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| Pesquisa foi realizada com base em 20 anos de monitoramento de campo (foto: Paulo Brando) |
Estudo liderado por brasileiros mostra substituição de espécies por generalistas, sem tendência de savanização; porém, áreas recuperadas são mais vulneráveis
Mesmo após incêndios, secas
severas e tempestades de ventos, a vegetação de florestas degradadas na
Amazônia demonstra alta capacidade de regeneração, incluindo espécies arbóreas.
A recuperação, no entanto, ocorre sob novas condições ecológicas, com perda de
diversidade e aumento de vulnerabilidade a novos distúrbios.
Pesquisa publicada na
segunda-feira (20/04) na Proceedings of the National Academy of
Sciences (PNAS), uma das revistas científicas mais citadas no mundo,
mostra que há substituição de espécies vulneráveis por outras generalistas,
mais resistentes. Indica, assim, segundo os autores, a formação de florestas
homogêneas, mas não uma tendência à savanização, como parte da literatura
científica vinha apontando. Esse processo reforça a resiliência do bioma.
Por outro lado, o estudo,
realizado com base em 20 anos de monitoramento de campo e liderado por
brasileiros, destaca que as áreas recuperadas são mais vulneráveis a eventos
extremos cada vez mais frequentes no bioma e aos impactos do desmatamento e das
mudanças climáticas. Além de intensificar secas e incêndios, o aquecimento
global prejudica os serviços ecossistêmicos, como a regulação de água e a
captura de carbono.
De acordo com os pesquisadores,
essa compreensão é fundamental para orientar a conservação florestal e as
estratégias de mitigação, especialmente frente a eventos como o El Niño,
fenômeno caracterizado pelo aquecimento do oceano Pacífico na faixa equatorial
que provoca alterações na circulação atmosférica e no regime de chuvas em
escala global.
“A principal mensagem do nosso
estudo é que, mesmo altamente degradadas, as florestas conseguem se recuperar.
No entanto, estão muito vulneráveis a novos distúrbios. Elas são resilientes,
mas, mesmo assim, é preciso preservar. No sítio experimental, temos o controle
e o fogo não ocorre mais na área, o que não é possível fazer na Amazônia toda”,
pondera à Agência FAPESP o biólogo Leandro Maracahipes, primeiro autor do artigo juntamente
com o engenheiro florestal Paulo Brando.
O trabalho é resultado do
pós-doutorado de Maracahipes no Instituto de Biologia da Universidade Estadual
de Campinas (IB-Unicamp). Atualmente, ele é pesquisador na Yale School of the
Environment (Estados Unidos) e também colaborador do Instituto de Pesquisa
Ambiental da Amazônia (Ipam). O biológo e Brando têm apoio da FAPESP,
respectivamente, por meio de Bolsa de Pós-Doutorado e Projeto Temático.
Acompanhamento
O grupo documentou a
perturbação e a recuperação em uma floresta experimental em Mato Grosso,
chamada Tanguro, localizada em uma região de transição entre os biomas Amazônia
e Cerrado. Foram acompanhadas três parcelas de 50 hectares cada – uma de
controle sem queima, outra queimada anualmente (entre 2004 e 2010) e a terceira
com queimas trienais (2004, 2007 e 2010). Cada uma delas está próxima a áreas
agrícolas, que eram utilizadas como pastagem com gramíneas exóticas.
“A escolha do lugar é chave, já
que modelos climáticos consideram que a região de transição da Amazônia para o
Cerrado será a primeira a sofrer mudanças com os impactos do aquecimento
global. Essa pesquisa é inovadora porque integra múltiplos fatores
estressantes, como fogo, vento forte e seca, e mostra que a floresta sofreu, se
degradou e depois voltou. Mais empobrecida de espécies, porém ainda com
características de floresta”, explica o ecólogo e professor do IB-Unicamp Rafael Silva Oliveira.
Também autor do artigo e então
supervisor de Maracahipes no pós-doutorado, Oliveira complementa: “Outro ponto
importante é que as árvores cresceram e as gramíneas saíram, sem evidência de
savanização. Os modelos criados pelos climatólogos foram úteis para alertar
sobre os riscos à Amazônia, mas simplificaram os ecossistemas tropicais,
reduzindo-os à floresta ou à savana. Isso ajudou a fortalecer a ideia de um
‘ponto de não retorno’, ainda pouco sustentada por dados de campo. Na prática,
a Amazônia é muito mais diversa, com diferentes tipos de florestas e
vulnerabilidades. Ao incorporar esse olhar biológico, mostramos uma Amazônia
menos previsível e mais resiliente em algumas regiões do que os modelos
sugerem”.
Oliveira também teve apoio da FAPESP por meio do Programa de Apoio à
Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica (PITE).
Passo a
passo
Os resultados mostraram que,
com a suspensão das queimadas, a recuperação da estrutura e do funcionamento da
floresta foi rápida em seu interior, com diversidade de espécies relativamente
estável.
Já nas áreas de borda o
processo foi mais lento, com riqueza de espécies caindo de 20% a 46%, entre
2004 e 2024. O efeito de borda é uma alteração ecológica que ocorre nas margens
de áreas desmatadas, onde a floresta passa a ter contato direto com ambientes
abertos, como pastagens, estradas ou lavouras, alterando o clima e a
biodiversidade.
Apesar da recuperação de alguns
serviços ecossistêmicos, como fluxos de carbono e de água, com o crescimento de
vegetação após os incêndios a composição de espécies mudou. Passou a ter
mais generalistas, com características de tolerância à seca, mas que estão
operando em limiares perigosos. A composição original de espécies não retornou
mesmo após 14 anos, principalmente das consideradas especialistas de floresta.
As gramíneas foram fator-chave
para promover fogos de alta intensidade e impediram a regeneração de árvores,
tendo inicialmente se expandido ao longo das bordas. Foram observadas espécies
ligadas a áreas de pastagens, como Aristida longifolia e Imperata
sp, de origem africana. Após incêndios de alta severidade, gramíneas
invasoras, especialmente Andropogon gayanus, entraram nas bordas,
atingindo o pico em 2012.
Com o passar do tempo e aumento
da cobertura arbórea (fechamento do dossel), especialmente a partir de 2016,
elas foram reduzidas drasticamente, ficando apenas manchas de gramíneas
tolerantes à sombra. Para os pesquisadores, isso sugere que os danos causados à
floresta não a transformaram em uma paisagem definitiva do tipo savana.
“Olhando para a parte
biológica, quando analisamos a composição de espécies de gramíneas na floresta
que passou por distúrbios, vemos que são espécies utilizadas em pastagem, como
braquiária e andropogon. Se o aumento fosse de espécies nativas, poderíamos
dizer que o componente graminoso seria um fator importante na recuperação de
florestas degradadas. Além disso, não há chegada de espécies lenhosas de
savana. Nosso sítio experimental está a cinco quilômetros de áreas de savana do
Cerrado, podendo ter fonte de propagação, e mesmo assim não registramos essa
savanização”, complementa Maracahipes, que fez análise da composição das
espécies ao longo dos anos no local.
A pesquisa mostrou ainda que a
vulnerabilidade da floresta ao fogo aumenta por causa da casca fina das
árvores; enquanto a baixa densidade da madeira prejudica mais em tempestades de
vento. Nas secas severas algumas espécies operam próximo ao potencial de perda
da condutividade hidráulica.
Um ponto que se mostrou
importante na regeneração florestal foi a presença de fauna local, sendo
mamíferos (como antas e macacos) e aves agentes-chave para promover o
reaparecimento de árvores consideradas “especialistas de florestas”, ou seja,
com alta densidade de madeira e de vida longa.
Cenário
Mesmo com uma queda
significativa do desmatamento na Amazônia principalmente nos últimos dois anos,
o bioma vem sofrendo com degradações constantes. O fogo tem sido o principal
fator. Enquanto o desmate remove totalmente a cobertura de vegetação, a
degradação enfraquece a floresta sem destruí-la por completo.
Entre agosto de 2025 e janeiro
de 2026, o desmatamento na Amazônia Legal afetou uma área de 1.324 quilômetros
quadrados (km²), com uma redução de 35% em comparação ao ciclo anterior (agosto
de 2024 a janeiro de 2025). Já a degradação florestal atingiu uma área de 2.923
km² no período.
Nos primeiros três meses de
2026, foi registrado o segundo menor nível para o primeiro trimestre do ano –
399,59 km², o que representa queda de cerca de 7% em relação a 2025. Os dados
são do Deter, sistema do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) de
alerta de desmatamento em tempo real.
Para este ano, outra
preocupação é com a possibilidade de um “super El Niño” a partir do segundo
semestre até 2027. Novas projeções do Centro Europeu de Previsão Meteorológica
de Médio Prazo apontam para a possibilidade de um fenômeno com potencial para
ser o mais intenso em 140 anos. Em 2024, a seca que afetou a Amazônia foi
provocada pelo El Niño e seus efeitos vêm sendo estudados até hoje.
“Apesar da resiliência da
floresta, a preservação ainda é o caminho que precisamos buscar”, conclui
Maracahipes.
O artigo Forest
recovery pathways after fire, drought and windstorms in southeast Amazonia pode
ser lido em: pnas.org/doi/10.1073/pnas.2532833123.
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/incendios-secas-e-tempestades-de-vento-tornam-vegetacao-da-amazonia-menos-diversa/57819



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