Neste mês em que celebramos o Dia Mundial da Saúde
há um lema que nos convida à reflexão: o acesso à saúde como um direito
fundamental. No entanto, ao olharmos para o panorama global, percebemos que um
pilar essencial dessa estrutura ainda é tratado como um detalhe periférico, a
saúde bucal. É hora de romper com o "apartheid biológico" que separa
a boca do restante do corpo humano. A ciência e a realidade clínica são claras:
não existe saúde sistêmica sem uma boca saudável.
Como fundador de uma rede que atende milhões de
brasileiros, vejo, diariamente, que a negligência com o cuidado dental não é
apenas uma questão estética, é um gatilho para crises de saúde pública. O Global Oral
Health Status Report, da OMS, em 2022 já nos alertava que as
doenças bucais afetam cerca de 3,5 bilhões de pessoas. No Brasil, os dados da
Pesquisa Nacional de Saúde Bucal, feita em 2023, reforçam que ainda temos um
longo caminho para erradicar a dor e a perda dentária evitável. Estudos
recentes, como os compilados na Lancet Oral Health Series, em 2023, com
atualizações de 2024, consolidam a boca como um hub de indicadores
sistêmicos.
A periodontite, por exemplo, não é apenas uma
inflamação na gengiva. Ela é uma doença inflamatória crônica que despeja
mediadores químicos na corrente sanguínea, agravando o diabetes e aumentando o
risco de eventos cardiovasculares. Dados do Global Burden of Disease entre
2021 e 2025 mostram um aumento de mais de 70% nos casos de periodontite severa
nas últimas décadas. Além disso, novas fronteiras da ciência agora ligam a
saúde bucal precária até mesmo ao declínio cognitivo e doenças
neurodegenerativas, como o Alzheimer.
Para além das bactérias, precisamos falar de
função. O sistema estomatognático, que engloba dentes, músculos e bases ósseas,
é o primeiro estágio da nossa nutrição e da nossa respiração. Dentes mal
posicionados ou a ausência deles comprometem a mastigação, levando a distúrbios
digestivos e carências nutricionais, especialmente em idosos. No
desenvolvimento infantil, alterações no crescimento maxilar podem causar
distúrbios do sono e dificuldades respiratórias que impactam o aprendizado.
Minha missão sempre foi tornar o cuidado
odontológico acessível. A digitalização e o uso de inteligência artificial na
odontologia, temas que discutimos intensamente nos últimos dois anos, não devem
servir apenas para o luxo, mas para otimizar diagnósticos e permitir acesso a
tratamentos preventivos em larga escala.
Cuidar da boca também é uma estratégia de
longevidade, e investir em prevenção é evitar internações hospitalares amanhã.
Convido você, paciente, profissional ou gestor, a mudar a perspectiva. Vamos
tratar a saúde de forma integral, respeitando a complexidade biológica do
corpo. Afinal, uma vida saudável começa, literalmente, pelo sorriso.
Dr. Paulo Zahr - cirurgião-dentista e fundador da OdontoCompany, maior rede de clínicas odontológicas do mundo, dedicada a levar odontologia de qualidade e acessível a todas as famílias brasileiras
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