Pesquisar no Blog

terça-feira, 23 de junho de 2026

Cirurgia bariátrica na terceira idade devolve autonomia e reduz risco de queda

Protocolos modernos fazem do procedimento um aliado para a longevidade ativa e a prevenção de acidentes entre pessoas idosas; segundo a OMS, cerca de um terço delas cai pelo menos uma vez ao ano 

 

A idade cronológica deixou de ser uma barreira para o tratamento da obesidade grave no Brasil há pouco mais de um ano. Baseada nas melhores evidências científicas globais, que demonstraram a eficácia e a segurança da cirurgia bariátrica também na população idosa, a Resolução CFM nº 2.429/2025 retirou o limite máximo de 70 anos de idade para a realização do procedimento. Desde maio do ano passado, a indicação passou a considerar a idade biológica e a condição clínica global do paciente. 

“Ao priorizar a reserva funcional e o controle de comorbidades, os protocolos modernos transformaram a cirurgia em uma ferramenta importante para promover o envelhecimento ativo e a independência na terceira idade”, destaca o cirurgião bariátrico César De Fazzio, diretor do ICD (Instituto de Cirurgia Digestiva), em Brasília. 

De acordo com o médico, o avanço tecnológico e a mudança nas práticas hospitalares foram determinantes para essa transição. “Hoje trabalhamos com técnicas minimamente invasivas por videolaparoscopia, anestesia mais segura e protocolos de recuperação acelerada, que reduzem o estresse cirúrgico e o tempo de internação. Quando somamos esses recursos a uma triagem criteriosa com equipe multidisciplinar, que inclui cardiologista e psicólogo, conseguimos oferecer o procedimento com alta segurança para a população idosa”, esclarece o especialista. 

A justificativa para a intervenção vai muito além da balança. O especialista explica que o emagrecimento promove a melhora expressiva — podendo até atingir a remissão completa — de patologias graves e crônicas que comprometem a qualidade de vida nessa faixa etária, como o diabetes tipo 2, a hipertensão, a dislipidemia, a apneia do sono e as doenças articulares. “Pacientes da terceira idade podem inclusive ter ganho de sobrevida com a cirurgia”, aponta De Fazzio.
 

Equilíbrio postural na prevenção de acidentes 

Dados do Relatório Global da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre Prevenção de Quedas na Velhice revelam a dimensão do problema: entre 28% e 35% das pessoas com mais de 65 anos sofrem ao menos uma queda por ano. A proporção sobe para 32% a 42% entre os maiores de 70 anos. 

As consequências vão além da lesão imediata. As quedas respondem por mais de 50% das hospitalizações relacionadas a ferimentos em pessoas acima de 65 anos e estão entre as principais causas de fratura de quadril, cujas internações se estendem, em média, por 20 dias. Além das sequelas físicas, os episódios podem desencadear a chamada síndrome pós-queda, que gera medo persistente de cair, perda de autonomia, imobilização progressiva e depressão, criando um ciclo de autorrestrições. 

A cirurgia bariátrica atua em múltiplos fatores que colaboram para quebrar esse ciclo de vulnerabilidade. De Fazzio detalha que o excesso de peso prejudica a estabilidade postural porque o acúmulo assimétrico de gordura desloca o centro de gravidade do corpo. Com o emagrecimento, o paciente recupera o equilíbrio e a firmeza nos movimentos. Além disso, o controle das doenças metabólicas associadas à obesidade traz reflexos diretos no sistema vestibular — responsável pelo equilíbrio no ouvido interno — e na sensibilidade dos nervos periféricos, reduzindo episódios de tonturas e vertigens. 

O alívio mecânico sobre o sistema locomotor é outro aspecto fundamental na prevenção de quedas. “Anos de sobrecarga causada pelo excesso de peso desgastam articulações, ligamentos, meniscos, causando problemas à coluna, quadris e joelhos. Cada quilo a mais multiplica a força que incide sobre essas estruturas a cada passo. Perder gordura corporal diminui as tensões e ameniza dores articulares que muitas vezes acompanham o paciente há anos, devolvendo agilidade e segurança ao caminhar”, descreve o cirurgião, lembrando ainda que a eliminação do tecido gorduroso reduz o estado inflamatório crônico que também agride músculos e articulações.
 

Mais independência e simplificação da rotina 

O benefício da recuperação da independência costuma superar qualquer aspiração estética. No consultório, o desejo mais comum entre os idosos é voltar a se movimentar sem depender de terceiros para tarefas básicas, conta De Fazzio. Com o tratamento, os pacientes frequentemente relatam retorno a atividades que haviam abandonado por limitações físicas, como viajar, passear ao ar livre, cuidar dos animais e brincar com os netos. “Devolver essa autonomia é, na minha visão, o verdadeiro propósito da cirurgia nessa faixa etária”, comenta o especialista. 

Outro benefício para a rotina é a redução da polifarmácia. É comum que idosos com obesidade cheguem ao consultório dependendo de uma extensa lista de comprimidos de uso diário, administrados em diferentes horários. Com a remissão ou controle de comorbidades após a cirurgia, muitos conseguem suspender ou reduzir drasticamente o uso de medicamentos, sempre sob supervisão médica. “Isso transforma radicalmente o cotidiano de quem antes organizava o dia em função dos remédios”, avalia De Fazzio.
 

Cuidado integrado e preservação de força 

Para assegurar que o paciente da terceira idade perca gordura sem comprometer sua qualidade de vida, o protocolo de preparação e acompanhamento pós-operatório é conduzido por equipe multidisciplinar e ainda mais rigoroso do que em outras faixas etárias. Como a perda natural de massa magra decorrente do envelhecimento pode ser acelerada pela perda de peso, preservar a massa muscular é um cuidado essencial antes e depois da intervenção cirúrgica. O preparo envolve um aporte proteico adequado, suplementação personalizada de vitaminas e minerais, além do estímulo monitorado à atividade física. 

O cirurgião ressalta que a transparência e o alinhamento de expectativas devem guiar cada etapa do tratamento. “É essencial conduzir o processo com total honestidade, mostrando ao paciente o que ele pode e o que não pode esperar da cirurgia, respeitando o desejo de cada pessoa e propondo o tratamento que faz mais sentido para a sua realidade”, resume De Fazzio. Para o especialista, o resultado desse cuidado se traduz em um futuro com mais anos de vida, mas, principalmente, com mais vida dentro desses anos.



César De Fazzio - cirurgião bariátrico, dedica-se à área do aparelho digestivo há mais de 15 anos. Fundador do ICD (Instituto de Cirurgia Digestiva), em Brasília-DF, é referência no tratamento cirúrgico e clínico da obesidade. Com um olhar sistêmico do paciente, o especialista coordena todas as etapas do emagrecimento, integrando medicina, nutrição e psicologia em um acompanhamento multidisciplinar. Sua prática é pautada em evidências científicas, pela ética e pelo uso de tecnologia de ponta com materiais de alta qualidade em intervenções minimamente invasivas, visando resultados de longo prazo. Prioriza a segurança e um atendimento transparente e individualizado.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Posts mais acessados