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sexta-feira, 24 de abril de 2026

Estudo liga consumo de ultraprocessados na infância a alterações de comportamento dois anos depois

 Pesquisa reforça alerta sobre alimentação infantil especialista chama atenção para produtos “disfarçados de saudáveis” que enganam famílias

 

O consumo de alimentos ultraprocessados na primeira infância pode ter impactos que vão além da saúde física. Um estudo publicado em março deste ano na revista científica JAMA Network aponta que crianças expostas a esse tipo de alimentação apresentam alterações de comportamento até dois anos depois.

A pesquisa reforça um alerta que especialistas já vêm observando na prática clínica: a influência da alimentação na forma como a criança se desenvolve, se relaciona com a comida e até regula emoções.

O cenário brasileiro ajuda a explicar essa preocupação. Hoje, os ultraprocessados já representam cerca de 20% a 23% das calorias consumidas no país e vêm crescendo de forma consistente nas últimas décadas. Entre as crianças, o impacto é ainda mais expressivo: até 80% consomem esse tipo de alimento com frequência, e mais de 80% dos pequenos entre 6 meses e 2 anos já tiveram contato com ultraprocessados. Além disso, dados recentes mostram que metade das crianças consumiu esses produtos no dia anterior à pesquisa, refletindo a presença diária desse padrão alimentar.

Para Renata Riciati nutricionista materno-infantil, especialista em seletividade alimentar e comportamento alimentar infantil, o problema começa muito antes do consumo em si, está na forma como esses produtos são apresentados às famílias.

“Muitos ultraprocessados são vendidos como opções saudáveis. Eles trazem no rótulo promessas como ‘fonte de fibras’, ‘rico em vitaminas’ ou ‘integral’, mas, na prática, continuam sendo produtos com excesso de açúcar, aditivos e ingredientes de baixo valor nutricional”, explica.

Segundo a especialista, um dos principais pontos de atenção está na leitura dos rótulos. A ordem dos ingredientes indica a composição real do produto e é comum que açúcar, xaropes ou gorduras apareçam logo no início da lista, mesmo em itens considerados “do bem”. Outro fator que contribui para o consumo precoce é o marketing direcionado às crianças.

“Esses produtos usam personagens, cores chamativas, brindes e uma linguagem emocional que associa o alimento a energia, diversão e crescimento. Isso não é sobre nutrição, é sobre convencimento”, afirma Renata.

A organização dos supermercados também favorece esse cenário. Produtos ultraprocessados costumam estar posicionados à altura dos olhos das crianças ou próximos ao caixa, enquanto alimentos in natura ficam menos evidentes.

“Existe uma construção de ambiente que estimula escolhas rápidas e, muitas vezes, menos saudáveis. E isso impacta diretamente a rotina das famílias”, completa.

De acordo com a nutricionista, o consumo frequente desses produtos está associado não apenas a doenças como obesidade, diabetes tipo 2 e problemas cardiovasculares, mas também a alterações no paladar, na relação com a comida e na saúde intestinal, fatores que podem influenciar comportamento e bem-estar.

“O que a criança come hoje ajuda a formar não só o corpo, mas também a forma como ela percebe a comida e reage a ela. Por isso, é importante olhar com mais atenção para o que parece saudável, mas não é”, alerta.

Como orientação prática, a especialista recomenda priorizar alimentos in natura ou minimamente processados, desconfiar de listas longas de ingredientes e evitar associar praticidade à ideia de saúde.

“Comida de verdade ainda é a melhor escolha. E ensinar isso desde cedo faz toda a diferença no desenvolvimento da criança”, conclui.
  


Renata Riciati - nutricionista materno-infantil e especialista em saúde da família, com mais de 20 anos de experiência em comportamento alimentar infantil, seletividade alimentar e terapia nutricional para crianças com TEA (Transtorno do Espectro Autista) e TDAH. Formada pela Universidade Anhembi Morumbi, possui pós-graduação em Nutrição Clínica pela Universidade São Camilo e ampla atuação em consultório, escolas e projetos voltados à educação alimentar. Ao longo da carreira, acumulou experiências em instituições como o Instituto da Criança – HCFMUSP, GR Serviços de Alimentação e Prefeitura de São Paulo, além de comandar a RR Nutri, onde atende famílias, gestantes, bebês e crianças, oferecendo acompanhamento nutricional, consultoria escolar e consultoria corporativa. Renata também desenvolve projetos como o curso “Só Mais Uma Colherada”, criado em parceria com a jornalista Karina Godoy (TV Globo), e grupos online de orientação alimentar. Sua atuação se destaca pelo olhar integral, acolhedor e individualizado, com foco em transformar a relação das famílias com a comida, promovendo refeições mais leves, nutritivas e prazerosas.
Instagram: renatariciati_nutri
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