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terça-feira, 23 de junho de 2026

Nome sujo, dados limpos: Como os birôs de crédito e a tecnologia podem reescrever o futuro financeiro do Brasil


Há um número que assombra o Brasil silenciosamente: 83,3 milhões. É a quantidade de brasileiros com o nome inscrito em algum cadastro de inadimplência em abril de 2026, segundo levantamento divulgado pela Serasa Experian por ocasião dos dez anos do Mapa da Inadimplência. Em uma década, esse contingente cresceu 38,1%, e o valor total das dívidas acumuladas saltou 176% no mesmo período, já descontada a inflação. Não se trata mais de um fenômeno conjuntural. Trata-se de uma ferida estrutural na vida financeira das famílias brasileiras, e entender quem mede, quem registra e quem pode ajudar a saná-la é uma questão tão urgente quanto estratégica.

 

Os birôs de crédito (ou bureaus de crédito, na terminologia do mercado) estão no centro dessa equação. Companhias como Serasa Experian, Boa Vista (administradora do SCPC), SPC Brasil e Quod são entidades autorizadas a coletar, organizar e fornecer dados financeiros e comportamentais de pessoas físicas e jurídicas. Na prática, quando alguém solicita um cartão de crédito, um financiamento ou mesmo um simples crediário, é a essas empresas que os credores recorrem para consultar o histórico do solicitante, e é o famoso score resultante dessa consulta que vai determinar se o crédito será concedido, a que taxa e em que prazo.

 

Para milhões de brasileiros, o Serasa não é apenas um banco de dados: é um julgamento. E o medo de ter o “nome sujo na praça” molda comportamentos, limita sonhos e, paradoxalmente, aprofunda o próprio ciclo de endividamento.

 

O retrato atual é grave. Segundo uma pesquisa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o percentual de famílias endividadas atingiu 78,9% em dezembro de 2025 – é o maior índice para o mês em toda a série histórica, iniciada em 2010. O cartão de crédito consolidou-se como o principal vilão: responsável por 85,1% do total de famílias endividadas, ele carrega taxas que giram em torno de 90,1% ao ano. O Banco Central, por sua vez, registra que o endividamento das famílias excluindo crédito habitacional atingiu 31,22% da Renda Nacional Disponível Bruta em dezembro de 2025 – a 0,32 ponto percentual do teto histórico absoluto da série. Quase metade dos inadimplentes (48%) tem renda de até um salário-mínimo. O problema não é marginal: ele é majoritário.

 

Diante desse cenário, a dinâmica dos birôs de crédito assume uma relevância que vai muito além da simples proteção ao mercado. A Associação Nacional dos Bureaus de Crédito (ANBC) revelou que 83% dos consumidores negativados em maio de 2025 já haviam enfrentado a mesma situação nos doze meses anteriores, dos quais 63% receberam uma nova negativação e 20% haviam regularizado a situação, mas voltaram a dever.

 

É a face mais cruel da armadilha: quem mais precisa de crédito acessível é quem menos consegue obtê-lo, e quem tenta renegociar sua dívida muitas vezes se vê diante de condições proibitivas que tornam o recomeço ainda mais difícil. Quebrar esse ciclo exige mais do que boa vontade, demandando dados melhores e tecnologia mais sofisticada.

 

É precisamente nesse ponto que o Open Finance e a inovação tecnológica entram como variáveis transformadoras. O Brasil consolidou-se como o maior ecossistema do gênero do mundo: em fevereiro de 2026, ao completar cinco anos de operação, o sistema já reunia mais de 100 milhões de clientes ou contas conectadas e 154 milhões de consentimentos ativos, com crescimento de 143% na quantidade de consentimentos únicos entre 2024 e 2025. O que isso representa, concretamente, é a possibilidade de uma visão 360 graus do perfil financeiro do consumidor, indo muito além do histórico negativo registrado nos birôs tradicionais.

 

Com o compartilhamento consentido de dados, modelos de Inteligência Artificial (IA) e machine learning conseguem identificar padrões comportamentais, prever capacidade de pagamento e calibrar ofertas de crédito com uma precisão sem precedentes. Para quem está negativado, isso abre uma janela: o sistema passa a enxergar não apenas o que a pessoa deve, mas o que ela é capaz de honrar.

 

Já a portabilidade de crédito, iniciada em 2026 via Open Finance, promete ampliar a concorrência entre instituições e permitir a migração automática de dívidas para condições mais vantajosas. Estamos falando de uma revolução silenciosa com impacto real no bolso do consumidor endividado.

 

O Cadastro Positivo é outro pilar dessa transformação. Instituído pela Lei nº 12.414/2011 e com inclusão automática desde 2019, ele reúne o histórico de pagamentos (quitados, em andamento e em atraso) de pessoas físicas e jurídicas. Sua lógica é simples e poderosa: em vez de apenas punir quem deve, o sistema também recompensa quem paga. Segundo a Quod - birô formado pelos maiores bancos do país -, o Cadastro Positivo tem potencial de incluir entre 20 e 30 milhões de brasileiros no mercado de crédito, ao permitir a análise de consumidores não-bancarizados que, apesar de não terem renda comprovada formalmente, honram contas de água, energia, telefone e gás.

 

O resultado esperado é duplo: mais inclusão financeira e juros menores para os bons pagadores, uma vez que a precificação do risco se torna mais detalhada e justa. Em um país onde quase metade dos inadimplentes tem renda de até um salário-mínimo, essa diferenciação não é apenas técnica: é humanamente relevante.

 

No plano das políticas públicas, o governo federal lançou, em maio de 2026, o Novo Desenrola Brasil, dando continuidade ao programa iniciado em 2023. O novo programa atende pessoas com renda mensal de até cinco salários-mínimos (R$ 8.105), abrangendo dívidas de cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal contraídas até 31 de janeiro de 2026, com atrasos entre 90 dias e dois anos. Os descontos são escalonados conforme o tempo de inadimplência: para o rotativo do cartão e cheque especial, vão de 40% para atrasos de 91 a 120 dias a até 90% para débitos com mais de um ano. Os juros das novas condições foram limitados a 1,99% ao mês, e o programa permite o uso de até 20% do saldo do FGTS para abatimento das dívidas.

 

Em menos de duas semanas de operação, cerca de 200 mil pedidos de renegociação já haviam sido enviados aos bancos participantes, com quase R$ 1 bilhão em débitos renegociados. A primeira edição do programa, realizada entre 2023 e 2024, havia permitido que cerca de 15 milhões de pessoas renegociassem mais de R$ 53 bilhões em dívidas. Iniciativas como essa, quando combinadas com a infraestrutura tecnológica dos birôs e do Open Finance, ganham escala e consistência que não seriam possíveis em um ecossistema analógico.

 

Por trás dessa transformação existe uma infraestrutura tecnológica robusta. Processamento massivo de dados, integração entre plataformas financeiras, automação de compliance, segurança cibernética e modelos avançados de analytics tornaram-se elementos centrais para o funcionamento dos birôs modernos.

 

Não se trata apenas de armazenar informações, mas de transformar dados dispersos em inteligência acionável para bancos, fintechs, varejistas e consumidores. Em um mercado financeiro cada vez mais digital, a qualidade da tecnologia empregada passa a ser determinante tanto para reduzir riscos quanto para ampliar inclusão financeira.

 

Fica claro, portanto, que o Brasil vive um momento de inflexão. De um lado, um endividamento que bateu recordes históricos e uma inadimplência que marca, de forma desproporcional, os mais vulneráveis. De outro, um ecossistema tecnológico sem paralelo no mundo, com Open Finance maduro, birôs de crédito evoluindo para além da negativação e plataformas de inteligência de dados capazes de transformar informação em inclusão.

 

Para as organizações de tecnologia que operam nesse universo, o papel não é apenas o de fornecer ferramentas. É o de ajudar a construir uma infraestrutura de confiança, em que dados bem tratados se traduzam em oportunidades reais para quem mais precisa.

 

O “medo do Serasa” é legítimo e compreensível, porém ele pode, e deve, dar lugar a um sistema em que o histórico financeiro de uma pessoa seja um ativo, e não apenas um registro de suas dificuldades.

 

 Sergio Favarin - Business Vice President da GFT Technologies no Brasil

 

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