Dados do Atlas da Violência 2026 revelam aumento de mais de quatro vezes nas notificações de violência sexual contra crianças de 0 a 4 anos; especialista defende ações integradas de proteção
A violência contra
crianças e adolescentes no Brasil tem começado cada vez mais cedo e, na maioria
das vezes, dentro do ambiente que deveria oferecer proteção. Os dados mais
recentes do Atlas da Violência 2026 acendem um alerta para um fenômeno que
especialistas consideram urgente: a exposição precoce de crianças a diferentes
formas de violência e seus impactos duradouros no desenvolvimento.
O levantamento,
elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum
Brasileiro de Segurança Pública, mostra que as notificações de violência sexual
contra crianças de 0 a 4 anos cresceram mais de quatro vezes entre 2014 e 2024,
passando de 1.671 para 7.845 registros. Na faixa de 5 a 14 anos, considerada a
de maior concentração absoluta de casos, as notificações saltaram de 6.594 para
29.135 no mesmo período. O estudo destaca ainda que cerca de dois terços das
ocorrências envolvendo crianças de até 14 anos acontecem dentro da própria
residência. Entre as vítimas de 0 a 4 anos, esse percentual chega a 79,9%.
Para a psicóloga e
pesquisadora Marcella Araújo, os números revelam um problema que não pode ser
tratado apenas como questão de segurança pública. "Quando observamos que a
violência atinge crianças ainda nos primeiros anos de vida e que ela acontece
majoritariamente dentro de casa, estamos falando de uma crise que atravessa as
relações familiares, a proteção social, a saúde e a educação. A violência não
começa na rua, em muitos casos ela começa justamente nos espaços onde a criança
deveria encontrar cuidado e segurança", afirma.
Segundo a
especialista, um dos aspectos mais preocupantes do relatório é a evidência de
que diferentes formas de violência costumam coexistir ao longo da trajetória de
uma mesma criança. Negligência, violência psicológica, violência física e
violência sexual frequentemente se acumulam, produzindo impactos profundos
sobre o desenvolvimento emocional, cognitivo e social.
"Não podemos
olhar para um episódio de violência como um fato isolado. Muitas crianças vivem
processos contínuos de exposição a diferentes formas de violação. Quanto mais
precoce é essa exposição, maiores tendem a ser os impactos sobre o
desenvolvimento e sobre a forma como essa criança irá construir vínculos e
compreender o mundo ao seu redor", explica.
O Atlas também
chama atenção para o papel da escola. Além de concentrar a maior parte dos
casos na faixa entre 5 e 14 anos, o ambiente escolar aparece como espaço
estratégico para identificação, acolhimento e notificação de situações de
violência, ao mesmo tempo em que também registra agressões físicas, violência
psicológica e bullying.
Para Marcella,
isso reforça a necessidade de investir na formação de profissionais da
educação. "A escola ocupa uma posição privilegiada na rede de proteção
porque é muitas vezes o primeiro lugar onde os sinais aparecem. Professores,
coordenadores e equipes pedagógicas precisam estar preparados para reconhecer
mudanças de comportamento, acolher relatos e acionar os fluxos de proteção
adequados. A responsabilidade não é individual, mas institucional."
Outro dado
relevante é a desigualdade de gênero presente nas estatísticas: 86,9% das
vítimas de violência sexual são meninas. O relatório associa esse padrão a
relações históricas de poder, controle sobre os corpos femininos e à
disseminação de discursos que naturalizam a dominação masculina, inclusive em
ambientes digitais.
"A violência
sexual não pode ser analisada apenas como um problema individual ou familiar.
Ela também está relacionada à forma como a sociedade constrói relações de
gênero. Falar sobre respeito, consentimento e relações saudáveis desde cedo é
uma medida de proteção e de prevenção", afirma.
A adolescência
também aparece como um período de vulnerabilidade crescente. Embora a violência
doméstica diminua proporcionalmente nessa fase, aumentam os riscos associados
aos espaços públicos, à violência entre pares, ao ambiente digital e ao
sofrimento psíquico. O Atlas aponta crescimento de 41,7% na taxa de suicídio
entre adolescentes e jovens entre 2014 e 2024, evidenciando a necessidade de
ampliar o acesso a redes de apoio e cuidado.
Psicóloga formada
pela Universidade Federal de Uberlândia, mestre em Psicologia pela Universidade
de São Paulo e com MBA em Gerenciamento de Projetos pela Fundação Getulio
Vargas, Marcella Araújo atua na formação de profissionais da educação,
psicologia e políticas públicas. Sua atuação é fundamentada na psicologia
histórico-cultural e tem como foco o desenvolvimento de crianças e
adolescentes, a qualificação da escuta e a construção de práticas
institucionais que fortaleçam a proteção integral.
Para ela, os dados
do Atlas reforçam a necessidade de abandonar respostas fragmentadas. "Não
existe uma solução única para um problema tão complexo. A proteção de crianças
e adolescentes exige articulação entre escola, família, assistência social,
saúde e políticas públicas. Quando cada setor atua isoladamente, as lacunas
aumentam. Quando a rede funciona de forma integrada, as possibilidades de
proteção também aumentam.
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