Pular refeições para emagrecer parece uma estratégia simples. Mas, para algumas pessoas com enxaqueca, ficar muitas horas sem se alimentar pode ser justamente o que falta para desencadear uma crise.
A enxaqueca é uma doença neurológica caracterizada por um
cérebro mais sensível a diferentes estímulos internos e externos. Alterações no
sono, estresse, desidratação, oscilações hormonais e mudanças na alimentação
podem funcionar como gatilhos em indivíduos predispostos. Entre eles, o jejum
prolongado é um dos mais frequentemente relatados pelos pacientes. Segundo a
neurologista especialista em cefaleias Dra. Helena Providelli, o problema não
está apenas na comida em si, mas na dificuldade que o cérebro migranoso tem de
lidar com períodos prolongados de privação energética.
"Muitas pessoas acreditam que a crise acontece apenas
porque a glicose caiu. Na prática, a situação é mais complexa. O cérebro de
quem tem enxaqueca costuma ser menos tolerante a mudanças bruscas de rotina e
ao estresse metabólico provocado por longos períodos sem alimentação."
Isso não significa que toda pessoa com enxaqueca precise
comer de três em três horas ou que qualquer estratégia de jejum esteja
automaticamente proibida. A tolerância varia de indivíduo para indivíduo.
Enquanto algumas pessoas conseguem permanecer várias horas sem se alimentar sem
consequências, outras percebem piora importante das dores de cabeça,
especialmente quando o jejum se associa a outros fatores como noites mal
dormidas, desidratação ou períodos de maior estresse.
O que costuma preocupar os especialistas é a adoção de
dietas muito restritivas sem orientação profissional. Não é raro que pacientes
procurem atendimento relatando aumento da frequência das crises após iniciarem
protocolos de emagrecimento que exigem longos períodos sem alimentação.
Outro ponto importante é que o tratamento da enxaqueca não
deve se basear na busca obsessiva por gatilhos. Embora seja útil reconhecer
fatores que favorecem as crises, o objetivo principal é tornar o cérebro mais
estável e menos vulnerável às oscilações do dia a dia.
"Nós não queremos que o paciente viva com medo de
sentir fome, de dormir um pouco menos ou de participar de um evento social. O
foco do tratamento é reduzir essa vulnerabilidade cerebral para que a pessoa
volte a ter liberdade e qualidade de vida."
Para quem deseja emagrecer e convive com enxaqueca, a melhor
estratégia costuma ser uma abordagem individualizada, construída com
acompanhamento médico e nutricional. Em muitos casos, é possível alcançar perda
de peso sem aumentar a frequência das crises. Alimentação equilibrada,
hidratação adequada, sono regular, atividade física e tratamento medicamentoso
quando indicado continuam sendo pilares fundamentais para o controle da doença.
Afinal, a enxaqueca não acontece porque a pessoa ficou
algumas horas sem comer. Ela acontece porque existe um cérebro vulnerável por
trás da dor. E quanto melhor cuidamos desse cérebro, menor tende a ser o
impacto dos gatilhos na vida cotidiana.
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