Procedimento vira febre em clínicas e na internet, mas especialistas alertam para perigos que vão de queimaduras severas a danos permanentes na sensibilidade
A busca pela “vagina perfeita” ou pelo “clareamento anal” deixou de ser um tabu em consultório para se tornar um fenômeno de engajamento nas redes sociais. Impulsionada por influenciadores e pela cultura da “estética sem limites”, a procura por procedimentos de clareamento íntimo, utilizando lasers de CO₂ ou peelings químicos têm crescido de forma expressiva no Brasil.
Segundo dados do Google Trends, o interesse dos brasileiros por termos relacionados à estética íntima vem registrando um crescimento consistente nos últimos anos. O termo “clareamento íntimo”, por exemplo, teve seu primeiro grande pico durante a pandemia e, desde então, se mantém em patamares historicamente elevados.
Confira os 5
principais riscos que quem submete a região íntima a esses procedimentos está
correndo:
1.
Queimaduras de segundo grau e lesões teciduais
A pele da região
genital e perianal é substancialmente mais fina, vascularizada e sensível do
que a do restante do corpo. O uso inadequado de tecnologias como o laser ou de
peelings químicos, com ácidos em concentrações erradas, pode provocar
queimaduras térmicas e químicas graves. O tratamento dessas lesões costuma ser
doloroso, prolongado e exige isolamento da área.
2. Infecções
bacterianas e fúngicas severas
A região íntima tem características próprias, como maior umidade e sensibilidade. Quando a barreira natural da pele é alterada por procedimentos agressivos, o risco de infecções aumenta.
A médica e professora da pós-graduação em Dermatologia da Afya Educação Médica do Rio de Janeiro, Thaís Barcellos, alerta que o maior perigo reside na banalização do local de aplicação e na falta de triagem médica.
"Em regiões
de alta sensibilidade como a íntima, qualquer procedimento precisa de uma
indicação clínica muito bem definida. Quando feito sem avaliação adequada, por
profissionais não habilitados ou em locais sem a estrutura sanitária correta, o
risco de infecções graves e complicações de difícil manejo aumenta
significativamente", explica a
especialista.
3. Cicatrizes
permanentes e efeito rebote (manchas escuras)
Quando uma
queimadura ou processo inflamatório na região íntima evolui de forma errada, o
corpo tenta cicatrizar o tecido gerando fibrose ou cicatrizes hipertróficas que
geram repuxamento da pele e desconforto crônico. Além disso, o próprio processo
inflamatório agressivo pode ativar a melanina, gerando o efeito rebote, quando
a região acaba ficando ainda mais escura do que antes do procedimento.
4. Alterações
neurológicas e perda da sensibilidade
Mais do que uma questão estética, a região íntima é sensível e tem funções importantes no corpo. Quando procedimentos são feitos de forma inadequada, podem afetar nervos da região e causar alterações na sensibilidade.
O Dr. Raphael Fernandes, Médico e Professor da Afya Unigranrio Barra da Tijuca, destaca que a anatomia da região anal exige uma cautela que os vídeos de redes sociais ignoram:
"A região
anal possui uma complexidade anatômica e funcional extremamente delicada.
Procedimentos estéticos sem indicação precisa e feitos às cegas podem gerar
alterações neurológicas de sensibilidade, dor persistente durante as atividades
diárias e até incontinência em casos extremos. O impacto na qualidade de vida
do paciente é devastador, tornando a avaliação de um especialista
indispensável", adverte o
médico.
5. Dismorfia
corporal e a armadilha dos padrões irreais
O último risco não
é físico, mas psicológico. A busca obstinada por uma "uniformização
total" da cor da pele é, muitas vezes, fruto de filtros de redes sociais e
pornografia, que vendem anatomias artificiais, já que a pigmentação mais escura
na região genital é completamente natural e saudável. A busca pelo clareamento,
nesses casos, tenta curar uma insatisfação emocional que nenhuma tecnologia é
capaz de resolver.
Cuidado com o milagre rápido!
A região íntima não é o rosto. A anatomia local exige respeito e técnicas completamente personalizadas. Antes de agendar qualquer sessão baseada em uma tendência da internet, é fundamental passar por uma consulta detalhada com um médico para avaliar os riscos reais, os benefícios e se as expectativas do paciente estão alinhadas com a realidade biológica do próprio corpo.

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