Protocolos modernos fazem do procedimento um
aliado para a longevidade ativa e a prevenção de acidentes entre pessoas idosas;
segundo a OMS, cerca de um terço delas cai pelo menos uma vez ao ano
A idade cronológica deixou de ser uma barreira para o tratamento
da obesidade grave no Brasil há pouco mais de um ano. Baseada nas melhores
evidências científicas globais, que demonstraram a eficácia e a segurança da
cirurgia bariátrica também na população idosa, a Resolução CFM nº 2.429/2025
retirou o limite máximo de 70 anos de idade para a realização do procedimento.
Desde maio do ano passado, a indicação passou a considerar a idade biológica e
a condição clínica global do paciente.
“Ao priorizar a reserva funcional e o controle de comorbidades, os
protocolos modernos transformaram a cirurgia em uma ferramenta importante para
promover o envelhecimento ativo e a independência na terceira idade”, destaca o
cirurgião bariátrico César De Fazzio, diretor do ICD (Instituto de Cirurgia
Digestiva), em Brasília.
De acordo com o médico, o avanço tecnológico e a mudança nas
práticas hospitalares foram determinantes para essa transição. “Hoje
trabalhamos com técnicas minimamente invasivas por videolaparoscopia, anestesia
mais segura e protocolos de recuperação acelerada, que reduzem o estresse
cirúrgico e o tempo de internação. Quando somamos esses recursos a uma triagem
criteriosa com equipe multidisciplinar, que inclui cardiologista e psicólogo,
conseguimos oferecer o procedimento com alta segurança para a população idosa”,
esclarece o especialista.
A justificativa para a intervenção vai muito além da balança. O
especialista explica que o emagrecimento promove a melhora expressiva — podendo
até atingir a remissão completa — de patologias graves e crônicas que
comprometem a qualidade de vida nessa faixa etária, como o diabetes tipo 2, a
hipertensão, a dislipidemia, a apneia do sono e as doenças articulares.
“Pacientes da terceira idade podem inclusive ter ganho de sobrevida com a
cirurgia”, aponta De Fazzio.
Equilíbrio postural na prevenção de acidentes
Dados do Relatório Global da Organização Mundial da Saúde (OMS)
sobre Prevenção de Quedas na Velhice revelam a dimensão do problema: entre 28%
e 35% das pessoas com mais de 65 anos sofrem ao menos uma queda por ano. A
proporção sobe para 32% a 42% entre os maiores de 70 anos.
As consequências vão além da lesão imediata. As quedas respondem
por mais de 50% das hospitalizações relacionadas a ferimentos em pessoas acima
de 65 anos e estão entre as principais causas de fratura de quadril, cujas
internações se estendem, em média, por 20 dias. Além das sequelas físicas, os
episódios podem desencadear a chamada síndrome pós-queda, que gera medo
persistente de cair, perda de autonomia, imobilização progressiva e depressão,
criando um ciclo de autorrestrições.
A cirurgia bariátrica atua em múltiplos fatores que colaboram para
quebrar esse ciclo de vulnerabilidade. De Fazzio detalha que o excesso de peso
prejudica a estabilidade postural porque o acúmulo assimétrico de gordura
desloca o centro de gravidade do corpo. Com o emagrecimento, o paciente
recupera o equilíbrio e a firmeza nos movimentos. Além disso, o controle das
doenças metabólicas associadas à obesidade traz reflexos diretos no sistema
vestibular — responsável pelo equilíbrio no ouvido interno — e na sensibilidade
dos nervos periféricos, reduzindo episódios de tonturas e vertigens.
O alívio mecânico sobre o sistema locomotor é outro aspecto
fundamental na prevenção de quedas. “Anos de sobrecarga causada pelo excesso de
peso desgastam articulações, ligamentos, meniscos, causando problemas à coluna,
quadris e joelhos. Cada quilo a mais multiplica a força que incide sobre essas
estruturas a cada passo. Perder gordura corporal diminui as tensões e ameniza
dores articulares que muitas vezes acompanham o paciente há anos, devolvendo
agilidade e segurança ao caminhar”, descreve o cirurgião, lembrando ainda que a
eliminação do tecido gorduroso reduz o estado inflamatório crônico que também
agride músculos e articulações.
Mais independência e simplificação da rotina
O benefício da recuperação da independência costuma superar
qualquer aspiração estética. No consultório, o desejo mais comum entre os
idosos é voltar a se movimentar sem depender de terceiros para tarefas básicas,
conta De Fazzio. Com o tratamento, os pacientes frequentemente relatam retorno
a atividades que haviam abandonado por limitações físicas, como viajar, passear
ao ar livre, cuidar dos animais e brincar com os netos. “Devolver essa
autonomia é, na minha visão, o verdadeiro propósito da cirurgia nessa faixa
etária”, comenta o especialista.
Outro benefício para a rotina é a redução da polifarmácia. É comum
que idosos com obesidade cheguem ao consultório dependendo de uma extensa lista
de comprimidos de uso diário, administrados em diferentes horários. Com a
remissão ou controle de comorbidades após a cirurgia, muitos conseguem suspender
ou reduzir drasticamente o uso de medicamentos, sempre sob supervisão médica.
“Isso transforma radicalmente o cotidiano de quem antes organizava o dia em
função dos remédios”, avalia De Fazzio.
Cuidado integrado e preservação de força
Para assegurar que o paciente da terceira idade perca gordura sem comprometer sua qualidade de vida, o protocolo de preparação e acompanhamento pós-operatório é conduzido por equipe multidisciplinar e ainda mais rigoroso do que em outras faixas etárias. Como a perda natural de massa magra decorrente do envelhecimento pode ser acelerada pela perda de peso, preservar a massa muscular é um cuidado essencial antes e depois da intervenção cirúrgica. O preparo envolve um aporte proteico adequado, suplementação personalizada de vitaminas e minerais, além do estímulo monitorado à atividade física.
O cirurgião ressalta que a transparência e o alinhamento de expectativas devem guiar cada etapa do tratamento. “É essencial conduzir o processo com total honestidade, mostrando ao paciente o que ele pode e o que não pode esperar da cirurgia, respeitando o desejo de cada pessoa e propondo o tratamento que faz mais sentido para a sua realidade”, resume De Fazzio. Para o especialista, o resultado desse cuidado se traduz em um futuro com mais anos de vida, mas, principalmente, com mais vida dentro desses anos.
César De Fazzio - cirurgião bariátrico, dedica-se à área do aparelho digestivo há mais de 15 anos. Fundador do ICD (Instituto de Cirurgia Digestiva), em Brasília-DF, é referência no tratamento cirúrgico e clínico da obesidade. Com um olhar sistêmico do paciente, o especialista coordena todas as etapas do emagrecimento, integrando medicina, nutrição e psicologia em um acompanhamento multidisciplinar. Sua prática é pautada em evidências científicas, pela ética e pelo uso de tecnologia de ponta com materiais de alta qualidade em intervenções minimamente invasivas, visando resultados de longo prazo. Prioriza a segurança e um atendimento transparente e individualizado.
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