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sexta-feira, 24 de abril de 2026

Cuidados paliativos ainda chegam tarde e não só em casos de cânce

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Especialista alerta que desinformação faz pacientes chegarem tarde a uma abordagem que poderia reduzir sofrimento e melhorar a qualidade de vida

 

Apesar de recomendados desde o diagnóstico de doenças graves, os cuidados paliativos ainda chegam tarde para a maioria dos pacientes no Brasil, muitas vezes apenas em fases avançadas, quando o sofrimento físico e emocional já está instalado. A principal razão é a desinformação e o estigma: a abordagem segue sendo associada, de forma equivocada, apenas ao fim da vida. 

Na prática, esse atraso limita benefícios importantes, como controle precoce de sintomas, suporte à família e possibilidade de planejar decisões de cuidado com mais autonomia. “Confundir cuidados paliativos com fim de vida é um dos erros mais comuns e mais prejudiciais. Cuidado paliativo não é desistir, mas sim proteger. É um cuidado que acompanha o paciente ao longo da doença, e não no desfecho”, explica o geriatra e paliativista Lucíulo Melo, presidente da Comissão de Cuidados Paliativos da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG). 

Segundo o especialista, a indicação desse tipo de abordagem não depende do diagnóstico, mas do impacto da doença na vida do paciente. “A pergunta não é qual doença tem indicação, mas se existe sofrimento relacionado a uma condição grave. Se há dor, limitação, angústia ou impacto na vida daquela pessoa, o cuidado paliativo já deveria estar presente”, explica. 

Além do câncer, a abordagem também é indicada para outras condições, como insuficiência cardíaca, doença pulmonar obstrutiva crônica, doença renal, demências e sequelas de acidente vascular cerebral, doenças que podem se prolongar por anos e comprometer progressivamente a qualidade de vida.
 

Acesso tardio limita os benefícios do cuidado 

Um dos principais entraves é o momento em que esse cuidado é incorporado. “Existe a ideia de que ele só entra quando não há mais o que fazer, mas isso não é verdade. Ele pode e deve caminhar junto com tratamentos que buscam controlar ou curar a doença. Costumamos dizer que o cuidado paliativo é como um guarda-chuva: ter o guarda-chuva não faz chover, mas quando a chuva chega, faz toda a diferença”, afirma o médico. 

Quando iniciado precocemente, o cuidado paliativo contribui para o controle de sintomas como dor, falta de ar e fadiga, além de atuar em aspectos emocionais, sociais e espirituais do paciente. “Não estamos falando apenas de tratar sintomas físicos, mas de olhar para a pessoa como um todo: seus medos, suas relações, sua história e o que é importante para ela naquele momento.” 

Esse olhar também reduz situações de sofrimento evitável. “Muitas pessoas chegam a momentos críticos sem nunca terem conversado sobre o que gostariam que fosse feito. Isso gera decisões difíceis, muitas vezes em ambiente de urgência, com familiares inseguros e sobrecarregados”, diz.
 

Autonomia e informação são centrais no cuidado 

Nesse contexto, ganha importância o acesso à informação de qualidade, ainda escassa no país. Para ampliar esse conhecimento, a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) reúne em seu site uma área dedicada exclusivamente aos cuidados paliativos, com materiais gratuitos e voltados a pacientes, familiares, cuidadores e profissionais de saúde. 

A Aba Cuidados Paliativos concentra conteúdos explicativos, e-books e ferramentas práticas que ajudam a entender quando esse tipo de cuidado deve ser iniciado, como ele funciona na prática e de que forma pode ser acessado. Entre os materiais disponíveis estão guias sobre tomada de decisão, autonomia no fim da vida e planejamento antecipado de cuidados. 

Ferramentas como o Minhas Vontades auxiliam no registro das preferências do paciente, enquanto o projeto Cartas na Mesa propõe uma abordagem mais acessível para iniciar conversas sobre valores e escolhas em saúde. “Falar sobre isso antes da urgência é um ato de cuidado. Quando as vontades são conhecidas, evitamos sofrimento desnecessário e decisões que não refletem o que o paciente gostaria”, explica. 

Para o especialista, ampliar o acesso passa, necessariamente, por informação. “Os cuidados paliativos não antecipam nem adiam a morte, eles garantem que a vida, até o fim, seja vivida com dignidade. Quando as pessoas entendem isso, passam a buscá-los mais cedo e vivem melhor, mesmo diante de doenças graves”, conclui o médico.
 

 Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia - SBGG

 

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