O Brasil envelheceu e isso é um fato. A
questão é que ainda nos comportamos como se não estivesse. Embora a
longevidade seja celebrada como uma conquista da Medicina e das condições
de vida, muitos setores da sociedade ainda demonstram dificuldade em conviver
com o envelhecimento de forma natural, inclusiva e respeitosa.
Os números ajudam a dimensionar essa
transformação. Segundo o Censo Demográfico de 2022, o País já possui mais de 32
milhões de pessoas com 60 anos ou mais, o equivalente a 15,8% da população.
Nas últimas semanas, uma rua residencial de
São Paulo foi foco de discussão envolvendo instituições de longa permanência
para idosos (ILPIs) e moradores. De um lado, argumentos sobre zoneamento urbano
e o possível mal-estar que essas instituições, e seus residentes, causavam aos
vizinhos. De outro, preocupações relacionadas ao cuidado, à dignidade e ao
lugar que reservamos às pessoas idosas em nossa sociedade.
Independentemente dos aspectos jurídicos
que cercam o caso, o episódio nos convida a uma reflexão mais profunda: o
Brasil está preparado para encarar o envelhecimento da população?
Viver mais e melhor é uma grande vitória. O
problema é que nem sempre estamos preparados para as consequências dessa
conquista.
Quem cuidará dos idosos mais dependentes? Como apoiar famílias que enfrentam o desafio do cuidado? Que tipo de cidade queremos construir para uma população que envelhece? Qual será o papel das instituições, dos profissionais de Saúde, da comunidade e do poder público nesse cenário?
Essas são perguntas que precisam ocupar espaço no debate público.
Não por acaso, o Estatuto da Pessoa Idosa
reconhece que envelhecer com dignidade depende da participação de toda a
sociedade. A lei atribui a todos a responsabilidade compartilhada de garantir
não apenas saúde e proteção, mas também convivência familiar e comunitária
(Art. 3º).
O Estatuto ainda veda qualquer forma de
discriminação, negligência ou violência contra a pessoa idosa (Art. 4º) e
determina que todos têm o dever de protegê-la de situações humilhantes,
constrangedoras ou desumanas (Art. 10, §3º).
Em outras palavras, a legislação brasileira
reconhece que o cuidado não se resume à assistência, pelo contrário, ele
envolve pertencimento, respeito e o direito de o idoso continuar ocupando seu
lugar na vida em comunidade.
Quando refletimos sobre o espaço das
pessoas idosas em nossas cidades não estamos discutindo apenas infraestrutura
ou serviços, mas a convivência e o valor que atribuímos à experiência humana em
todas as fases da vida.
Independentemente dos desdobramentos
jurídicos, o caso do bairro paulistano revelou percepções e discursos que
merecem reflexão à luz dos princípios estabelecidos pelo Estatuto da Pessoa
Idosa.
A violência contra a pessoa idosa não se
manifesta apenas por agressões físicas. Ela também está presente quando há
humilhação, desrespeito, discriminação ou atitudes que reduzem a dignidade e a
autonomia de quem envelhece. Muitas vezes, manifesta-se de forma silenciosa,
por meio da exclusão social, da invisibilidade e da ideia equivocada de que a
velhice representa incômodo para a sociedade.
No Dia Mundial de Conscientização da
Violência Contra a Pessoa Idosa, celebrado em 15 de junho, vale ampliar nossa
compreensão sobre o tema. Afinal, nem toda violência deixa marcas visíveis.
Às vezes, ela se manifesta em atitudes que
reforçam a ideia de que a velhice é problema, incômodo ou algo que deveria
permanecer distante dos nossos olhos. Outras vezes, surge na dificuldade de
enxergar a pessoa por trás da fragilidade, reduzindo sua existência a um
estereótipo ou a uma condição de saúde.
Talvez o maior desafio da nossa sociedade
seja justamente construir uma cultura do cuidado. Historicamente, o cuidado dos
idosos foi atribuído às famílias, porém, elas mudaram. Vivemos mais, temos
menos filhos, as mulheres estão cada vez mais inseridas no mercado de trabalho
e os arranjos familiares se tornaram mais diversos. Ao mesmo tempo, cresce o
número de idosos que vivem com doenças crônicas, limitações funcionais ou algum
grau de dependência.
Nesse contexto, o cuidado deixa de ser
responsabilidade individual e passa pela responsabilidade coletiva. É aqui que
entra o conceito de ecossistema do cuidado. Cuidar de uma pessoa idosa envolve
familiares, cuidadores profissionais, médicos, enfermeiros, fisioterapeutas,
terapeutas ocupacionais, psicólogos, assistentes sociais, hospitais, serviços
de atenção básica e instituições especializadas. Nenhum desses atores consegue
responder sozinho aos desafios da longevidade.
Em uma sociedade que envelhece rapidamente
e na qual as famílias estão menores e mais sobrecarregadas, a demanda por
cuidados de longa duração tende a crescer nas próximas décadas. As ILPIs fazem
parte desse ecossistema.
Durante muito tempo, esses espaços foram associados exclusivamente ao abandono familiar. Hoje, essa visão não corresponde à realidade de milhares de famílias brasileiras. Em muitos casos, são as ILPIs que oferecem assistência especializada, segurança, estímulo à convivência, acompanhamento multiprofissional e suporte contínuo para idosos que necessitam de cuidados mais complexos.
Isso não significa substituir a família, mas ampliar sua capacidade de cuidar. Não significa assumir a responsabilidade que é do Estado, mas ser parte do sistema que cuida e inclui a pessoa idosa.
Países que avançaram na construção de
políticas para o envelhecimento compreenderam que a convivência entre gerações
fortalece a sociedade. Em diversas cidades da Europa, programas aproximam
idosos e estudantes universitários, promovem moradias compartilhadas e
incentivam espaços de encontro entre crianças, adultos e idosos. A lógica é
simples: quanto mais integradas as gerações estiverem, maior será a compreensão
mútua e menor será o preconceito.
O Brasil ainda está construindo esse
caminho. O envelhecimento populacional não deve ser visto como ameaça, mas como
oportunidade para repensarmos nossas cidades, nossas políticas públicas e
nossas relações humanas. Afinal, falar sobre velhice é falar sobre o futuro de
todos nós.
A discussão que hoje acontece em uma rua de
São Paulo não é apenas sobre uma instituição, um bairro ou uma licença de
funcionamento. Ela simboliza um debate muito maior sobre a sociedade que estamos
construindo.
Mais de duas décadas após a criação do
Estatuto da Pessoa Idosa, o desafio brasileiro já não é apenas garantir
direitos no papel. É transformá-los em cultura efetiva de cuidado, inclusão e
convivência.
Uma sociedade preparada para envelhecer não é aquela que apenas aumenta a expectativa de vida, mas a que reconhece o valor da experiência, acolhe a fragilidade quando ela surge e garante que ninguém seja excluído por causa da idade.
A forma como tratamos nossos idosos hoje revela, em grande medida, a sociedade que desejamos construir para nós mesmos amanhã.
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