Se você já foi a
uma loja com o filho adolescente e ele sabia mais sobre o produto do que o
vendedor, você não está imaginando. Isso é real, é recorrente e tem um nome: é
o comportamento padrão de uma geração que chegou ao consumo de um jeito
completamente diferente de todas as anteriores.
Eles se chamam
Zalfa — jovens na transição entre a Geração Z e a Geração Alpha, com idades
entre 10 e 16 anos. Ainda estão no colégio. Ainda dependem financeiramente dos
pais. Mas já influenciam, de forma direta e consistente, as decisões de compra
em casa. E a maioria dos pais ainda não sabe exatamente o que fazer com essa
informação.
Gerações
anteriores de adolescentes chegavam ao consumo movidas principalmente pelo
desejo: quero aquilo porque está em alta, porque fulano tem, porque vi numa
revista. Os Zalfa chegam com pesquisa feita. Eles já leram as resenhas,
conferiram o Reclame Aqui, assistiram aos TikToks de quem usa o produto há seis
meses e, muitas vezes, já sabem se aquela peça está disponível no estoque da
loja antes de colocar o pé na rua.
Isso não é
capricho. É o resultado de crescerem num ambiente de informação irrestrita e
constante. E tem uma consequência direta para a família: essa criança não é
mais apenas consumidora em potencial. Ela é, em muitos sentidos, a curadora de
consumo da casa.
Eu mesma vivo isso
com a minha mãe. Quando ela viajou para a Coreia, me ligou para perguntar quais
produtos de skincare valiam a pena, porque sabe que eu acompanho esse universo
no TikTok com uma atenção que ela não tem nem tempo de ter. Ela comprou com
base na minha indicação. Chegou em casa sem saber exatamente para que servia um
dos produtos. Mas confiou.
Essa dinâmica se
repete em famílias com filhos Zalfa em todo o Brasil. E ela vai muito além de
skincare: interfere em escolhas de viagem, de restaurante, de marca de roupa,
de onde fazer as compras do mês. Às vezes de forma explícita, o filho apresenta
uma pesquisa comparativa antes de pedir algo. Às vezes de forma silenciosa, com
a pressão constante de valores que entram em casa por meio de uma geração mais
informada do que os pais sobre o que determinada marca representa.
E quando o filho
pede para parar de comprar numa marca? Um dos momentos mais desafiadores para
pais de Zalfa é quando o filho chega com uma informação reputacional do tipo:
"essa marca usa trabalho análogo à escravidão", "aquela empresa
financiou uma causa com a qual não concordo", "vi que esse produto
foi reformulado e ficou pior". E pede que a família mude o comportamento
de consumo.
Como reagir?
Primeiro, vale entender que essa não é uma birra e sim um exercício de
cidadania pelo consumo, algo que essa geração pratica com naturalidade. A Gen Z
e os Zalfa cresceram entendendo que comprar é uma forma de votar: você sustenta
o que você consome. Ignorar essa lógica é perder uma oportunidade real de
conversa.
Mas ceder automaticamente também não é a resposta. O que funciona melhor é tratar o assunto com a mesma seriedade que o filho trouxe: pedir as fontes, pesquisar juntos, avaliar a credibilidade da informação. Isso transforma uma potencial disputa em educação financeira e senso crítico compartilhado que é exatamente o que essa geração precisa desenvolver junto com a autonomia crescente.
Há uma tendência dos pais interpretarem a influência dos filhos Zalfa como
inversão de autoridade dentro da família, mas existe outro ângulo, mais
generoso e mais preciso na minha opinião: esses filhos estão oferecendo algo
importante para os dias de hoje, um filtro de consumo ativo, atualizado e
criterioso.
Uma mãe millennial ou da Geração X que está criando uma filha Zalfa tem à
disposição, dentro de casa, alguém que sabe de onde veio aquela peça de roupa,
do que ela é feita, qual marca está sendo denunciada por maus-tratos aos
funcionários e qual delas acaba de lançar uma linha com impacto ambiental
positivo. Isso é informação que, uma geração atrás, simplesmente não estava
disponível com essa velocidade e acessibilidade.
Aprender com o filho não é renunciar à autoridade. É reconhecer que autoridade
e conhecimento não são a mesma coisa e que, nesse território específico, a
geração mais nova chegou equipada de um jeito que a anterior não estava.
Apesar de toda a
influência digital, os Zalfa ainda confiam na opinião humana real. Numa
pesquisa apresentada na NRF, o maior evento de varejo do mundo, jovens da
Geração Z afirmaram que usam inteligência artificial e plataformas digitais
para pesquisar, mas que nunca confiariam exclusivamente nelas. A recomendação
de uma pessoa de verdade ainda tem peso decisivo.
Isso significa que
a voz dos pais não foi substituída pelo algoritmo. Ela compete com ele e pode
ganhar, se estiver bem-informada e disposta ao diálogo. O pai ou a mãe que se
interessa genuinamente pelo universo de consumo do filho, que pergunta de onde
veio aquela marca que ele está usando, que pesquisa junto antes de dizer não,
mantém uma presença relevante nessa equação.
Se eu pudesse dar uma única orientação para pais que estão navegando essa nova
dinâmica com os filhos adolescentes, seria: não subestimem o que eles sabem. E
não fingiam que sabem o que não sabem. Essa geração detecta inautenticidade com
uma precisão que às vezes surpreende os adultos. Mas ela também responde muito
bem à honestidade. Um pai que diz "não sei, mas vamos pesquisar
juntos" faz mais pela relação e educação do filho do que aquele que
rejeita a informação que não conhece ou cede sem entender o porquê.
O consumo, para os
Zalfa, é um espaço de construção de identidade e de valores. Entrar nesse
espaço com curiosidade, em vez de resistência, é a melhor forma de continuar
fazendo parte da vida deles.
Júlia Xavier - especialista em comportamento de consumo, novas gerações e estratégia de marca, com atuação entre Brasil e Europa. Formada em Publicidade pela ESPM, possui mestrado em Fashion Promotion, Communication and Digital Media pelo Instituto Marangoni, em Paris. Atuou como Global Media Coordinator na Hugo Boss, integrando equipes internacionais e trabalhando com mídia e estratégias globais para diferentes mercados. É presença recorrente na NRF – Retail’s Big Show, maior evento global de varejo, onde acompanha e analisa tendências de consumo, inovação e transformação do mercado, com foco especial na geração Z. É também apresentadora do podcast We Are Too Fashion, no qual discute moda, consumo e comportamento sob uma perspectiva estratégica e contemporânea. De volta ao Brasil, atua como palestrante, consultora e produtora de conteúdo, apoiando empresas na tradução de movimentos culturais e tendências globais em decisões aplicáveis ao negócio. Já foi colunista do Glamurama, participante de eventos como SXSW e Web Summnit, e é fonte para debates sobre consumo, moda, luxo, inovação e varejo.
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