Todos os anos, a queda das temperaturas traz consigo a mesma explicação para o aumento dos casos de gripe, bronquiolite e outras infecções respiratórias: "a culpa é do frio". Mas essa associação, embora comum, nos faz olhar para o lugar errado.
O frio, por si só, não transmite vírus. O que aumenta o risco de adoecer é a combinação entre maior circulação de vírus respiratórios, ambientes fechados, pouca ventilação e um comportamento que se repete ano após ano: deixar a prevenção para depois.
Os números mostram isso. Antes mesmo da chegada oficial do
inverno, o Brasil já havia registrado quase 90 mil casos de Síndrome
Respiratória Aguda Grave (SRAG) em 2026, segundo o Boletim InfoGripe, da
Fiocruz. O levantamento também apontou que 16 estados apresentavam tendência de
alta para a doença, ou seja, a temporada das infecções respiratórias começa
antes mesmo das temperaturas mais baixas se instalarem pelo país.
O problema não é o inverno. É chegar despreparado para
ele.
Todos os anos sabemos que haverá aumento na circulação de vírus como influenza, vírus sincicial respiratório (VSR) e SARS-CoV-2. Essa sazonalidade não é novidade. O que continua chamando atenção é que ainda tratamos a prevenção como uma resposta a crise, e não como uma estratégia para evitá-la.
A vacinação é o melhor exemplo disso. Muita gente só procura uma
dose quando os casos aumentam, quando alguém da família adoece ou quando surgem
notícias sobre hospitais lotados. É um fato e vemos esse ciclo se repetir ano
após ano na Nina Saúde. Mas a proteção conferida pelas vacinas não é imediata.
O organismo precisa de tempo para desenvolver uma resposta imunológica, por
isso o ideal é se vacinar antes do pico de circulação dos vírus.
Vacinar é proteger em todas as fases da vida
Outro equívoco frequente é acreditar que vacinação é um assunto exclusivamente infantil. Embora manter o calendário das crianças atualizado seja fundamental, a imunização também é indispensável para adolescentes, adultos, idosos, gestantes e pessoas com doenças crônicas.
O VSR, por exemplo, é responsável por grande parte dos casos de bronquiolite e pneumonia em crianças menores de dois anos. Hoje, a vacinação de gestantes a partir da 28ª semana de gravidez permite que anticorpos sejam transferidos ao bebê ainda durante a gestação, reduzindo o risco de formas graves da doença nos primeiros meses de vida.
Da mesma forma, as vacinas contra influenza e COVID-19 continuam
sendo essenciais para reduzir hospitalizações e mortes entre idosos, gestantes,
imunossuprimidos e pessoas com doenças cardiovasculares, pulmonares, diabetes
ou obesidade. Ainda assim, a cobertura vacinal desses grupos permanece abaixo
do ideal.
SUS e rede privada: aliados na prevenção
O Brasil tem um dos programas públicos de imunização mais reconhecidos do mundo. O Programa Nacional de Imunizações (PNI) é responsável por proteger milhões de brasileiros e continua sendo um dos pilares da saúde pública.
Mas ampliar a cobertura vacinal também passa por aproveitar
todas as oportunidades de acesso a vacinação. Nesse contexto, a rede privada
desempenha um papel complementar importante, oferecendo diferentes imunizantes,
estratégias individualizadas de proteção e mais flexibilidade para que
crianças, adultos e idosos mantenham seu calendário vacinal atualizado, sempre
com orientação médica. O objetivo é o mesmo: prevenir doenças e reduzir casos
graves.
A prevenção continua sendo nossa melhor resposta
É natural que os vírus respiratórios circulem com mais intensidade durante os meses mais frios. O que não deveria ser natural é aceitarmos, todos os anos, o aumento das internações como algo inevitável.
Além da vacinação, medidas simples continuam sendo extremamente eficazes: manter ambientes ventilados, higienizar as mãos, evitar contato próximo quando houver sintomas e utilizar máscara em situações de maior risco ajudam a interromper a cadeia de transmissão. Também é importante evitar a automedicação. A maioria das infecções respiratórias é causada por vírus e não deve ser tratada com antibióticos, cujo uso inadequado contribui para o aumento da resistência bacteriana.
Talvez seja hora de mudarmos a pergunta. Em vez de culpar o
frio, deveríamos discutir por que ainda chegamos tão despreparados à temporada
de maior circulação dos vírus respiratórios. Temos informação, vacinas e
medidas de prevenção eficazes. O desafio agora é transformar esse conhecimento
em hábito. Afinal, quando a prevenção acontece no momento certo, o inverno
deixa de ser sinônimo de hospitais cheios e passa a ser apenas mais uma estação
do ano.
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