Há um número que
assombra o Brasil silenciosamente: 83,3 milhões. É a quantidade de brasileiros
com o nome inscrito em algum cadastro de inadimplência em abril de 2026,
segundo levantamento divulgado pela Serasa Experian por ocasião dos
dez anos do Mapa da Inadimplência. Em uma década, esse contingente cresceu 38,1%, e o valor total das
dívidas acumuladas saltou 176% no mesmo período, já descontada a inflação. Não
se trata mais de um fenômeno conjuntural. Trata-se de uma ferida estrutural na
vida financeira das famílias brasileiras, e entender quem mede, quem registra e
quem pode ajudar a saná-la é uma questão tão urgente quanto estratégica.
Os birôs de
crédito (ou bureaus de crédito, na terminologia do mercado) estão no centro
dessa equação. Companhias como Serasa Experian, Boa Vista (administradora do
SCPC), SPC Brasil e Quod são entidades autorizadas a coletar, organizar e
fornecer dados financeiros e comportamentais de pessoas físicas e jurídicas. Na
prática, quando alguém solicita um cartão de crédito, um financiamento ou mesmo
um simples crediário, é a essas empresas que os credores recorrem para
consultar o histórico do solicitante, e é o famoso score resultante
dessa consulta que vai determinar se o crédito será concedido, a que taxa e em
que prazo.
Para milhões de
brasileiros, o Serasa não é apenas um banco de dados: é um julgamento. E o medo
de ter o “nome sujo na praça” molda comportamentos, limita sonhos e,
paradoxalmente, aprofunda o próprio ciclo de endividamento.
O retrato atual é
grave. Segundo uma pesquisa da Confederação Nacional do Comércio de Bens,
Serviços e Turismo (CNC), o percentual de famílias endividadas atingiu 78,9% em
dezembro de 2025 – é o maior índice para o mês em toda a série histórica,
iniciada em 2010. O cartão de crédito consolidou-se como o principal vilão: responsável
por 85,1% do total de famílias endividadas, ele carrega taxas que giram em
torno de 90,1% ao ano. O Banco Central, por sua vez, registra que o endividamento das famílias excluindo crédito
habitacional atingiu 31,22% da Renda Nacional Disponível Bruta em dezembro de
2025 – a 0,32 ponto percentual do teto histórico absoluto da série. Quase
metade dos inadimplentes (48%) tem renda de até um salário-mínimo. O problema
não é marginal: ele é majoritário.
Diante desse
cenário, a dinâmica dos birôs de crédito assume uma relevância que vai muito
além da simples proteção ao mercado. A Associação Nacional dos Bureaus de
Crédito (ANBC) revelou que 83% dos consumidores negativados em maio de
2025 já haviam enfrentado a mesma situação nos doze meses anteriores, dos quais
63% receberam uma nova negativação e 20% haviam regularizado a situação, mas
voltaram a dever.
É a face mais
cruel da armadilha: quem mais precisa de crédito acessível é quem menos
consegue obtê-lo, e quem tenta renegociar sua dívida muitas vezes se vê diante
de condições proibitivas que tornam o recomeço ainda mais difícil. Quebrar esse
ciclo exige mais do que boa vontade, demandando dados melhores e tecnologia
mais sofisticada.
É precisamente
nesse ponto que o Open Finance e a inovação tecnológica entram como variáveis
transformadoras. O Brasil consolidou-se como o maior ecossistema do gênero do mundo: em fevereiro de 2026,
ao completar cinco anos de operação, o sistema já reunia mais de 100 milhões de
clientes ou contas conectadas e 154 milhões de consentimentos ativos, com
crescimento de 143% na quantidade de consentimentos únicos entre 2024 e 2025. O
que isso representa, concretamente, é a possibilidade de uma visão 360 graus do
perfil financeiro do consumidor, indo muito além do histórico negativo
registrado nos birôs tradicionais.
Com o
compartilhamento consentido de dados, modelos de Inteligência Artificial (IA) e
machine
learning conseguem identificar padrões comportamentais, prever
capacidade de pagamento e calibrar ofertas de crédito com uma precisão sem
precedentes. Para quem está negativado, isso abre uma janela: o sistema passa a
enxergar não apenas o que a pessoa deve, mas o que ela é capaz de honrar.
Já a portabilidade
de crédito, iniciada em 2026 via Open Finance, promete ampliar a concorrência
entre instituições e permitir a migração automática de dívidas para condições
mais vantajosas. Estamos falando de uma revolução silenciosa com impacto real
no bolso do consumidor endividado.
O Cadastro
Positivo é outro pilar dessa transformação. Instituído pela Lei nº
12.414/2011 e com inclusão automática desde 2019, ele reúne o histórico de
pagamentos (quitados, em andamento e em atraso) de pessoas físicas e jurídicas.
Sua lógica é simples e poderosa: em vez de apenas punir quem deve, o sistema
também recompensa quem paga. Segundo a Quod - birô formado pelos maiores bancos
do país -, o Cadastro Positivo tem potencial de incluir entre 20 e 30 milhões
de brasileiros no mercado de crédito, ao permitir a análise de consumidores
não-bancarizados que, apesar de não terem renda comprovada formalmente, honram
contas de água, energia, telefone e gás.
O resultado
esperado é duplo: mais inclusão financeira e juros menores para os bons
pagadores, uma vez que a precificação do risco se torna mais detalhada e justa.
Em um país onde quase metade dos inadimplentes tem renda de até um
salário-mínimo, essa diferenciação não é apenas técnica: é humanamente
relevante.
No plano das
políticas públicas, o governo federal lançou, em maio de 2026, o Novo Desenrola
Brasil, dando continuidade ao programa iniciado em 2023. O novo programa atende
pessoas com renda mensal de até cinco salários-mínimos (R$ 8.105), abrangendo
dívidas de cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal contraídas até
31 de janeiro de 2026, com atrasos entre 90 dias e dois anos. Os descontos são
escalonados conforme o tempo de inadimplência: para o rotativo do cartão e
cheque especial, vão de 40% para atrasos de 91 a 120 dias a até 90% para
débitos com mais de um ano. Os juros das novas condições foram limitados a
1,99% ao mês, e o programa permite o uso de até 20% do saldo do FGTS para
abatimento das dívidas.
Em menos de duas
semanas de operação, cerca de 200 mil pedidos de renegociação já haviam sido
enviados aos bancos participantes, com quase R$ 1 bilhão em débitos
renegociados. A primeira edição do programa, realizada entre 2023 e 2024, havia
permitido que cerca de 15 milhões de pessoas renegociassem mais de R$ 53
bilhões em dívidas. Iniciativas como essa, quando combinadas com a
infraestrutura tecnológica dos birôs e do Open Finance, ganham escala e
consistência que não seriam possíveis em um ecossistema analógico.
Por trás dessa
transformação existe uma infraestrutura tecnológica robusta. Processamento
massivo de dados, integração entre plataformas financeiras, automação de compliance,
segurança cibernética e modelos avançados de analytics tornaram-se elementos
centrais para o funcionamento dos birôs modernos.
Não se trata
apenas de armazenar informações, mas de transformar dados dispersos em
inteligência acionável para bancos, fintechs, varejistas e consumidores. Em um
mercado financeiro cada vez mais digital, a qualidade da tecnologia empregada
passa a ser determinante tanto para reduzir riscos quanto para ampliar inclusão
financeira.
Fica claro,
portanto, que o Brasil vive um momento de inflexão. De um lado, um
endividamento que bateu recordes históricos e uma inadimplência que marca, de
forma desproporcional, os mais vulneráveis. De outro, um ecossistema
tecnológico sem paralelo no mundo, com Open Finance maduro, birôs de crédito
evoluindo para além da negativação e plataformas de inteligência de dados capazes
de transformar informação em inclusão.
Para as organizações
de tecnologia que operam nesse universo, o papel não é apenas o de fornecer
ferramentas. É o de ajudar a construir uma infraestrutura de confiança, em que
dados bem tratados se traduzam em oportunidades reais para quem mais precisa.
O “medo do Serasa”
é legítimo e compreensível, porém ele pode, e deve, dar lugar a um sistema em
que o histórico financeiro de uma pessoa seja um ativo, e não apenas um
registro de suas dificuldades.
Nenhum comentário:
Postar um comentário