Distorção histórica nos critérios para o
diagnóstico do transtorno faz com que milhões de mulheres cheguem à vida adulta
sem saber que tem autismo.
O Abril Azul, mês internacional de conscientização sobre o Transtorno do
Espectro Autista (TEA), chegou mais uma vez com campanhas, laços simbólicos e
debates nas redes sociais. Mas há um grupo que ainda permanece à margem dessa
visibilidade: as mulheres com autismo.
Elas passaram
décadas se perguntando por que se sentiam diferentes. Eram chamadas de tímidas
demais, sensíveis demais, exigentes demais. Aprenderam cedo a observar as
outras pessoas e a copiar seus comportamentos, a sorrir na hora certa, a fingir
interesse quando o cansaço social já havia chegado ao limite. Para o mundo ao
redor, pareciam apenas introvertidas. O autismo nunca foi cogitado.
O Brasil tem
hoje 2,4 milhões de pessoas com diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista
(TEA), segundo o IBGE, o equivalente a 1 em cada 38 crianças entre 5 e 9 anos.
Mas por trás desse número há uma distorção que especialistas descrevem como um
problema estrutural de décadas: a taxa de diagnóstico entre homens (1,5%) é
significativamente maior do que entre mulheres (0,9%).
Para
pesquisadores e clínicos, essa diferença não reflete uma prevalência real menor
do autismo no sexo feminino. Ela revela, também, falhas históricas na forma
como o transtorno foi estudado, descrito e identificado.
“Apesar de
conhecermos algumas diferenças genéticas e estruturais entre os gêneros, os
critérios diagnósticos do autismo foram construídos, em grande parte, com base
em estudos feitos com meninos. Durante muito tempo, a ciência sequer se
perguntava se essa condição poderia se manifestar de forma diferente em
meninas”, afirma a Dra. Letícia Amici, Psiquiatra e Docente do programa de
Pós-Graduação Médica da São Leopoldo Mandic.
A
arte de desaparecer
No centro
desse subdiagnóstico está um fenômeno que os pesquisadores chamam de masking,
ou camuflagem social. Desde a infância, muitas meninas com autismo desenvolvem a
habilidade de observar e imitar comportamentos sociais: a forma como os outros
fazem contato visual, como entram em uma conversa, como reagem a uma piada. É
uma estratégia de sobrevivência, não uma escolha consciente, e que ocorre mais
nas mulheres, justamente porque nelas, o "cérebro social" costuma ser
um pouco mais desenvolvido. E é essa característica, precisamente o que as
torna invisíveis para pais, professores e, por fim, médicos.
O custo dessa
invisibilidade, no entanto, é alto. Estudos associam a camuflagem social
prolongada a quadros graves de ansiedade, depressão e esgotamento crônico.
Mulheres com autismo apresentam taxas significativamente maiores de burnout
e ideação suicida do que a população geral. Paradoxalmente, são justamente os
sintomas dessas comorbidades que costumam levá-las ao consultório, não o
autismo em si.
"O que
vemos na clínica, muitas vezes, é uma mulher que chega à consulta com outros
diagnósticos, como transtorno de ansiedade, depressão recorrente, às vezes até
mesmo transtorno de personalidade borderline. E que já fez terapia, ou já
tentou vários outros tratamentos, por anos, sem sucesso. E o autismo estava lá,
subjacente, nunca investigado, mas trazendo diversos impactos, seja em relação
às interações sociais, à sua carreira profissional ou em sua qualidade de vida,
como um todo. Quando finalmente nomeamos, reconhecemos e iniciamos as
intervenções adequadas, algo muda profundamente nessa mulher. Há desde um
alívio enorme, em entender que suas dificuldades, antes compreendidas como
fraqueza ou frescura, são decorrentes de características do funcionamento
cerebral, como também abrem-se novas possibilidades terapêuticas e apoios muito
mais efetivos”, descreve a Dra. Letícia.
Quando
o diagnóstico acontece
Há um caminho
que se repete nos consultórios de psiquiatria: uma mãe acompanha o processo
diagnóstico do filho, muitas vezes um menino identificado com autismo ainda na
infância, e, ao aprender sobre o transtorno, começa a se reconhecer nas
descrições. A lista de características que ela lê no laudo do filho é, também,
a história da própria vida, e das dificuldades que enfrentava, muitas vezes,
sem nem se dar conta.
"É um
momento muito particular. A mãe vem para cuidar de seu filho e sai com uma nova
compreensão de si mesma. Ela passa a entender comportamentos que sempre a
intrigaram, relações que nunca funcionaram como esperava, dificuldades que
impactaram sua trajetória, limitaram seu potencial, além da exaustão constante
de tentar se encaixar em um mundo que parecia falar uma língua diferente da
sua. O diagnóstico tardio, nesses casos, tem um valor imenso. Não muda o
passado, mas reorganiza o presente, e leva a um futuro diferente”, observa a
especialista.
Esse padrão
evidencia também a urgência de formar profissionais de saúde aptos a reconhecer
o autismo em suas diferentes apresentações. O programa de Pós-Graduação em
Psiquiatria da São Leopoldo Mandic aborda o TEA com ênfase nas especificidades
diagnósticas, incluindo as particularidades do espectro no público feminino e
em adultos, um recorte ainda insuficientemente coberto na formação médica
tradicional.
"A
maioria dos médicos aprendeu a reconhecer o autismo em crianças do sexo
masculino com comprometimento funcional evidente, e numa faixa etária menor.
Uma mulher adulta de 35 anos, minimamente adaptada socialmente, com uma
profissão e família, simplesmente não entra nesse perfil. Esses estigmas
precisam ser revistos, para que os profissionais não mantenham esses equívocos,
e consigam fazer diagnósticos com mais acurácia e seriedade, sem também
banalizar algo tão complexo como o autismo”, avalia a Dra. Letícia.
"Há
alguns exemplos de mulheres que chegam aos 40, 50 anos sem nunca terem recebido
uma avaliação diagnóstica adequada, e nem sequer suspeitam estarem no espectro
autista. Elas viveram com uma série de diagnósticos que tratavam os sintomas de
forma isolada ou superficial, mas não a causa, como um todo. Quando o
diagnóstico correto finalmente é construído, não é uma sentença: é uma
resposta. E muitas vezes, é a primeira vez na vida em que essa mulher sente que
faz sentido", conclui.
São
Leopoldo Mandic
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