Doença está associada à hipertensão, infarto, AVC e
prejuízos à memória e à concentração; especialista alerta para sintomas pouco
valorizados e reforça a importância do diagnóstico precoce
Dormir de forma adequada é considerado um dos principais “ingredientes” para se ter boa saúde. A quantidade ideal pode ser bastante individual sendo que a média populacional gira em torno de sete a oito horas de sono por noite. No entanto, a duração do sono, isoladamente, não garante que o organismo esteja realmente descansando. A qualidade do sono é um fator determinante para a recuperação física e mental, e um dos principais distúrbios que comprometem esse processo é a apneia obstrutiva do sono (AOS), que permanece subdiagnosticada.
Dado recente publicado em 2026 no Journal of Sleep Research, que analisou uma amostra representativa da população de São Paulo, demonstrou que 37,1% tem apneia obstrutiva do sono. Além disso, outro estudo, publicado em 2019 no Lancet Respir Med, estima que a AOS afeta aproximadamente 1 bilhão de pessoas em todo o mundo.
O
otorrinolaringologista e especialista em medicina do sono, Dr. Danilo Sguillar, membro da Associação
Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF), chama
a atenção para o fato de que muitas pessoas acreditam estar dormindo o tempo
suficiente, mas apresentam um sono fragmentado por repetidas interrupções da respiração
ao longo da noite e quedas na oxigenação. Ele explica que estes dois fatores,
fragmentação e dessaturação, impedem que o cérebro complete fases do sono
cruciais para a restauração cerebral. “O número de horas dormidas é importante,
mas não é suficiente para definir um sono saudável. Um paciente com apneia
obstrutiva do sono não completa fases do sono para um ‘reset cerebral’. Se ele
não faz ou faz menos horas de sono profundo e de sono REM (Rapid Eye
Movement) do que deveria, ele acorda cansado, indisposto e com sensação de
sono não reparador.”
Tempo
ideal?
O fato é que dormir pouco e dormir demais podem representar riscos. De acordo com o Dr. Sguillar, adultos devem dormir, em média, entre sete e oito horas por noite, sendo que dormir menos do que deveria pode estar associado ao aumento do risco de hipertensão arterial, obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares, depressão, comprometimento cognitivo e redução da imunidade. Por outro lado, dormir mais do que deveria, de forma frequente, também merece atenção, pois ao dormir demais, a pessoa pode estar “compensando” horas perdidas de sono. “Em pacientes com apneia obstrutiva do sono, o excesso de horas na cama pode representar sono não restaurador”, diz.
Dr.
Sguillar reforça que os sonos bons, como o sono de ondas lentas (sono profundo)
e o sono REM, são fundamentais para se obter equilíbrio metabólico, controle de
pressão, estabilização do peso corporal além de consolidação da memória,
melhora do humor e da disposição.
Características
A apneia obstrutiva do sono ocorre quando há o estreitamento ou o colapso das vias aéreas superiores durante o sono, dificultando ou interrompendo temporariamente a passagem do ar. Segundo o especialista, o problema costuma estar associado ao ronco intenso, mas nem todo paciente percebe que tem essas paradas respiratórias. Além da sonolência na manhã seguinte e da redução da produtividade, a doença está relacionada ao aumento do risco de infarto do miocárdio; acidente vascular cerebral (AVC); arritmias e insuficiência cardíacas; ansiedade e depressão; alterações de memória e concentração, entre outros problemas.
O fato
é que uma boa noite de sono não é definida apenas pelo relógio. Entre as principais
características estão permanecer dormindo durante praticamente toda a noite;
apresentar poucos ou nenhum despertar frequente; acordar disposto e com
sensação de descanso e manter um bom nível de atenção e energia ao longo do
dia. “Em contrapartida, ronco alto e frequente; pausas respiratórias percebidas
por familiares; engasgos ou sensação de sufocamento durante a noite; boca seca
ao acordar e dor de cabeça pela manhã são sintomas que podem indicar a apneia
obstrutiva do sono”, enumera o médico, ao dizer que o diagnóstico precoce,
realizado por avaliação médica e exames específicos, como a polissonografia,
que registra parâmetros respiratórios, neurológicos e cardiovasculares durante
o sono, faz toda a diferença. “O tratamento varia conforme a gravidade da
doença e pode incluir mudanças no estilo de vida, controle do peso, uso de
aparelhos intraorais, terapia com pressão positiva contínua nas vias aéreas
(CPAP) e, em casos bem selecionados, procedimentos cirúrgicos realizados por um
otorrinolaringologista”, relata.
Mitos e
Verdades sobre o sono
Mito: Dormir mais de oito horas
significa dormir melhor.
Verdade: O excesso de horas de sono não garante um
descanso reparador. Em alguns casos, pode indicar um distúrbio do sono, como a
apneia obstrutiva.
Mito: Quem ronca apenas incomoda quem está ao lado.
Verdade: O ronco frequente é um dos principais sinais da
apneia obstrutiva do sono e deve ser investigado, especialmente quando está
associado à sonolência diurna.
Mito: A apneia afeta apenas pessoas idosas.
Verdade: A doença pode ocorrer em adultos de qualquer
idade e também em crianças, embora seja mais frequente em homens, pessoas com
excesso de peso e indivíduos acima dos 40-45 anos de
idade.
Mito: Acordar cansado é normal.
Verdade: Mesmo após de sete a oito horas de sono,
acordar frequentemente sem disposição pode indicar que o organismo não
conseguiu completar adequadamente os ciclos do sono. E
doenças relacionadas a ele devem ser investigadas
Dr. Danilo Sguillar - CRM-SP 130313 - RQE 37827
Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial - ABORL-CCF
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