Para formar os tecidos do organismo, as células precisam estar ancoradas umas às outras; quando uma célula normal se desprende desse ambiente, ativa um mecanismo de autodestruição. No câncer, porém, esse processo de proteção é subvertido (imagem: NCI/Unsplash)
Experimentos conduzidos na Unifesp mostram que inibir a proteína SDC4 anula a estratégia de resistência que as células tumorais usam para sobreviver e invadir novos órgãos
Pesquisa conduzida na
Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) indica que uma proteína encontrada
na superfície das células – denominada sindecam-4 (SDC4) – é um potencial alvo
a ser explorado no combate ao câncer.
Experimentos em laboratório mostraram
que o bloqueio dessa molécula funciona como uma espécie de freio biológico:
além de paralisar a divisão celular, ele elimina a proteção que as células
tumorais usam para sobreviver soltas no organismo, neutralizando o principal
mecanismo que facilita as metástases. Os resultados foram publicados em março na revista Cytotechnology.
“Nosso estudo mostra que a SDC4
pode se tornar um alvo terapêutico promissor e servir como marcador diagnóstico
para acompanhar a progressão de tumores. A estratégia de silenciar essa
molécula tem potencial para impedir a proliferação de células cancerosas, mas
ainda estamos em fases iniciais da pesquisa e seria necessário validar os resultados
em cada caso específico da doença”, afirma Carla Cristina Lopes,
professora do Departamento de Ciências Biológicas da Unifesp e autora correspondente
do artigo.
Como explica a pesquisadora,
para formar os tecidos do organismo, as células precisam estar ancoradas umas
às outras e à matriz extracelular, que funciona como uma espécie de
preenchimento entre elas. Quando uma célula normal se desprende desse ambiente,
ela ativa um mecanismo natural de autodestruição chamado anoikis –
termo de origem grega que pode ser traduzido como "morte por falta de
casa".
No câncer, porém, esse processo
de proteção é subvertido. Células tumorais mais agressivas adquirem a
capacidade de resistir à anoikis, o que lhes permite sobreviver
soltas, migrar pela corrente sanguínea e colonizar outros órgãos, fenômeno
conhecido como metástase.
É nesse contexto que a proteína
SDC4 ganha destaque. Em condições normais, as células produzem a SDC4 para
desempenhar funções essenciais, como a própria adesão aos tecidos. O problema
surge quando ocorre uma produção excessiva (superexpressão) dessa molécula, o
que está diretamente associado ao desenvolvimento e à progressão da doença.
“A sindecam-4 protege as
células tumorais desse tipo específico de morte celular que ocorre quando a
célula se desprende do tecido”, destaca Lopes.
Mecanismo
desvendado
Para entender esse mecanismo,
os pesquisadores realizaram testes em laboratório utilizando células de vasos
sanguíneos (endoteliais) de coelhos. Inicialmente, a equipe forçou essas
células a ficarem soltas no meio de cultura, impedindo que se fixassem em
qualquer superfície. Como era esperado, a grande maioria não resistiu, mas um
pequeno grupo – menos de 5% – conseguiu sobreviver a essa "falta de
casa". Essas células sobreviventes se tornaram altamente agressivas e
passaram a produzir a proteína SDC4 em quantidades exageradas.
Para comprovar se essa molécula
era a responsável por garantir a sobrevivência em suspensão, os cientistas
usaram técnicas de engenharia genética para "silenciar", ou desligar,
a SDC4 nessas células. O resultado confirmou a suspeita: sem a presença da
proteína, as células perderam suas características malignas e voltaram ao
estado normal, dependendo novamente da adesão física a uma superfície para
continuarem vivas.
“Essa reversão aumentou
significativamente a morte programada e reduziu a capacidade invasiva das
células, indicando a SDC4 como um alvo terapêutico promissor para conter a
metástase antes que ela se estabeleça”, comenta Lopes. Os resultados ainda
precisam ser replicados em células humanas – incluindo células tumorais – para
que a pesquisa possa avançar na direção de uma aplicabilidade clínica.
As análises revelaram também como
a SDC4 age no interior das células: a proteína interfere diretamente nas etapas
iniciais do ciclo de multiplicação celular. Ao silenciar o gene da SDC4, a
equipe observou um aumento na produção de uma molécula chamada p27, que
funciona como um inibidor natural da divisão celular, conseguindo paralisar a
proliferação desordenada que caracteriza os tumores. Além de acionar esse
mecanismo de frenagem, o bloqueio da SDC4 ajudou a reequilibrar a produção de
ciclinas e CDKs, que são as principais proteínas responsáveis por ditar o ritmo
e autorizar o avanço da multiplicação das células.
A investigação foi realizada
com apoio da FAPESP durante o
mestrado de Bianca
Zaia F. Ferreira. A equipe também contou com
financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
(CNPq), da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes)
e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).
Atualmente, o grupo investiga
se o canabidiol (CBD) – composto não psicoativo derivado da Cannabis
sativa – pode atuar sobre as moléculas de SDC4. “A descoberta do papel
da SDC4 na metástase abre caminho para uma série de novos estudos. Uma das
nossas linhas de pesquisa busca verificar se o canabidiol consegue reverter o
comportamento maligno de células resistentes ao anoikis, modulando
a expressão da SDC4 ou interferindo nas vias de sinalização que sustentam o
crescimento desordenado. Seria uma abordagem interessante, mas ainda estamos
nas etapas iniciais de investigação”, conta.
O artigo SDC4 silencing
promotes cell cycle arrest at the restriction point (R point) in
anoikis-resistant endothelial cells pode ser lido em: link.springer.com/article/10.1007/s10616-026-00931-x.
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/cientistas-descobrem-possivel-forma-de-desativar-mecanismo-de-progressao-do-cancer/58636

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