Amigo meu sempre graceja: faz profissão de fé a favor da liberação
feminina, mas emenda que o ideal seria que viesse a ocorrer “na próxima
geração”. Explica que “não se trata de machismo, mas de falta de oportunidade
de se reciclar”. A coisa toda caiu no seu tempo e em choque com as melhores
recomendações da própria mãe. Brinca que “padece as angústias de um dilema”: ou
briga com a companheira, ou briga com a sogra dela. Em resumo: foi educado de
um jeito, o mundo ficou de outro.
Outro amigo adaptou-se logo aos fatos. Adaptou-se até
demais, ele mesmo diz. Conforme os costumes, sustentava a casa. A mulher ficou
de prendas domésticas, porém, deu-se a estudar. Na terceira tentativa passou em
um concurso. O emprego era público: todas as garantias, todas as vantagens, não
era de largar. E agora? Agora os papéis se inverteram. Ele cuida dos afazeres
familiares e complementa a renda do casal, dando aula particular. E estuda,
aprontando o amanhã.
Aí começa o caso: o primeiro e o segundo amigo vêm a ser
a mesma e única pessoa. Mas, para ser um só, ele teve que se desdobrar em dois.
É que houve uma baita confusão quando o sujeito que brincava com o feminismo
assumiu os ofícios do lar. Para o casal, tudo está exatamente conforme
combinado: ele trabalha, ela estuda; ela consegue sucesso, as coisas se
invertem. No momento, ela paga as contas, ele se prepara. No futuro, se ele
conseguir coisa melhor, refazem-se as combinações.
Quer dizer, entre os exclusivos interessados as posições
estavam claras e conformes às condições mais ou menos vantajosas de cada parte.
Lênin, que parafraseou Marx, que parafraseou Blanc, que parafraseou Enfantin, diria
que se cumpre a máxima: “de cada um conforme a sua capacidade; a cada um
conforme a sua necessidade.” Ah, mas para as respectivas (e típicas) famílias,
não... O que viam era algo que bordeava qualquer desvergonha entre vadiação e
falta de caráter. E veio a intromissão.
Os pais dele achavam que o filho, simplesmente, passara a
viver às custas da mulher. E o pai culpava a mãe, alegando falta de dureza na
educação. A mãe se calava, mas achava que o filho tinha a quem puxar: havia um
parente do marido... Os pais dela lamentavam não haverem percebido esse traço
na personalidade do rapaz: o genro não sabia impor-se como homem e deixava a
esposa mandar. Esse não era papel de mulher, muito menos da filha deles. “É
muita responsabilidade, tadinha”, dizia a mãe.
A contragosto, os filhos prestaram explicações:
estabeleceram e viviam um acordo que agradava a ambos, existiam metas, tempos
delimitados etc. Amavam-se, queriam uma vida mais confortável e combinaram um
plano de investimento recíproco. Apostavam um no outro e em bom retorno. Se
houvesse separação, fariam as contas, e alguém ressarciria alguém, se fosse o
caso. Pronto, entendido e engolido o propósito, as famílias determinaram-se a
mudar a maneira de alcançá-lo.
Reunião geral. Os pais convocaram os filhos: financiariam
o projeto do casal; o dinheiro seria devolvido sem pressa, após o sucesso do
empreendimento. “E não se fala mais nisso.” Os filhos, agradecidos, indignados,
pronto recusaram. E advertiram sobre senso comum familiar, condicionamento
social, cultura sem sentido, igualdade de gênero. Nada. Piorou.
Entreolharam-se, ela falou: “cara, não é fácil fazer-se como mulher, mas,
percebo, é bem difícil ser homem em tempos de transição.”
Doutor em Direito pela UFSC
Psicanalista e Jornalista
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