Os debates travados no interior do Fórum Global da OCDE sobre Anticorrupção e Integridade 2026, realizado em Paris, no final de março, reforçaram o quanto a agenda de integridade se consolidou como Ativo Econômico, elemento central para o funcionamento dos Mercados e Economia Global. Mais do que um imperativo ético, essa agenda, aliada às pautas de responsabilidade ambiental e social, desponta como fator decisivo para a competitividade, a confiança institucional e a atração de investimentos.
Durante o Fórum, estabelecido como uma das
principais plataformas globais de debate sobre combate à corrupção e
fortalecimento institucional, as lideranças globais reunidas discutiram temas
urgentes como devida diligência, com foco em direitos humanos; o papel das
cadeias produtivas; e a evolução da compreensão sobre os riscos associados ao
crime organizado.
A rede brasileira do Pacto Global da ONU contribuiu
com os debates, estando presente em dois painéis de destaque no interior da
programação, e também atuando no papel de coorganizador do evento paralelo
“Integridade e Negócios: “Uma Agenda Global para Confiança e Cooperação”,
realizado em parceria com a ICC Brasil e com patrocínio da Petrobrás e Governo
do Brasil, além de apoio da AEGEA Saneamento. Dessa forma, abriu espaço para
lideranças empresariais, representantes do setor público, academia e sociedade
civil discutirem a integridade como vetor de competitividade e prosperidade
econômica.
Nesse cenário, a troca de experiências evidenciou
uma percepção internacional cada vez mais consistente: o Brasil tem avançado de
forma relevante na agenda de anticorrupção, com leis e regulamentos que elevam
as práticas de mercado, mas ainda com dualidade entre o arcabouço normativo e a
práxis institucional, tornando o caminho mais longo.
Ao longo dos anos, o país desenvolveu marcos legais
importantes, fortaleceu órgãos públicos de controle e acumulou
aprendizados institucionais que hoje se traduzem em boas práticas reconhecidas
globalmente. A corrupção, vale lembrar, não é um fenômeno exclusivamente
brasileiro. Trata-se de um desafio compartilhado por diferentes economias, em
maior ou menor grau, e em diferentes pontos sociais, afinal muitas práticas
cotidianas e corriqueiras se encaixam no tema.
Apesar dos avanços, contudo, o principal obstáculo
para a consolidação de uma cultura de integridade no Brasil permanece sendo o enforcement,
isto é, a efetiva aplicação de normas, leis e políticas de
conformidade (compliance), assegurando a perenidade de sua aplicação. A
existência de leis e compromissos formais é apenas o primeiro passo. Sua
efetividade depende diretamente da capacidade de fiscalização, investigação,
responsabilização, recuperação de ativos e aplicação de sanções, com
resiliência que sustente sua exequibilidade em todas as esferas. Sem esse ciclo
completo, o risco é de que normas bem estruturadas não produzam os efeitos
esperados na prática.
Ao mesmo tempo, há também uma mudança importante na
natureza dos riscos enfrentados. O crime organizado, historicamente tratado
como uma questão de segurança pública, passou a ser reconhecido também como uma
ameaça econômica relevante. Sua atuação se estende a atividades aparentemente
lícitas, infiltrando-se em cadeias produtivas, processos de contratação e
licitações, muitas vezes por meio de mecanismos sofisticados de lavagem de
dinheiro.
Tomar conhecimento dessa realidade pelo noticiário
policial pode causar uma impressão de retrocesso. Mas, na verdade, o
desmantelamento de esquemas dessa natureza representa mais um passo
indispensável para desenvolver soluções que contribuam decisivamente para o
enfrentamento desses crimes. Casos recentes, como a operação Carbono Oculto e o
escândalo do Banco Master, reforçam que o tema exige vigilância constante. Eles
não anulam os avanços conquistados, mas funcionam como lembretes de que a
agenda de integridade é dinâmica e requer atenção contínua por parte de
empresas, governos e da sociedade, e que precisamos dedicar tempo e esforços
para investigar e aplicar as sanções necessárias.
Nesse contexto, iniciativas coletivas têm se
mostrado fundamentais. No Brasil, a atuação de diferentes organizações,
incluindo a rede local do Pacto Global da ONU, contribui para fortalecer a
disseminação de boas práticas e fomentar o diálogo entre os setores público e
privado. A Plataforma de Ação contra a Corrupção, que reúne centenas de
empresas, é um exemplo de como a colaboração pode impulsionar padrões mais
elevados de governança, promovendo aprendizado conjunto e maior transparência.
O país reúne hoje condições concretas para avançar.
Há conhecimento acumulado, marcos institucionais estabelecidos e um setor
privado cada vez mais engajado. O desafio está em transformar esse potencial em
resultados consistentes e duradouros.
A construção de um ambiente de negócios mais íntegro exige persistência. Transparência, responsabilização e cooperação são elementos indispensáveis nesse processo. A revelação de irregularidades, ainda que desconfortável, e a aplicação efetiva das regras são etapas essenciais para consolidar um novo padrão. É nesse equilíbrio entre avanços e desafios que o Brasil pode seguir fortalecendo sua trajetória rumo a uma economia mais ética, resiliente e confiável.
Guilherme Xavier - Diretor Executivo do Pacto Global da ONU-Rede Brasil
Ana Paula Carracedo - Chief Integrity Officer da Aegea.
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