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terça-feira, 23 de junho de 2026

O Brasil está velho e isso não deveria ser ruim


O Brasil envelheceu e isso é um fato. A questão é que ainda nos comportamos como se não estivesse. Embora a longevidade seja celebrada como uma conquista da Medicina e das condições de vida, muitos setores da sociedade ainda demonstram dificuldade em conviver com o envelhecimento de forma natural, inclusiva e respeitosa.

 

Os números ajudam a dimensionar essa transformação. Segundo o Censo Demográfico de 2022, o País já possui mais de 32 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, o equivalente a 15,8% da população.

 

Nas últimas semanas, uma rua residencial de São Paulo foi foco de discussão envolvendo instituições de longa permanência para idosos (ILPIs) e moradores. De um lado, argumentos sobre zoneamento urbano e o possível mal-estar que essas instituições, e seus residentes, causavam aos vizinhos. De outro, preocupações relacionadas ao cuidado, à dignidade e ao lugar que reservamos às pessoas idosas em nossa sociedade.

 

Independentemente dos aspectos jurídicos que cercam o caso, o episódio nos convida a uma reflexão mais profunda: o Brasil está preparado para encarar o envelhecimento da população?

 

Viver mais e melhor é uma grande vitória. O problema é que nem sempre estamos preparados para as consequências dessa conquista.

 

Quem cuidará dos idosos mais dependentes? Como apoiar famílias que enfrentam o desafio do cuidado? Que tipo de cidade queremos construir para uma população que envelhece? Qual será o papel das instituições, dos profissionais de Saúde, da comunidade e do poder público nesse cenário? 

Essas são perguntas que precisam ocupar espaço no debate público. 

Não por acaso, o Estatuto da Pessoa Idosa reconhece que envelhecer com dignidade depende da participação de toda a sociedade. A lei atribui a todos a responsabilidade compartilhada de garantir não apenas saúde e proteção, mas também convivência familiar e comunitária (Art. 3º).

 

O Estatuto ainda veda qualquer forma de discriminação, negligência ou violência contra a pessoa idosa (Art. 4º) e determina que todos têm o dever de protegê-la de situações humilhantes, constrangedoras ou desumanas (Art. 10, §3º).

 

Em outras palavras, a legislação brasileira reconhece que o cuidado não se resume à assistência, pelo contrário, ele envolve pertencimento, respeito e o direito de o idoso continuar ocupando seu lugar na vida em comunidade.

 

Quando refletimos sobre o espaço das pessoas idosas em nossas cidades não estamos discutindo apenas infraestrutura ou serviços, mas a convivência e o valor que atribuímos à experiência humana em todas as fases da vida.

 

Independentemente dos desdobramentos jurídicos, o caso do bairro paulistano revelou percepções e discursos que merecem reflexão à luz dos princípios estabelecidos pelo Estatuto da Pessoa Idosa.

 

A violência contra a pessoa idosa não se manifesta apenas por agressões físicas. Ela também está presente quando há humilhação, desrespeito, discriminação ou atitudes que reduzem a dignidade e a autonomia de quem envelhece. Muitas vezes, manifesta-se de forma silenciosa, por meio da exclusão social, da invisibilidade e da ideia equivocada de que a velhice representa incômodo para a sociedade.

 

No Dia Mundial de Conscientização da Violência Contra a Pessoa Idosa, celebrado em 15 de junho, vale ampliar nossa compreensão sobre o tema. Afinal, nem toda violência deixa marcas visíveis.

 

Às vezes, ela se manifesta em atitudes que reforçam a ideia de que a velhice é problema, incômodo ou algo que deveria permanecer distante dos nossos olhos. Outras vezes, surge na dificuldade de enxergar a pessoa por trás da fragilidade, reduzindo sua existência a um estereótipo ou a uma condição de saúde.

 

Talvez o maior desafio da nossa sociedade seja justamente construir uma cultura do cuidado. Historicamente, o cuidado dos idosos foi atribuído às famílias, porém, elas mudaram. Vivemos mais, temos menos filhos, as mulheres estão cada vez mais inseridas no mercado de trabalho e os arranjos familiares se tornaram mais diversos. Ao mesmo tempo, cresce o número de idosos que vivem com doenças crônicas, limitações funcionais ou algum grau de dependência.

 

Nesse contexto, o cuidado deixa de ser responsabilidade individual e passa pela responsabilidade coletiva. É aqui que entra o conceito de ecossistema do cuidado. Cuidar de uma pessoa idosa envolve familiares, cuidadores profissionais, médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, psicólogos, assistentes sociais, hospitais, serviços de atenção básica e instituições especializadas. Nenhum desses atores consegue responder sozinho aos desafios da longevidade.

 

Em uma sociedade que envelhece rapidamente e na qual as famílias estão menores e mais sobrecarregadas, a demanda por cuidados de longa duração tende a crescer nas próximas décadas. As ILPIs fazem parte desse ecossistema.

 

Durante muito tempo, esses espaços foram associados exclusivamente ao abandono familiar. Hoje, essa visão não corresponde à realidade de milhares de famílias brasileiras. Em muitos casos, são as ILPIs que oferecem assistência especializada, segurança, estímulo à convivência, acompanhamento multiprofissional e suporte contínuo para idosos que necessitam de cuidados mais complexos. 

Isso não significa substituir a família, mas ampliar sua capacidade de cuidar. Não significa assumir a responsabilidade que é do Estado, mas ser parte do sistema que cuida e inclui a pessoa idosa. 

Países que avançaram na construção de políticas para o envelhecimento compreenderam que a convivência entre gerações fortalece a sociedade. Em diversas cidades da Europa, programas aproximam idosos e estudantes universitários, promovem moradias compartilhadas e incentivam espaços de encontro entre crianças, adultos e idosos. A lógica é simples: quanto mais integradas as gerações estiverem, maior será a compreensão mútua e menor será o preconceito.

 

O Brasil ainda está construindo esse caminho. O envelhecimento populacional não deve ser visto como ameaça, mas como oportunidade para repensarmos nossas cidades, nossas políticas públicas e nossas relações humanas. Afinal, falar sobre velhice é falar sobre o futuro de todos nós.

 

A discussão que hoje acontece em uma rua de São Paulo não é apenas sobre uma instituição, um bairro ou uma licença de funcionamento. Ela simboliza um debate muito maior sobre a sociedade que estamos construindo.

 

Mais de duas décadas após a criação do Estatuto da Pessoa Idosa, o desafio brasileiro já não é apenas garantir direitos no papel. É transformá-los em cultura efetiva de cuidado, inclusão e convivência.

 

Uma sociedade preparada para envelhecer não é aquela que apenas aumenta a expectativa de vida, mas a que reconhece o valor da experiência, acolhe a fragilidade quando ela surge e garante que ninguém seja excluído por causa da idade. 


A forma como tratamos nossos idosos hoje revela, em grande medida, a sociedade que desejamos construir para nós mesmos amanhã.

 

Felipe Vecchi - médico geriatra e diretor médico e operacional da BSL Saúde. Graduado pela Faculdade de Medicina de Jundiaí (SP), possui residência em Clínica Médica pela Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (SP) e especialização em Geriatria pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atua na coordenação de modelos integrados de cuidado, reabilitação e assistência de longa permanência para pessoas idosas, com foco em autonomia, qualidade de vida e apoio às famílias cuidadoras.



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