terça-feira, 21 de julho de 2026

Mudanças provocadas pelas canetas emagrecedoras também impactam a saúde bucal, e quem tem diabetes pode ser mais vulnerável

 Especialista explica por que os efeitos dessas medicações não atingem diretamente os dentes, mas alteram mecanismos naturais de proteção da boca e reforçam a importância do acompanhamento odontológico


O uso de medicamentos à base de agonistas do receptor GLP-1, indicados principalmente para o tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade, mas conhecidos popularmente como “canetas emagrecedoras”, tem ampliado uma discussão que vai além do controle metabólico e da perda de peso: os impactos indiretos na saúde bucal. Segundo a professora da Pós-graduação de Odontologia do Senac São Paulo, Maristela Maia Lobo, embora esses medicamentos não atuem diretamente sobre os dentes, eles podem desencadear alterações no organismo que afetam o equilíbrio da cavidade oral. 

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o diabetes é uma das principais doenças crônicas do mundo e está associado a uma série de complicações sistêmicas, incluindo impactos na saúde bucal. Nesse contexto, pacientes com a condição já apresentam maior predisposição a problemas como doenças gengivais e alterações na produção de saliva, o que torna ainda mais relevante o acompanhamento odontológico durante qualquer mudança no tratamento metabólico. 

No caso dos medicamentos à base de GLP-1, especialistas explicam que efeitos como redução do fluxo salivar, episódios de refluxo, náuseas e vômitos podem comprometer mecanismos naturais de proteção da boca. Na prática, isso pode aumentar o risco de cáries, erosão do esmalte dentário, sensibilidade e inflamações gengivais. Embora o fenômeno tenha ganhado popularidade nas redes sociais sob o nome de “Boca de Ozempic”, o termo não corresponde a um diagnóstico clínico reconhecido. 

“Não existe uma condição clínica chamada ‘Boca de Ozempic’. O que observamos é que essas medicações podem desencadear alterações que reduzem o fluxo salivar (xerostomia) e favorecem sintomas como alterações no paladar e halitose (o mau hálito). Além disso, episódios de refluxo e vômito expõem o esmalte dentário ao ácido do estômago, aumentando o risco de erosão. Ou seja, os efeitos não acontecem porque o medicamento agride diretamente os dentes, mas pelas mudanças fisiológicas, metabólicas e comportamentais que ele provoca no organismo”, explica Maristela. 

A especialista destaca que a saliva tem papel essencial na proteção da saúde bucal, atuando na neutralização de ácidos, na remineralização do esmalte e no controle da microbiota oral. Quando esse sistema é afetado, a boca fica mais suscetível ao desenvolvimento de doenças. 

Em pessoas com diabetes, esse cenário exige atenção redobrada. Isso porque a própria condição já está associada a maior risco de infecções bucais e dificuldade de cicatrização, o que reforça a importância do acompanhamento odontológico regular, além do controle glicêmico e da integração entre diferentes áreas da saúde. 

Entre os cuidados recomendados estão a hidratação frequente, manutenção de higiene bucal adequada e atenção especial após episódios de refluxo ou vômito. Nesses casos, a orientação é evitar a escovação imediata, realizar enxágue com água e aguardar cerca de 30 minutos antes da escovação, reduzindo o risco de desgaste do esmalte dentário.

 

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