Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que mais de 1 bilhão de
pessoas vivem com transtornos mentais atualmente. Especialista
em neurociência explica como fortalecer a mente em tempos de sobrecarga
emocional usando o amor-próprio como solução
O número comprova um cenário marcado por excesso de estímulos digitais, pressão
por produtividade e aumento dos níveis de ansiedade. Por isso, a forma como as
pessoas utilizam a própria mente tem se tornado um fator decisivo para o
equilíbrio emocional e a qualidade de vida.
Para
a especialista em neurociência aplicada ao comportamento humano, Eliane Sato,
grande parte das pessoas vive hoje em um estado de funcionamento conhecido como
“piloto automático”, que é quando decisões, reações emocionais e comportamentos
passam a ser conduzidos por padrões automáticos e condicionamentos inconscientes.
“Quando
o piloto automático deixa de atuar apenas nas tarefas rotineiras e passa a
conduzir decisões emocionais e comportamentais, entramos em um modo de
funcionamento reativo. Respondemos aos estímulos sem reflexão, repetindo
padrões aprendidos ao longo da vida”, esclarece.
Do
ponto de vista neurobiológico, esse padrão está associado à predominância de
respostas rápidas baseadas na memória emocional, enquanto circuitos ligados à
autorregulação e à tomada de decisão consciente ficam menos ativados. O
resultado pode ser percebido em sintomas cada vez mais comuns na sociedade
contemporânea: dificuldade de concentração, impulsividade, sensação de vazio
emocional e perda de sentido nas atividades cotidianas.
“A
pessoa continua funcionando e entregando resultados externamente, mas
experimenta uma desconexão interna. É o que eu chamo de modo sobrevivência:
eficiente para lidar com a rotina, mas limitado quando se trata de viver com
consciência e propósito”, afirma Sato.
Mente imperturbável
Como
contraponto ao funcionamento automático, Eliane Sato defende o desenvolvimento
de uma “mente imperturbável,” ou seja, a meta do treinamento monástico,
alcançada através da disciplina, meditação e renúncia, permitindo viver com paz
interior constante, independentemente do que acontece no mundo exterior.
Esse
é um conceito que descreve a capacidade de reconhecer emoções, compreender
estímulos internos e externos e responder a eles de forma deliberada. “A mente
imperturbável não é ausência de emoção. Pelo contrário: é a capacidade de
reconhecer o que sentimos e escolher como queremos responder”, explica.
Na
prática, essa habilidade está relacionada à criação de um intervalo entre
estímulo e reação, espaço mental que permite reflexão, análise contextual e
tomada de decisão consciente. Essa capacidade se torna especialmente importante
em ambientes de alta pressão, como o corporativo.
Segundo
a especialista, a permanência prolongada no modo automático pode reduzir a
percepção de risco, favorecer decisões impulsivas e normalizar comportamentos
apressados, comprometendo tanto a qualidade das decisões quanto o equilíbrio
emocional.
Amor-próprio como base da autorregulação
Para
a estudiosa, o desenvolvimento de uma mente mais estável começa pela autoconsciência
e pelo fortalecimento do amor-próprio, que nesse caso deve ser entendido como
responsabilidade emocional. Essa capacidade de observação interna permite
identificar padrões automáticos de comportamento e interromper ciclos que já
não fazem mais sentido.
“Amar
a si mesmo não é um discurso motivacional. É um processo de reconhecer limites,
identificar gatilhos emocionais e assumir responsabilidade pelas próprias
respostas”, afirma. Embora o piloto automático seja útil para lidar com tarefas
repetitivas e rotinas do dia a dia, o problema surge quando ele passa a
conduzir decisões relevantes da vida, como escolhas profissionais,
relacionamentos e reações diante de conflitos.
“É
no automático que respondemos a uma crítica de forma impulsiva, aceitamos
demandas mesmo já sobrecarregados ou permanecemos em situações que já não fazem
mais sentido, simplesmente por inércia. Sobreviver é apenas cumprir tarefas.
Viver com consciência é compreender por que estamos fazendo cada uma delas”,
explica.
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