and Film-Forming Properties of Chitosan pode ser acessado em: https://link.springer.com/article/10.1007/s10924-024-03365-8.

 

José Tadeu Arantes
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/antimicrobiano-natural-a-quitosana-tem-potencial-de-substituir-o-acido-sulfurico-na-producao-de-etanol/54049

 

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